Rock Progressivo

Flying Colors – Second Nature

Desafio do segundo álbum superado

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Após estrear no mercado em 2012 com um excelente álbum autointitulado, o Flying Colors – banda formada pelo vocalista Casey McPherson (Alpha Rev), o guitarrista Steve Morse (Deep Purple), o baixista Dave LaRue (Dixie Dregs), o tecladista/vocalista Neal Morse (Transatlantic, ex-Spock’s Beard) e o baterista Mike Portnoy (Transatlantic, The Winery Dogs, ex-Dream Theater) – prova que, apesar da pecha de “supergrupo” que lhe foi atribuída, seus membros deixaram, novamente, seus enormes egos de lado e produziram um trabalho que não deixa nada a dever ao anterior. Muito pelo contrário, “Second Nature” é, em diversos aspectos, ainda superior a “Flying Colors”.

“Second Nature” traz tudo o que funcionou no primeiro esforço do conjunto, mas reforça a principal característica de seus integrantes, ou seja, a preferência pelo rock progressivo. Não que a banda tenha abandonado a sonoridade pop do primeiro álbum, ela se encontra aqui em diversos momentos, tornando “Second Nature” um trabalho de fácil digestão e agradabilíssimo de ouvir, ainda que tanto a faixa de abertura “Open Up Your Eyes”, quanto a final, “Cosmic Symphony” possam intimidar alguns ouvintes devido à sua duração (ambas superam os 10 minutos) e passagens mais intrincadas, bastante voltadas para o rock progressivo, mas sem abusar do virtuosismo que caracteriza o estilo. O “recheio” do álbum, no entanto, é delicioso e muito bem equilibrado, trazendo de tudo um pouco: hard rock (“Bombs Away”), baladas (“The Fury of My Love”, “Peaceful Harbor”), pop progressivo (“A Place in the World”) e mesmo faixas radiofônicas com refrões grudentos (“One Love Forever” e “Mask Machine”).

Com “Second Nature” o Flying Colors mostra ser uma banda madura no sentido de a química entre seus integrantes – que, fora o vocalista Casey, já haviam se cruzado em outros projetos (Steve Morse fundou o Dixie Dregs de LaRue e ambos fazem parte da Steve Morse Band e Portnoy é sempre convidado nos álbuns de Neal Morse, além de dividirem os palcos no Transatlantic) – ter se mostrado ainda mais forte, de forma que todos ficaram mais à vontade na hora de compor músicas que soassem técnicas e, ao mesmo tempo, bastante acessíveis. É, sem sombra de dúvidas, um trabalho muito superior ao seu antecessor, o que já coloca as expectativas para um terceiro álbum do grupo lá em cima.

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Symphony X – Iconoclast

Banda mostra sua força em um dos melhores lançamentos do ano


O Symphony X é uma daquelas bandas que vem constantemente lançando bons álbuns. Depois do ótimo “Paradise Lost” de 2007, a banda ficou quatro anos ausente de estúdio, o que possibilitou que divulgasse bastante esse trabalho e ainda desse liberdade para que seus membros se envolvessem em projetos paralelos, solos ou realizassem participações especiais nos álbuns de outras bandas/artistas. Um desses projetos, inclusive, envolve o vocalista Russel Allen com o ex-baterista do Dream Theater, Mike Portnoy. Mas esse é um assunto para um post futuro.

Fato é que esses quatro anos fizeram muito bem para o quinteto – que, além de Russel, conta com Michael Romeo (guitarra e principal compositor), Michael LePond (baixo), Michael Pinnella (teclados) e Jason Rullo (bateria) – e a prova disso é esse “Iconoclast”, um álbum que combina com maestria as principais características do Symphony X, ou seja, a virtuose do rock progressivo com o peso do heavy metal. Não é à toa que a banda é considerada um dos maiores nomes do estilo nos Estados Unidos, perdendo, apenas, para o Dream Theater em notoriedade.

Seguindo a tendência do que bandas como o Nightwish fizeram recentemente, “Iconoclast” é aberta com sua música mais longa e, coincidentemente, a faixa título. Beirando os 11 minutos, ela tem tudo aquilo que se pode esperar do Symphony X: peso, passagens longas e intrincadas e um refrão poderoso. No geral a música lembra um pouco, em algumas passagens e trechos, a faixa “Odyssey”, do álbum homônimo, lançado pela banda em 2002.

“The End of Innocence” vem a seguir e é uma pedrada. Pesada, cheia de riffs interessantes e um refrão grudento e forte, é candidata a clássica instantânea; “Dehumanized” segue essa mesma tendência, assim como “Bastards of the Machine”. No geral, todas as supracitadas e ainda “Heretic” e “Children of a Faceless God” seguem essa tendência, tornando o álbum bastante homogêneo. Para quebrar esse padrão, temos “When All Is Lost”, uma tremenda de uma power ballad que tem tudo para entrar para as grandes músicas da banda e rivalizar com outras, como “The Accolade”, do álbum “The Divine Wings of Tragedy”, de 1997. “When All Is Lost” fecha o primeiro disco da versão “Special Edition”, de “Iconoclast”, objeto dessa resenha.

O ritmo acelerado continua em “Electric Messiah” e segue nessa toada ao longo de todas as cinco faixas do segundo disco. A fórmula das músicas, basicamente, é a mesma: riffs de guitarra pesados e virtuosos, um teclado que está lá para a criação de climas e textutas, bateria precisa e um baixo ora discreto, ora bastante audível. Tudo isso encimado pelo vocal ora agressivo, ora limpo, de Allen e refrões contagiantes. Repetitivo? Talvez. Mas isso não impede que “Iconoclast” já seja candidato forte a entrar na lista de melhores álbuns de metal do ano.

Nota: 10/10

Dream Theater – A Dramatic Turn of Events

Banda mostra que superou bem a perda de seu principal compositor.

Muitas vezes a frase “o lançamento mais esperado do ano” é descaradamente mentirosa e visa, única e exclusivamente, promover algum produto que, muitas vezes, é bastante meia-boca. Outras vezes, a frase é apenas o principal suporte de uma campanha de marketing que visa alavancar a divulgação – e, consequentemente, as vendas – do dito produto. Em algumas raras ocasiões, e dentro de nichos específicos, no entanto, a frase tem uma certa coerência. No mundinho do metal progressivo, o novo álbum de estúdio do Dream Theater, “A Dramatic Turn of Events” faria valer essa frase, caso ela fosse associada ao produto. E aqui, ela se justificaria simplesmente pelo fato de “A Dramatic Turn of Events” ser o primeiro álbum do Dream Theater em vinte cinco anos sem contar com a presença de Mike Portnoy, baterista, compositor, produtor, principal mente criativa, porta-voz, relações públicas, enfim, a força motriz por trás da banda.

Mike Portonoy criou o Dream Theater junto com o guitarrista John Petrucci e o baixista John Myung nos idos de 1980 com o nome Majestic. Pouco depois adotaram a alcunha de Dream Theater e, nas duas décadas seguintes, arregimentaram alguns dos fãs mais leais e radicais do rock. Devido à sua personalidade expansiva, em contraste com a mais introverdida de seus companheiros de banda, logo Portnoy tomou as rédeas do grupo de uma maneira que, parecia a todos os que estavam de fora, bastante natural. Eram suas as idéias que, principalmente, moldaram a sonoridade e a imagem do Dream Theater como a conhecemos hoje. Há até 2 anos atrás imaginar o Dream Theater sem Mike Portnoy seria o mesmo que, guardadas todas as devidas proporções, pensar nos Rolling Stones sem Mick Jagger ou Keith Richards.

A coisa começou a ficar estranha no Dream Theater quando, no segundo semestre do ano passado, o Avenged Sevenfold – que passou pelo Brasil para tocar no esquisito festival SWU – anunciou que Portnoy tinha topado excursionar com a banda, substituindo seu ex-baterista, morto meses antes. Empolgado, Portnoy ingressou na turnê com o Avenged e, na volta, fez uma proposta, no mínimo, polêmica e que quase nunca dá certo no mundo do rock, aos seus companheiros de DT (além dos supracitados Petrucci e Myung, completam o time o vocalista James LaBrie e o tecladista Jordan Rudess): Portnoy queria que o grupo “desse um tempo”, uma parada para “recarregar as energias” e lhe desse tempo para se dedicar aos seus inúmeros projetos – dentre eles, o sensacional Transatlantic. O mesmo valeria para os demais membros, já que tanto LaBrie quando Rudess vira e mexe lançam álbuns solos. (E aqui cabe um parêntese: “Static Impulse”, álbum solo de LaBrie lançado ano passado figura na lista de melhores do ano de qualquer fã de rock “pesado” ou metal que se preze).

Inicialmente, Portnoy queria que o Dream Theater parasse indefinidamente o que, muitas vezes, significa o fim de uma banda. Petrucci, Myung, LaBrie e Rudess recusaram a proposta, até porque a banda tinha planos de entrar em estúdio em janeiro de 2011 para produzir e gravar seu próximo álbum. “Indefinidamente” logo se tornou “dois anos”. Na teoria de Mike, dois anos era o que todos os membros do Dream Theater precisavam para voltar a se entrosar especialmente fora do palco. Novamente, a idéia não foi bem recebida e Portnoy anunciou na Internet que, a partir de 8 de setembro de 2010, ele estaria fora da banda.

O anúncio deu margem a diversas opiniões, como sempre acontece em casos de separação, mesmo que ela seja, teoricamente, amigável: alguns diziam que Portnoy estava certo em querer que o DT desse um tempo, boa parte criticou sua atitude de querer que os demais membros da banda ficassem esperando ele voltar a querer tocar com eles e uma porção menor acreditava que tudo não passava de um golpe de marketing. O Dream Theater logo começaria audições para um substituto e, no fim, anunciaria a volta do filho pródigo.Não foi bem isso que aconteceu e o destino de Mike Portnoy será tema de outra resenha aqui mesmo em Sounds of Asgard.

O fato é que, depois de uma extensa busca e de testar diversos bateristas – inclusive o “polvo” brasileiro Aquiles Priester (ex-Angra, atual Hangar) – o Dream Theater anunciou que o quase desconhecido Mike Mangini assumiria a difícil tarefa de conduzir as baquetas da banda. Já substituir as demais funções de Portnoy na máquina do Dream Theater não foi tão fácil, ainda que menos traumático. Petrucci, Rudess e LaBrie, em proporções diferentes, assumiram as funções de Portnoy no que dizia respeito à comunicação com o público. Rudess e Petrucci já eram colaboradores bastante ativos, fosse no que dizia respeito às letras, fosse às composições em si e o guitarrista acabou tomando a frente e assinando, pela primeira vez sozinho, a produção de um trabalho do Dream Theater. Geralmente a produção era dividida entre ele e Portnoy.

Por tudo isso dito nos parágrafos acima é que sinto-me seguro em dizer que, pelo menos dentre os apreciadores e fãs de metal progressivo, “o lançamento mais esperado do ano” é uma frase que se encaixa como uma luva em “A Dramatic Turn of Events”. E, para o bem ou para o mal, o álbum faz jus à expectativa.

Apesar da influência de Portnoy ter sido decisiva para moldar a sonoridade do Dream Theater, o fato é que sua falta não se faz sentida no novo álbum. Rudess e Petrucci assumiram a maior responsabilidade pela composição das nove faixas do álbum – quatro delas com duração acima de 10 minutos – de forma que seus desempenhos se sobressaem. Não que a bateria tenha sido relegada, muito pelo contrário, Mangini se prova um instrumentista bastante preciso, ora batendo pesado, ora sendo melodioso, ora esbanjando técnica. O que muda aqui é que, em “A Dramatic Turn of Events” ele fez o papel de um músico contratado, já que as partes que lhe cabem foram compostas e programadas por Petrucci. Coube a Mangini reproduzir – com perfeição – o que o guitarristas havia programado em um computador.

Uma característica que se percebe em “A Dramatic Turn Of Events” é que fazia tempo que a música do Dream Theater não soava tão melodiosa e tão progressiva. Experiências em querer ser “mais pesado do que o Pantera” presenciadas em músicas como “The Shattered Fortress” e “Dark Eternal Night” passam longe daqui. O que se priorizou aqui são as famosas passagens intricadas e virtuosas, com solos e riffs assombrosos de Petrucci e o teclado de Jordan quase que onipresente, trazendo até mesmo passagens épicas às músicas, coisas que, novamente, há tempos não se via em um trabalho do Dream Theater.

A faixa de abertura, “On the Backs of Angels”, a candidata a clássico “Breaking All Illusions” e as baladas “This is the Life” e “Beneath the Surface” são exemplos da versatilidade da banda, uma variação que culmina em “Lost Not Forgotten”, talvez a mais elaborada de todo o álbum. Além do trio Petrucci/Rudess/Mangini, é necessário destacar o trabalho fabuloso de James LaBrie que continua mostrando uma excelente evolução a cada álbum da banda. Quem escuta o “patinho feio” hoje não consegue associá-lo aos seus primeiros trabalhos na banda. O baixista John Myung, novamente, tem seu instrumento em segundo plano mas brilha quando seu trabalho fica em evidência.

Em resumo, “A Dramatic Turn Of Events” mostra que, mesmo sem sua principal força criativa, o Dream Theater continua em sintonia com seus fãs e prova mais uma vez o porquê de ser o “monstro” que é no mundo do metal progressivo.

Nota: 9/10

Savatage – Still The Orchestra Plays

Savatage – Still The Orchestra Plays

Coletânea cumpre seu papel com louvor

O Savatage encerrou suas atividades em 2001, deixando uma legião de fãs orfãos daquela que foi uma das mais ousadas bandas de metal de seu tempo. No fim da década passada, mais precisamente em março de 2010, o único remanescente da dupla fundadora da banda, o vocalista Jon Oliva resolveu matar a saudade dos fãs por qualquer material novo do Savatage e lançou no mercado “Still The Orchestra Plays – Greatest Hits volume 1 & 2”, uma coletânea dupla abarcando toda a carreira do grupo. Pra não ser apenas mais uma coletânea genérica como muitas lançadas por aí – e cumprir a promessa de “material novo” – Jon fez questão de adicionar três músicas inéditas ao segundo disco. Pra completar o pacote, o lançamento, em formato digipack, vem ainda com um DVD contendo uma apresentação da banda no Japão em 1994, que havia saído apenas em VHS até então. Uma preciosidade, já que mostra um dos primeiros shows do Savatage sem a presença do guitarrista Criss Oliva, irmão caçula de Jon, morto em um acidente automobilístico meses antes.

Um dos grandes méritos de “Still The Orchestra Plays” é o cuidado com que Jon preparou a obra. Pra começar – e diferente da maioria de coletâneas que vemos no mercado – “Still The Orchestra Plays” traz o que seria o melhor do Savatage – na opinião de Jon, claro. Fãs podem discordar dele – em ordem cronológica, pinçando músicas desde o álbum de estreia, “Dungeons Are Calling” até o derradeiro “Poets and Madmen”, que decretou o fim da banda. Esse recurso se mostra bastante interessante, porque permite acompanhar a evolução e mudanças pelos quais a sonoridade da banda passou em uma ordem bastante linear. É quase como um raio x de como o Savatage era no começo e no final e ainda deixa uma promessa do que poderia ter sido. É difícil chegar à última música do segundo álbum – “Morphine Child” – sem imaginar o que poderia vir a seguir. “Anymore”, “Not What You See” e “Out On The Streets”, três canções acústicas, são as supracitadas músicas inéditas acrescidas como bônus no álbum.

Do DVD não há muito o que falar. Estamos falando de uma banda de heavy metal tocando no Japão após perder um de seus principais integrantes. Se bandas de heavy metal já são comumente bem aceitas no Japão, imagina aqui?

Lançado em terras brasilis em março desse ano pela Hellion Records, “Still The Orchestra Plays” cumpre, com louvor, o duplo papel que lhe fora atribuído. Agrada tanto aos fãs do Savatage quanto aqueles desavisados que gostariam de serem apresentados à banda.

Nota: 9/10

Dream Theater – Systematic Chaos

Banda mostra sua força em álbum de 2007

O Dream Theater surgiu na segunda metade dos anos de 1980 quando o baterista Mike Portnoy, o guitarrista John Petrucci e o baixista John Myung, todos egressos da Berklee College of Music, em Boston, se conheceram e decidiram formar uma banda. Inicialmente intitulada Majesty, logo o trio se juntou ao tecladista Kevin Moore e, pouco mais tarde, ao vocalista Chris Collins. Ao saber que já havia uma banda com o mesmo nome, o quinteto mudou para Dream Theater e, pouco depois de gravarem algumas demos, Chris foi substituído por Charlie Dominici. Com essa formação, gravaram, em 1988, “When Day and Dream Unite”, um álbum que chamou a atenção da crítica e teve uma boa divulgação nas rádios estadunidenses, apesar da pequena tiragem.

Como é comum em bandas de heavy metal, logo diferenças musicais fizeram com que Dominici deixasse a banda. Por dois anos, o Dream Theater se apresentou sem um vocalista fixo, até recrutar James LaBrie pra posição. Em 1992, o lançamento de “Images & words” colocaria a banda de vez no cenário do prog metal. Fazendo uma música calcada não só no virtuosismo típico do progressivo, mas também na energia do heavy metal e recheado das influências mais diversas, hoje o Dream Theater é, reconhecidamente, o nome mais importante dentro do gênero musical que ajudou a criar. Não que seja uma unanimidade, nem de longe. Na verdade, o Dream Theater é daquelas poucas bandas que, ou se ama, ou se odeia. Não há muitos meio termos quando se fala deles.

De qualquer maneira, desde “When day and dream unite” já se foram mais de 20 anos, a formação da banda se estabilizou no fim dos anos 1990, com Portnoy, Petrucci, Myung, LaBrie e o tecladista Jordan Rudess e em 2007 o Dream Theater lançou “Systematic Chaos”, primeiro pela gravadora Roadrunner Records e décimo disco em estúdio da carreira (contando-se aí o EP “A change of seasons”). Um álbum que além, do virtuosismo, técnica e energia característicos do Dream Theater, traz, ainda, influências das mais diversas. Afinal, apesar do que os mais xiitas possam pensar, uma das principais regras do rock progressivo é justamente a falta de regras. Absorve-se tudo o que é interessante dos outros estilos e descarta-se o que não presta.

Assim sendo “Systematic chaos” começa com a primeira parte da suíte “In the presence of enemies”. Com seus nove minutos de duração, a música, que tem uma longa introdução instrumental e já apresenta todos aqueles elementos familiares ao som da banda, ou seja, bons riffs e solos de guitarra, o teclado sempre marcante de Rudess, a bateria precisa de Portnoy, o baixo discreto, mas sempre eficiente de Myung e LaBrie cantando como nunca. Se no começo de sua carreira o vocalista abusava dos agudos, hoje prefere muito mais interpretar as músicas, usando sua voz de uma maneira muito mais conveniente e eficiente.

“Forsaken” é aquela que poderia ser chamada a faixa comercial do álbum. Começando com um duo de piano e guitarra que lembra, de longe o que algumas bandas do famigerado “new” metal fazem – mas o Dream Theater o faz com muito mais maestria, obviamente. Ela traz um refrão de fácil assimilação, daqueles que logo grudam na cabeça. “Forsaken” é daquelas faixas que poderiam tocar em rádio e faria quem não conhece a banda parar pra ouvi-la.

“Constant Motion” é, de cara, um dos destaques individuais do álbum. Claramente influenciada pelo Metallica da fase “… And justice for all” traz um belo trabalho de Petrucci cujo riff de guitarra se encaixaria muito bem em um álbum de thrash metal. Destaque também para o trabalho vocal de LaBrie, cantando de maneira bem agressiva, dividindo os vocais com Portnoy. “Constant Motion” foi, inclusive, escolhida como a música de trabalho do álbum e seu vídeo pode ser conferido no site oficial da Roadrunner (http://www.roadrunnerrecords.com/artists/DreamTheater/video.aspx).

O peso continua em “The dark eternal night”, dessa vez com um riff de guitarra que também lembra bastante o “new” metal, a bateria rápida de Portnoy, mudanças de ritmo supreendentes e vocais cheios de efeitos, novamente divididos entre LaBrie e o baterista. No começo causa um pouco de estranheza, por ser a música mais pesada da carreira da banda, mas se torna logo um dos destaques do álbum.

Não é segredo para os fãs da banda que Mike Portnoy lutou por anos contra o alcoolismo. Depois de recuperado, ele decidiu contar sua história em uma série de músicas que muitos fãs apelidaram carinhosamente de “a saga da cachaça” ou “a saga do bebum”. A primeira parte, “The glass prison”, apareceu no álbum “Six degrees of inner turbulence”, seguida de “This dying soul” (“Train of thought”) e “The root of all evil” (“Octavarium”), cada uma delas baseada em alguns dos passos que o levaram a superar o problema. “Repeteance” cobre os passos 8 e 9 da recuperação e é a música mais calma e progressiva do disco, recheada de longas passagens instrumentais que, fora do contexto das demais, pode parecer um pouco chata à primeira audição. Termina com uma série de diálogos nas vozes de músicos como Daniel Gildenlow (Pain of Salvation, Transatlantic), Neal Morse (Transatlantic, ex-Spoke’s Beard), Corey Taylor (Slipknot, Stone Sour), Steve Vai e Joe Satriani, dentre outros.

Lembra o que eu disse sobre não haver regras no rock progressivo? Pois é, “Prophets of war” é uma das provas disso. A música tem uma forte influência pop, indie e mesmo da discoteca dos anos 1970, o que faz com que sua introdução cause uma certa estranheza. Passado esse primeiro momento, ela se mostra uma música bem interessante, com um belo refrão e bastante energia.

A ela segue-se “The Ministry Of Souls”, que possui uma bela e longa abertura, com passagens instrumentais simplesmente fantásticas. Com quase quinze minutos de duração, é daquelas músicas que precisa ser escutada atenciosamente diversas vezes para que seja bem absorvida. De longe, lembra a faixa “Octavarium”, do álbum anterior.

Finalmente, “In the presence of enemies – part II”, a faixa mais longa do álbum, completa a primeira e possui diversas mudanças de andamento, com um trabalho brilhante de toda a banda. Segundo o vocalista LaBrie, a idéia inicial da banda era fazer “In the presence of enemies” como uma música só – na turnê de divulgação do álbum, ela é tocada assim – mas, no contexto do álbum, a divisão fazia mais sentido.

No fim das contas, mais um excelente álbum do Dream Theater, superando seu antecessor e provando porque a banda é referência dentro do estilo. Não só para seus admiradores quanto para seus detratores.

Savatage – Edge of Thorns

O álbum definitivo de uma banda que acabou prematuramente

O Savatage foi uma das mais importantes e influentes bandas de heavy metal nas décadas de 1980 e 1990. O grupo começou suas atividades nos fins dos anos 1970, sob outro nome, tendo seu primeiro álbum, “Sirens” lançado em 1984. Fruto do trabalho dos irmãos Jon (teclados) e Cris Oliva (guitarra), o Savatage lançou álbum atrás de álbum, de maneira bastante consistente, até 1993, quando Cris morreu vítima de um atropelamento. Jon seguiu com o Savatage até o ano de 2007, quando, no 25º aniversário da banda, decidiu por encerrar as atividades e seguir com seus projetos solo, como o Jon Oliva’s Pain e a bem sucedida Trans-Siberian Orchestra.

Em 2010, Jon Oliva resolveu começar um projeto visando relançar todo o catálogo do Savatage em edições especiais. O relançamento de “Edge of Thorns” faz parte dessa iniciativa. Originalmente lançado em 1993, o álbum é considerado por muitos como um divisor de águas na carreira da banda. Não só pela qualidade inerente ao mesmo, mas também pelo fato de ter sido o último com Cris Oliva à frente das seis cordas. Foi pouco após a turnê de “Edge of Thorns” que Cris sofreu o acidente que viria a matá-lo. Na época, além de Jon e Cris, o Savatage contava com o vocalista Zachary Stevens, o baixista Johnny Lee Middleton e o baterista Steve “Doc” Wacholz.

De “Edge of Thorns”, que abre o álbum, até a emocionante “Sleep”, que fecha o álbum, o que vemos aqui é um trabalho extremamente maduro e convincente, que transita pelos mais diversos ritmos e características do heavy metal proposto pelo Savatage, que, aqui, assume uma posição bastante acessível mas nunca superficial. Músicas como “Edge of Thorns” e “Lights Out” têm refrões bastante empolgantes e grudentos; “Skraggy’s Tomb” e “Miles Away”, são metalzões de respeito; “Degrees of Sanity” traz um solo de guitarra primoroso; “Follow Me”, “All That I Bleed” e a supracitada “Sleep” são power baladas bem encaixadas, com letras bastante relevantes. Essa reedição do álbum traz, ainda, versões acústicas de “All That I Bleed” e “If I Go Away”, duas baladas deveras cativantes.

Dezoito anos após seu lançamento, “Edge of Thorns” é um álbum que ainda se mantém relevante e é prova inconteste de como o fim do Savatage foi, no mínimo, prematuro.

Nota: 9/10

Kappa Crucis – Jewel Box

Climão setentista em estréia de banda paulista

Formado no início dos anos 1990 no interior de São Paulo, o Kappa Crucis demorou mais de uma década para finalmente lançar seu álbum de estréia. Não que o quarteto formado por G. Fischer (vocal e guitarra), R. Tramontin (baixo), F.Dória (bateria) e A. Stefanovitch (teclados) tenha ficado sentado, vendo o tempo passar esperando uma chance. Muito antes pelo contrário, entre os anos de 1997 e 2004 a banda lançou cinco demos e tocou em diversos festivais, de forma a atrair a atenção de algum público e da mídia especializada para o seu som, que é totalmente calcado no rock and roll dos anos 1970, misturando com competência influências de progressivo, hard e stoner rock.

Jewel Box”, o tão adiado trabalho de estréia da banda, foi lançado de maneira independente em 2009, mas só agora começou a ser realmente divulgado. Fazendo um apanhado das demos e músicas inéditas, “Jewel Box” é quase que uma viagem no tempo. Afinal, como dito acima, a proposta da banda é trazer de volta uma sonoridade característica dos anos 1970, especialmente no que diz respeito às guitarras e seus solos, ora longos, ora viajados e os teclados bem encaixados, além da cozinha competente. Da capa à sonoridade, tudo em “Jewel Box” lembra aquela década.

Com um clima bastante sulista – sulista dos EUA, não do Brasil, claro – que lembra trabalhos clássicos de bandas como Uriah Heep e Lynyrd Skynyrd, o Kappa Crucis nos mostra um trabalho bastante maduro e com uma cara bem definida, talvez resultado do hiato de tempo que a banda levou entre as primeiras demos e o álbum de estréia. O álbum tem uma produção redondinha, dando espaço para todos os instrumentos e o vocal aparecerem com o destaque devido. “Jewel Box” é tão homogêneo que fica difícil escolher destaques individuais. Fãs daquele rockão sulista oriundo de quase 40 anos atrás encontrarão uma boa opção no som dos caras.

Nota: 7/10