Hard Rock

Kiss faz show histórico em Belo Horizonte

Foi longa a espera. 32 anos depois de sua primeira passagem por Belo Horizonte – em um show que despertou polêmicas à época devido aos protestos de organizações religiosas contra a presença da banda em terras mineiras – o Kiss voltou à capital mineira para um show realizado no Mineirinho no último dia 23 de abril.

Marcado inicialmente para o estádio do Independência, o show foi transferido para o Mineirinho – casa conhecida pela péssima acústica – por motivos ainda não esclarecidos de maneira satisfatória. Enquanto a organização alega que isso se deu devido a um jogo da Taça Libertadores programado para a véspera no estádio, o que inviabilizaria a preparação da estrutura para o evento, fontes não oficiais atribuem a mudança à baixa procura de ingressos, motivada, em parte pelos altos preços praticados e por falhas na divulgação do evento. O fato de pouco mais de sete mil pessoas terem comparecido ao Mineirinho, no entanto, faz com que a segunda teoria faça mais sentido.

Steel Panther

IMG_0433Independente disso, o fato é que a noite de rock and roll começou com um pouco de atraso – como em praticamente todo show de rock/metal que acontece por aqui. Marcado para as 19:00 hs, passava pouco das 19:30 hs quando os californianos do Steel Panther adentraram o palco para realizar o show de abertura. O quarteto formado por Satchel (guitarra), Michael Star (vocal), Lexxi Foxx (baixo) e Stix Zadinia (bateria) veio ao Brasil pela primeira vez para divulgar seu quarto álbum, “All You Can Eat”, de 2014. Sinceramente, não há muito o que se dizer do Steel Panther. A banda faz um hard rock competente, descendente direto das bandas de glam rock dos anos 1980, especialmente Poison e Motley Crüe, com bastante interação com o público – o guitarrista Satchel fala pra caramba entre uma música e outra – e letras que tem tudo para agradar garotos de 12 anos na plateia, já que giram prioritariamente em torno de sexo. Houve inclusive um pedido do guitarrista para que as senhoritas na plateia lhe mostrassem seus seios e suas partes baixas, com algum sucesso. Com cerca de uma hora de apresentação, o Steel Panther apresentou 11 músicas. Destaques aí vão para “Eyes of a Panther”, “Party All Day (Fuck All Night)” e “Death To All But Metal”, que fechou uma apresentação que, apesar da dedicação do quarteto em cima do palco, não se revelou nada memorável. Nem se pode dizer que cumpriu o papel de esquentar a audiência para a atração principal, dado o aparente desinteresse do público pela banda.

Kiss

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Não demorou muito após o encerramento do show do Steel Panther para que o sistema de som do Mineirinho anunciasse a entrada da atração principal com o tradicional “you wanted the best, you got the best. The hottest band in the world: Kiss”, descendo a cortina para que Gene Simmons (vocal, baixo), Paul Stanley (vocal, guitarra), Thommy Thayer (guitarra) e Eric Singer (vocal, bateria) tomassem o palco de assalto com seu show de luzes, explosões e, claro, a clássica “Detroit Rock City”, a primeira da série de músicas clássicas que seriam executadas naquela noite. “Creatures Of The Night” a relativamente recente “Psycho Circus” e “Love It Loud”, talvez a música mais famosa na carreira de uma banda que coleciona músicas famosas, foram executadas em seguir antes de que Paul Stanley interagisse com a plateia pela primeira vez naquela noite. Daí em diante, a cada nova faixa, Paul se dedicaria a falar um pouco com seu público.

Um show do Kiss é bastante planejado, bem executado e reserva poucas surpresas. Para quem já comparecera em algum deles, não houve muitas novidades. Para os novatos, no entanto, a experiência de ver uma das maiores lendas vivas do rock no palco é algo único. Afinal, estava tudo lá: a pirotecnia, Gene cuspindo fogo em “War Machine”, Tommy Thayer soltando faíscas de sua guitarra em seu solo de guitarra, Gene novamente sendo a estrela ao cuspir sangue, ser elevado aos ares e cantar “God of Thunder” de uma plataforma bem acima do palco e Paul usar um cabo para ir a uma plataforma no meio do público em “Love Gun” e, logo após, ceder os holofotes a Eric Singer quando o mesmo assume os vocais de “Black Diamond”. Tudo feito de maneira bem profissional e ensaiada, visando extrair as melhores reações possíveis do público e conseguindo fazê-lo com sucesso. O imprevisto talvez tenha se dado apenas quando, em uma ação de marketing promovida pelo Clube Atlético Mineiro, Paul Stanley se enrolou em uma bandeira do time e tomou uma vaia tão grande que abafou o que ele queria dizer ao público naquele momento, sendo necessário que a descartasse para que fosse ouvido. Nada demais, no entanto.

Foram quase duas horas de clássicos como “Deuce”, “Calling Doctor Love”, “Lick It Up” e apenas uma música do mais recente álbum da banda, “Monster”, representado aqui por “Hell or Hallelujah”, o que deve ter agradado à audiência que, quando vai em shows de bandas com tanto tempo de estrada e com tantos sucessos em seu acervo, se preocupa mais com os clássicos e menos com as músicas novas. E, se tem algo que o Kiss sabe fazer como poucos, é agradar seu público. Algo que vem fazendo com sucesso há quarenta anos e deve continuar fazendo por mais algum tempo. A apresentação foi encerrada, como não podia deixar de ser, com “Rock And Roll All Nite”.

Uma última observação deve ser feita a respeito do público “roqueiro” de Belo Horizonte que, mais uma vez, decepcionou. É tradição que o público de BH reclame que as grandes bandas toquem em Rio, São Paulo e Porto Alegre, vindo pouco à capital mineira. No entanto, quando algum promotor efetivamente traz as bandas para Belo Horizonte, o público não comparece. É o ingresso que está caro, é o horário, é o dia da semana, é o fato de ter jogo do Cruzeiro/Atlético no mesmo dia… As desculpas são inúmeras, mas o resultado sempre é o mesmo: um público final que não estimula que produtores tragam essas bandas novamente à cidade. Em 2009 o Iron Maiden tocou em Belo Horizonte no mesmo Mineirinho e aquele foi o menor público da turnê em terras tupiniquins. Esse ano foi o Kiss que tocou para pouco mais de sete mil pessoas – que fizeram seu papel aplaudindo, cantando e gritando o tempo todo – na cidade. Como ouvi uma pessoa dizendo ao fim do show, “quem viu, viu. Quem não viu, nunca mais”. Que se contentem com shows de alguma das bandas cover dedicadas a homenagear o grupo e que tem espaço cativo nas mais diversas casas de show da cidade. Só não reclamem de não terem a chance de verem os originais.

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AC/DC – Rock or Bust

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Todo mundo que viaja muito a trabalho diz que não há sensação melhor do que voltar para casa, pois, por melhor que seja estar na estrada, ali é onde a pessoa se sente mais confortável. Tudo é familiar, conhecido, não há tantas surpresas ou coisas novas com as quais se acostumar, não há aquele sentimento de desconforto que muitas vezes encaramos perante novidades.

Com o AC/DC é a mesma coisa. Mesmo que tenha se passado mais de meia década – ou, mais precisamente, seis anos – entre “Black Ice” (2008) e esse “Rock or Bust” e independente da fase turbulenta pela qual a banda está passando – a internação do guitarrista Malcolm Young, diagnosticado com demência e a acusação de tentativa de homicídio pela qual o baterista Phil Rudd está respondendo, o que afastou ambos do grupo – basta escutar os primeiros cinco segundos da faixa título que abre o novo trabalho do AC/DC para nos sentirmos em casa. “Rock or Bust” pode ser o 15º álbum na carreira do AC/DC, mas soa tão bem quanto todos os 14 trabalhos anteriores.

Repetir-se, inclusive, é uma marca indelével do AC/DC. Desde bem cedo em sua carreira os irmãos Young (Malcolm e Angus) traçaram uma fórmula no que diz respeito às composições das músicas de sua banda e se mantém nela desde então. Ora, se algo dá certo há literalmente quarenta anos, não há porque mudar, certo? Para banda e fãs, isso é excelente. Já para quem tenta analisar o álbum, nem tanto. Afinal, não há muito que se dizer sobre “Rock or Bust” que não foi dito antes sobre qualquer álbum do AC/DC. Riffs matadores de Angus (apoiado pelo novo guitarrista, Steve Young)? Confere. A voz rouca de Brian Jonhson? Presente. Refrões grudentos? Sim. Letras alto astral prestando homenagem ao Rock and Roll? Com certeza.

Com onze faixas, “Rock or Bust” traz mais do mesmo de uma banda que se especializou em fazer mais do mesmo com bastante competência e não deixa de ser mais um bom álbum na carreira do AC/DC. Se não traz novidades, também não corre o risco de desapontar os fãs de longa data. Pode ouvir sem receios.

 

The Winery Dogs – Unleashed in Japan 2013

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O The Winery Dogs é outra daquelas bandas que a imprensa especializada rotulou como um “supergrupo”, já que reúne o baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater, Flying Colors), o baixista Billy Sheehan (Mr. Big, ex-Steve Vai) e o guitarrista/vocalista Ritchie Kozen (ex-Mr. Big, ex-Poison), todo com extensas carreiras e grande reconhecimento de público e crítica.

Depois de um excelente álbum debut autointitulado, o The Winery Dogs resolveu fazer o que hoje se tornou algo costumeiro dentre diversas bandas e, já de cara, investir na gravação de um DVD/CD ao vivo. O resultado disso é esse “Unleashed in Japan” que traz dez músicas sendo sete do álbum de estreia da banda e as demais versões para outros grupos.

Quem viu o trio se apresentar ao vivo na turnê de divulgação de seu álbum de estreia, que passou pelo Brasil, sabe muito bem o que esperar do grupo. Ao contrário do que poderia se pensar, dado à fama de virtuose de seus membros, o The Winery Dogs faz um som bem azeitado, com uma preocupação muito maior em fazer um rock and roll oitentista com influências dos anos 1970 de qualidade e menos em mostrar o quão fodões são em seus respectivos instrumentos. Claro que nos shows sempre há aqueles minutos em que um dos membros da banda toma o palco sozinho e realiza um solo justamente para exercer esse virtuosismo mas, pelo menos no que diz respeito à versão em CD simples de “Unleashed in Japan”, que é objeto dessa resenha, isso foi deixado de lado. O que temos aqui são 49 minutos do mais puro rock n’ roll, contagiante, energético e, obviamente, muito bem executado.

Com destaque para as músicas “Elevate”, que abre o álbum, a balada “I’m no Angel”, “Shine”, versão para a faixa gravada originalmente pelo Mr. Big e “Desire”, que fecha a bolachinha, “The Winery Dogs – Unleashed in Japan” é um excelente registro ao vivo e é uma ótima alternativa para aqueles não familiarizados com o trabalho da banda passarem a conhecê-la. Agora é torcer para que um álbum de inéditas seja lançado antes de Portnoy resolver abandonar o barco, como fez com o Adrenaline Mob…

Flying Colors – Second Nature

Desafio do segundo álbum superado

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Após estrear no mercado em 2012 com um excelente álbum autointitulado, o Flying Colors – banda formada pelo vocalista Casey McPherson (Alpha Rev), o guitarrista Steve Morse (Deep Purple), o baixista Dave LaRue (Dixie Dregs), o tecladista/vocalista Neal Morse (Transatlantic, ex-Spock’s Beard) e o baterista Mike Portnoy (Transatlantic, The Winery Dogs, ex-Dream Theater) – prova que, apesar da pecha de “supergrupo” que lhe foi atribuída, seus membros deixaram, novamente, seus enormes egos de lado e produziram um trabalho que não deixa nada a dever ao anterior. Muito pelo contrário, “Second Nature” é, em diversos aspectos, ainda superior a “Flying Colors”.

“Second Nature” traz tudo o que funcionou no primeiro esforço do conjunto, mas reforça a principal característica de seus integrantes, ou seja, a preferência pelo rock progressivo. Não que a banda tenha abandonado a sonoridade pop do primeiro álbum, ela se encontra aqui em diversos momentos, tornando “Second Nature” um trabalho de fácil digestão e agradabilíssimo de ouvir, ainda que tanto a faixa de abertura “Open Up Your Eyes”, quanto a final, “Cosmic Symphony” possam intimidar alguns ouvintes devido à sua duração (ambas superam os 10 minutos) e passagens mais intrincadas, bastante voltadas para o rock progressivo, mas sem abusar do virtuosismo que caracteriza o estilo. O “recheio” do álbum, no entanto, é delicioso e muito bem equilibrado, trazendo de tudo um pouco: hard rock (“Bombs Away”), baladas (“The Fury of My Love”, “Peaceful Harbor”), pop progressivo (“A Place in the World”) e mesmo faixas radiofônicas com refrões grudentos (“One Love Forever” e “Mask Machine”).

Com “Second Nature” o Flying Colors mostra ser uma banda madura no sentido de a química entre seus integrantes – que, fora o vocalista Casey, já haviam se cruzado em outros projetos (Steve Morse fundou o Dixie Dregs de LaRue e ambos fazem parte da Steve Morse Band e Portnoy é sempre convidado nos álbuns de Neal Morse, além de dividirem os palcos no Transatlantic) – ter se mostrado ainda mais forte, de forma que todos ficaram mais à vontade na hora de compor músicas que soassem técnicas e, ao mesmo tempo, bastante acessíveis. É, sem sombra de dúvidas, um trabalho muito superior ao seu antecessor, o que já coloca as expectativas para um terceiro álbum do grupo lá em cima.

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Michael Kiske e Kai Hansen juntos depois de 23 anos: precisa dizer mais?

 

Tem alguns lançamentos – seja nos quadrinhos, no cinema, na literatura ou na música – que colocam um sorriso em nossos lábios antes mesmo de eles se tornarem reais. Muitas vezes esse sorriso se desbota ou mesmo se apaga quando o tão esperado lançamento nos chega em mãos, pois a expectativa criada ao redor dele foi muito além da realidade proporcionada pelo mesmo. Em outras vezes, esse sorriso se mantém ou – mais raramente ainda – se alarga ao percebemos que o produto ao qual tanto esperávamos era ainda melhor do que poderíamos suspeitar. Felizmente, esse é o caso do álbum de estreia do Unisonic, que aterrissou recentemente em terras brasileiras via Hellion Records. Antes de falar sobre ele, no entanto, um pouco de contexto é necessário para aqueles que não acompanham a cena do heavy metal de maneira mais próxima.

Na primeira metade dos anos 1980, poucos anos após o NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal ou a “nova onda do metal inglês”) ter tomado o mundo da dita “música pesada” de assalto, era a Alemanha quem, timidamente, começava a reinventar o metal como todos os conheciam. Na verdade, a palavra “reinvenção” pode não refletir exatamente o que acontecia, já que, de fato, as bandas alemãs estavam para liderar a criação de um novo sub-gênero de heavy metal conhecida por “power metal” ou, de maneira mais genérica, “metal melódico”.

Formada em Hamburgo, em 1984, o Helloween seria um dos principais nomes desse novo gênero de heavy metal, que combinava a velocidade e o peso do metal tradicional com melodias mais virtuosas e harmoniozas. A formação original da banda contava com Kai Hansen (vocais e guitarra), Michael Weikath (guitarras), Markus Grosskopf (baixo) e Ingo Schwichtenberg (na bateria). Depois de dois álbuns com essa formação, o Helloween adicionou o vocalista Michael Kiske à banda (Kai optara por desempenhar apenas a função de guitarrista). Dotado de um alcance vocal absurdo e uma voz feita sob medida para aquele estilo musical, os dois álbuns lançados pelo Helloween nos anos seguintes, intitulados “Keeper of the Seven Keys part I” e “Keeper of the Seven Keys part II” provaram ao mundo que o heavy metal europeu tinha muito a mostrar. Kiske, principalmente, foi logo alçado a “Metal God” e comparado à vocalistas consagrados como Rob Halford (Judas Priest) Ian Gillan (Deep Purple) e Bruce Dickinson (Iron Maiden). Parecia que o céu era o limite para o Helloween. Aí o caldo desandou.

Brigas internas fizeram com que Kai deixasse a banda e o Helloween perdesse muito de seu apelo, já que Hansen era uma tremenda força criativa dentro da banda. Hansen foi, então, desenvolver seu projeto solo, que logo se tornaria uma banda em tempo integral, o Gamma Ray, além de trabalhar em projetos dos outros – como o Iron Savior – e ajudar bandas novatas, como o Blind Guardian. Sem Kai, o Helloween gravou dois de seus piores álbuns: “Pink Bubbles Go Ape” e o quase pop “Chameleon”. As tensões dentro da banda ficaram tão grandes que ela quase acabou. No fim, tudo se resumiu à um grande conflito entre Michael Weikath e Michael Kiske. No fim, Kiske acabou por deixar o Helloween.

Pulando partes mais tediosas, chegamos à 2010. O Helloween continuou sua carreira e aos poucos recuperou o respeito dos fãs; Kai Hansen transformou seu Gamma Ray em uma das maiores bandas do gênero e Michael Kiske meio que sumiu, gravando álbuns solo aqui e ali e participando de projetos como o (muito bom) Place Vendome e o (interessante) Supared. Kiske estava sendo mais lembrado por seu passado do que pelo presente… Salvo pelas participações importantes nos álbuns do Avantasia, projeto paralelo da mente por trás do Edguy, o vocalista Tobias Sammet. Kai Hansen também havia participado de alguns dos álbuns do Avantasia e  a turnê da banda naquele ano recolocou os dois no mesmo palco. O entrosamento de Helloween logo foi retomado, a ideia de fazer algo juntos nasceu e Kiske, após recusar o convite de se unir ao Gamma Ray por achar o som da banda muito “pesado”, convidou Hansen para que ele se juntasse ao seu novo projeto, o Unisonic. O resultado dessa ideia é justamente o debut auto-intitulado da banda que além dos exaustivamente supracitados Kiske e Hansen conta também com o guitarrista Mandy Meyer (Asia, Gotthard), o baixista Dennis Ward (Pink Cream 69, Place Vendome) e o baterista Kostas Zafiriou (Pink Cream 69).

Unisonic traz tudo aquilo que um fã de hard rock e heavy metal pode querer. Músicas para cima, com letras bem alto astral, instrumental ora cadenciado, ora virtuoso, riffs de guitarra e refrões grudentos e, claro, o vocal de Michael Kiske dando um diferencial tremendo para a coisa. É impressionante como o cara consegue, apesar de já ter passado dos 40, manter seu timbre vocal e a qualidade de seu gogó lá no alto. Isso pode se dever também, em parte, pelo fato de Kai Hansen e Dennis Ward – os principais compositores da banda – saberem exatamente o que tem em mãos e escreverem linhas vocais feitas sob medida para o careca. Com 12 faixas e já começando chutando a porta da sala com a música título, “Unisonic”, repito, mantém o nível lá em cima, com faixas variando do hard rock para o metal melódico e transitando tranquilamente por ambos os gêneros sem perder cadência ou qualidade. Músicas como “My Sanctuary”, “Renegade” e “Never Too Late”, além das baladas “Star Rider” e  “No One Ever Sees Me” são provas inegáveis do talento dos músicos envolvidos. Não houvessem banalizado o termo, o Unisonic teria todos os quesitos necessários para ser chamado de “supergrupo”. Mais até do que muito “supergrupo” que tem por aí.

Nota: 10/10 

Amaranthe – Amaranthe

Um álbum de estreia competente

Uma das coisas mais interessantes – e talvez uma das maiores responsáveis pela longevidade – do heavy metal é a forma como o estilo não mantém muitas amarras aos seus clichês. Pelo fato de ser um estilo pouco comercialmente acessível, as bandas que optam por esse sub-gênero musical não se furtam em experimentar e adicionar elementos advindos de outras tendências musicais em seu som. Aqueles que conhecem álbuns de Yingwie J. Malmsteen, Epica, Dimmu Borgir, Therion ou mesmo o mais popular “S&M”, do Metallica sabe exatamente como essa tendência funciona.

Sem tentar reinventar o gênero, o Amaranthe apareceu para o mundo no ano passado, depois de dois anos em atividade, com seu álbum de estreia auto-intitulado, trazendo uma mistura estranha mas que funciona: a mistura de elementos de death e power metal com teclados claramente influenciados pela música pop, além de uma combinação de vocais quase característica de bandas mais voltadas para o gothic metal. O Amaranthe tem nada menos do que três vocalistas: a bela Elize Ryd (cuja experiência anterior se limita à uma excursão como backing vocal dos estadunidenses do Kamelot), Jake E (Dream Evil), responsável pela voz masculina limpa e Andreas Solveström (Cipher System), que cuida dos vocais guturais/gritados. Completam a formação o guitarrista/tecladista Olof Mörck (Dragonland, Nightrage) o baixista Johan Andreassen (da banda sueca de metal industrial Engel), e o baterista Morten Løwe Sørensen (Mercenary).

Musicalmente falando, “Amaranthe” traz basicamente um apanhado de tudo o que foi dito acima: elementos de power e death metal com uma pegada bastante pop, mas sem descambar para os principais clichês de quaisquer um desses sub-gêneros. O álbum contém 12 músicas que são bastante homogêneas entre si, e não deixa de trazer faixas com refrões grudentos  como em “Hunger” e “Automatic”, músicas pesadas como “Rain” e a indefectível balada, aqui representada por “Amaranthine”. Uma coisa bem legal nesse álbum de estreia do Amaranthe foi o fato de a banda conseguir combinar elementos tão díspares de forma que funcionassem harmoniozamente em um trabalho bastante homogêneo e bem feito. É aquele tipo de álbum que pode ser escutado uma vez após a outra sem ser cansativo. Vale a pena dar uma conferida.

“Amaranthe” foi lançado no Brasil no começo do ano via Hellion Records.

Nota: 8/10   

Slippery – First Blow

Bela estreia de banda de Campinas

Formado por Fabiano Drudi (vocal), Dragão e Kiko Shred (guitarras), Erico Moraes (baixo) e Rod Rodriguez (bateria) em Campinas, o Slippery começou sua carreira nove anos atrás, em 2003, com o objetivo de fazer um hard rock puro e simples, aproveitando de todo o vigor e virtuose do som feito nos anos 1980 por bandas como Def Leppard, Mötley Crüe, Dokken, Bon Jovi, dentre outros.

O EP “Follow Your Dreams“, lançado em 2007, abriu as portas do mercado para a banda, que foi convidada no mesmo ano – e nos seguintes – para abrir shows de Jimi Jamison (vocalista do Survivor, banda mais conhecida pela música “Eye of the Tiger”, do filme “Rocky III”), Jeff Scott Soto (vocalista “nômade” cujos pontos altos na carreira foram as passagens pelas bandas dos guitarristas Yngwie J. Malmsteen e Axel Rudi Pell, a parceria com o falecido baixista Marcel Jacob no Talisman e no Human Clay e sua breve experiência com o Journey) e L.A. Guns.

Eis que, finalmente, em 2012, o Slippery lança seu primeiro álbum completo, inspiradamente chamado “First Blow”. Produzido por Átila Ardanuy (Dr. Sin, Anjos Da Noite), ao longo de suas 11 faixas – sendo 10 originais e uma cover de “Night of the Demon”, do “Demon”- o álbum é uma viagem aos anos de 1980, pura e simplesmente. Dragão, em entrevista recente ao Whiplash, disse que a banda não se incomoda e até gosta de ser comparada aos grandes nomes dos anos de 1980 e que não se importa quando dizem que seu som é cheio dos clichês da época. Pois é exatamente isso que “First Blow” apresenta: um hard rock quase farofa em alguns momentos, com um instrumental afinado, baladas melosas, e letras “alto astral”, que colocam um sorriso no rosto de quem ouve. Ah, não espere aqui letras idolatrando o tripé “sexo-drogas-rock and roll” ou, melhor ainda, “bebidas-mulheres-rock and roll” eternizado por nomes de peso no hard rock, como Kiss e Twisted Sister. O Slippery investe um pouco mais em suas letras, de forma que a superficialidade seja deixada de lado.

“First Blow” é um álbum bem homogêneo e agradável de se escutar, do início ao fim. Músicas como “Slippery”, a balada “No Time To Sorrow”, e as grudentas “Run for Action” e “Out of the light” são alguns dos destaques individuais do trabalho.

No fim das contas, “First Blow” mostra que o hard rock “datado” e “clichezento” ainda tem muito fôlego, basta que os músicos responsáveis por fazer esse tipo de música atualmente saibam o terreno no qual estão pisando. Altamente recomendado.

8/10