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Kiss faz show histórico em Belo Horizonte

Foi longa a espera. 32 anos depois de sua primeira passagem por Belo Horizonte – em um show que despertou polêmicas à época devido aos protestos de organizações religiosas contra a presença da banda em terras mineiras – o Kiss voltou à capital mineira para um show realizado no Mineirinho no último dia 23 de abril.

Marcado inicialmente para o estádio do Independência, o show foi transferido para o Mineirinho – casa conhecida pela péssima acústica – por motivos ainda não esclarecidos de maneira satisfatória. Enquanto a organização alega que isso se deu devido a um jogo da Taça Libertadores programado para a véspera no estádio, o que inviabilizaria a preparação da estrutura para o evento, fontes não oficiais atribuem a mudança à baixa procura de ingressos, motivada, em parte pelos altos preços praticados e por falhas na divulgação do evento. O fato de pouco mais de sete mil pessoas terem comparecido ao Mineirinho, no entanto, faz com que a segunda teoria faça mais sentido.

Steel Panther

IMG_0433Independente disso, o fato é que a noite de rock and roll começou com um pouco de atraso – como em praticamente todo show de rock/metal que acontece por aqui. Marcado para as 19:00 hs, passava pouco das 19:30 hs quando os californianos do Steel Panther adentraram o palco para realizar o show de abertura. O quarteto formado por Satchel (guitarra), Michael Star (vocal), Lexxi Foxx (baixo) e Stix Zadinia (bateria) veio ao Brasil pela primeira vez para divulgar seu quarto álbum, “All You Can Eat”, de 2014. Sinceramente, não há muito o que se dizer do Steel Panther. A banda faz um hard rock competente, descendente direto das bandas de glam rock dos anos 1980, especialmente Poison e Motley Crüe, com bastante interação com o público – o guitarrista Satchel fala pra caramba entre uma música e outra – e letras que tem tudo para agradar garotos de 12 anos na plateia, já que giram prioritariamente em torno de sexo. Houve inclusive um pedido do guitarrista para que as senhoritas na plateia lhe mostrassem seus seios e suas partes baixas, com algum sucesso. Com cerca de uma hora de apresentação, o Steel Panther apresentou 11 músicas. Destaques aí vão para “Eyes of a Panther”, “Party All Day (Fuck All Night)” e “Death To All But Metal”, que fechou uma apresentação que, apesar da dedicação do quarteto em cima do palco, não se revelou nada memorável. Nem se pode dizer que cumpriu o papel de esquentar a audiência para a atração principal, dado o aparente desinteresse do público pela banda.

Kiss

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Não demorou muito após o encerramento do show do Steel Panther para que o sistema de som do Mineirinho anunciasse a entrada da atração principal com o tradicional “you wanted the best, you got the best. The hottest band in the world: Kiss”, descendo a cortina para que Gene Simmons (vocal, baixo), Paul Stanley (vocal, guitarra), Thommy Thayer (guitarra) e Eric Singer (vocal, bateria) tomassem o palco de assalto com seu show de luzes, explosões e, claro, a clássica “Detroit Rock City”, a primeira da série de músicas clássicas que seriam executadas naquela noite. “Creatures Of The Night” a relativamente recente “Psycho Circus” e “Love It Loud”, talvez a música mais famosa na carreira de uma banda que coleciona músicas famosas, foram executadas em seguir antes de que Paul Stanley interagisse com a plateia pela primeira vez naquela noite. Daí em diante, a cada nova faixa, Paul se dedicaria a falar um pouco com seu público.

Um show do Kiss é bastante planejado, bem executado e reserva poucas surpresas. Para quem já comparecera em algum deles, não houve muitas novidades. Para os novatos, no entanto, a experiência de ver uma das maiores lendas vivas do rock no palco é algo único. Afinal, estava tudo lá: a pirotecnia, Gene cuspindo fogo em “War Machine”, Tommy Thayer soltando faíscas de sua guitarra em seu solo de guitarra, Gene novamente sendo a estrela ao cuspir sangue, ser elevado aos ares e cantar “God of Thunder” de uma plataforma bem acima do palco e Paul usar um cabo para ir a uma plataforma no meio do público em “Love Gun” e, logo após, ceder os holofotes a Eric Singer quando o mesmo assume os vocais de “Black Diamond”. Tudo feito de maneira bem profissional e ensaiada, visando extrair as melhores reações possíveis do público e conseguindo fazê-lo com sucesso. O imprevisto talvez tenha se dado apenas quando, em uma ação de marketing promovida pelo Clube Atlético Mineiro, Paul Stanley se enrolou em uma bandeira do time e tomou uma vaia tão grande que abafou o que ele queria dizer ao público naquele momento, sendo necessário que a descartasse para que fosse ouvido. Nada demais, no entanto.

Foram quase duas horas de clássicos como “Deuce”, “Calling Doctor Love”, “Lick It Up” e apenas uma música do mais recente álbum da banda, “Monster”, representado aqui por “Hell or Hallelujah”, o que deve ter agradado à audiência que, quando vai em shows de bandas com tanto tempo de estrada e com tantos sucessos em seu acervo, se preocupa mais com os clássicos e menos com as músicas novas. E, se tem algo que o Kiss sabe fazer como poucos, é agradar seu público. Algo que vem fazendo com sucesso há quarenta anos e deve continuar fazendo por mais algum tempo. A apresentação foi encerrada, como não podia deixar de ser, com “Rock And Roll All Nite”.

Uma última observação deve ser feita a respeito do público “roqueiro” de Belo Horizonte que, mais uma vez, decepcionou. É tradição que o público de BH reclame que as grandes bandas toquem em Rio, São Paulo e Porto Alegre, vindo pouco à capital mineira. No entanto, quando algum promotor efetivamente traz as bandas para Belo Horizonte, o público não comparece. É o ingresso que está caro, é o horário, é o dia da semana, é o fato de ter jogo do Cruzeiro/Atlético no mesmo dia… As desculpas são inúmeras, mas o resultado sempre é o mesmo: um público final que não estimula que produtores tragam essas bandas novamente à cidade. Em 2009 o Iron Maiden tocou em Belo Horizonte no mesmo Mineirinho e aquele foi o menor público da turnê em terras tupiniquins. Esse ano foi o Kiss que tocou para pouco mais de sete mil pessoas – que fizeram seu papel aplaudindo, cantando e gritando o tempo todo – na cidade. Como ouvi uma pessoa dizendo ao fim do show, “quem viu, viu. Quem não viu, nunca mais”. Que se contentem com shows de alguma das bandas cover dedicadas a homenagear o grupo e que tem espaço cativo nas mais diversas casas de show da cidade. Só não reclamem de não terem a chance de verem os originais.

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The Winery Dogs – Unleashed in Japan 2013

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O The Winery Dogs é outra daquelas bandas que a imprensa especializada rotulou como um “supergrupo”, já que reúne o baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater, Flying Colors), o baixista Billy Sheehan (Mr. Big, ex-Steve Vai) e o guitarrista/vocalista Ritchie Kozen (ex-Mr. Big, ex-Poison), todo com extensas carreiras e grande reconhecimento de público e crítica.

Depois de um excelente álbum debut autointitulado, o The Winery Dogs resolveu fazer o que hoje se tornou algo costumeiro dentre diversas bandas e, já de cara, investir na gravação de um DVD/CD ao vivo. O resultado disso é esse “Unleashed in Japan” que traz dez músicas sendo sete do álbum de estreia da banda e as demais versões para outros grupos.

Quem viu o trio se apresentar ao vivo na turnê de divulgação de seu álbum de estreia, que passou pelo Brasil, sabe muito bem o que esperar do grupo. Ao contrário do que poderia se pensar, dado à fama de virtuose de seus membros, o The Winery Dogs faz um som bem azeitado, com uma preocupação muito maior em fazer um rock and roll oitentista com influências dos anos 1970 de qualidade e menos em mostrar o quão fodões são em seus respectivos instrumentos. Claro que nos shows sempre há aqueles minutos em que um dos membros da banda toma o palco sozinho e realiza um solo justamente para exercer esse virtuosismo mas, pelo menos no que diz respeito à versão em CD simples de “Unleashed in Japan”, que é objeto dessa resenha, isso foi deixado de lado. O que temos aqui são 49 minutos do mais puro rock n’ roll, contagiante, energético e, obviamente, muito bem executado.

Com destaque para as músicas “Elevate”, que abre o álbum, a balada “I’m no Angel”, “Shine”, versão para a faixa gravada originalmente pelo Mr. Big e “Desire”, que fecha a bolachinha, “The Winery Dogs – Unleashed in Japan” é um excelente registro ao vivo e é uma ótima alternativa para aqueles não familiarizados com o trabalho da banda passarem a conhecê-la. Agora é torcer para que um álbum de inéditas seja lançado antes de Portnoy resolver abandonar o barco, como fez com o Adrenaline Mob…

Flying Colors – Second Nature

Desafio do segundo álbum superado

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Após estrear no mercado em 2012 com um excelente álbum autointitulado, o Flying Colors – banda formada pelo vocalista Casey McPherson (Alpha Rev), o guitarrista Steve Morse (Deep Purple), o baixista Dave LaRue (Dixie Dregs), o tecladista/vocalista Neal Morse (Transatlantic, ex-Spock’s Beard) e o baterista Mike Portnoy (Transatlantic, The Winery Dogs, ex-Dream Theater) – prova que, apesar da pecha de “supergrupo” que lhe foi atribuída, seus membros deixaram, novamente, seus enormes egos de lado e produziram um trabalho que não deixa nada a dever ao anterior. Muito pelo contrário, “Second Nature” é, em diversos aspectos, ainda superior a “Flying Colors”.

“Second Nature” traz tudo o que funcionou no primeiro esforço do conjunto, mas reforça a principal característica de seus integrantes, ou seja, a preferência pelo rock progressivo. Não que a banda tenha abandonado a sonoridade pop do primeiro álbum, ela se encontra aqui em diversos momentos, tornando “Second Nature” um trabalho de fácil digestão e agradabilíssimo de ouvir, ainda que tanto a faixa de abertura “Open Up Your Eyes”, quanto a final, “Cosmic Symphony” possam intimidar alguns ouvintes devido à sua duração (ambas superam os 10 minutos) e passagens mais intrincadas, bastante voltadas para o rock progressivo, mas sem abusar do virtuosismo que caracteriza o estilo. O “recheio” do álbum, no entanto, é delicioso e muito bem equilibrado, trazendo de tudo um pouco: hard rock (“Bombs Away”), baladas (“The Fury of My Love”, “Peaceful Harbor”), pop progressivo (“A Place in the World”) e mesmo faixas radiofônicas com refrões grudentos (“One Love Forever” e “Mask Machine”).

Com “Second Nature” o Flying Colors mostra ser uma banda madura no sentido de a química entre seus integrantes – que, fora o vocalista Casey, já haviam se cruzado em outros projetos (Steve Morse fundou o Dixie Dregs de LaRue e ambos fazem parte da Steve Morse Band e Portnoy é sempre convidado nos álbuns de Neal Morse, além de dividirem os palcos no Transatlantic) – ter se mostrado ainda mais forte, de forma que todos ficaram mais à vontade na hora de compor músicas que soassem técnicas e, ao mesmo tempo, bastante acessíveis. É, sem sombra de dúvidas, um trabalho muito superior ao seu antecessor, o que já coloca as expectativas para um terceiro álbum do grupo lá em cima.

Iced Earth – Dystopia

Novo vocalista mostra a que veio

Fundado em 1985, sob a alcunha de “Purgatory”, pelo guitarrista Jon Schaffer, o Iced Earth foi rebatizado em 1989 e, no ano seguinte, lançou seu primeiro álbum, auto-intitulado. Começaria aí a história de uma das melhores e mais subestimadas bandas de metal surgida na terra do Tio Sam.

Em seus quase 30 anos de história, o Iced Earth foi uma das bandas que mais sofreu – ou se aproveitou, talvez – com as constantes mudanças em sua formação. Dificilmente a banda repetia a mesma formação em dois álbuns. Muitas vezes, o quinteto que gravava o álbum não era o mesmo que saia na turnê para divulga-lo. Desde 1991, ano de lançamento de seu auto-intitulado debut até esse “Dystopia”, dá pra perder a conta de quantas formações a banda teve. A coisa era tão incostante que em cada um de seus primeiros 3 álbuns (“Iced Earth”, “Night of the Stormrider” e “Burnt Offerings”) o Iced Earth teve um vocalista diferente, até que o terceiro, Matt Barlow veio para ficar.

Em 1996 o Iced Earth apareceu para o mundo nerd quando do lançamento de “Dark Saga”, álbum conceitual (o segundo desse tipo em sua história de, até então, 4 álbuns) baseado no personagem Spawn, de Todd McFarlane, bastante em voga na época. Comparada muitas vezes com grandes nomes do estilo como Metallica e Iron Maiden, o Iced Earth passou a construir uma discografia sólida, muito provavelmente devido ao entrosamento de Barlow e Schaffer.

Em 2003, a parceria foi quebrada. Afetado pelos ataques terroristas ao World Trade Center – que inspiraram o álbum lançado naquele ano “The Glorious Burden”, um tributo ao “espírito de luta” do povo estadunidense – Barlow decidiu que deveria fazer algo para contribuir com o “mundo real” e deixou a banda para se tornar um oficial de polícia na cidade de Georgetown, Delaware. Para seu lugar, Schaffer recrutou Tim “Ripper” Owens, ex-vocalista do Judas Priest. Após dois álbuns (“The Glorious Burden” e “Framing Armageddon: Something Wicked Part 1”, a continuação da história iniciada em “Something Wicked This Way Comes”, de 1998), no entanto, Owens foi demitido da banda, para que Barlow retornasse. Seu álbum de re-estreia foi lançado em 2008 e fechava a “Something Wicked Trilogy”, com “The Crucible of Man: Something Wicked Part 2”. Três anos depois, em 2011, Barlow anunciava através do site oficial da banda que estava saindo de novo, dessa vez para se aposentar da música e dedicar mais tempo à sua família. O desconhecido Stu Block assumiria os vocais para o próximo álbum.

Lançado em outubro passado, “Dystopia” é o décimo álbum em estúdio do Iced Earth e parece que, depois de dois álbuns muito esperados e pouco marcantes, Jon Schaffer – principal letrista, compositor e praticamente dono da banda – retomou as rédeas de sua música. “Dystopia” tem tudo aquilo que marcou a carreira do Iced Earth, com músicas pesadas, power-ballads cativantes e os típicos refrões grudentos característicos do estilo. O novato Stu já mostra ao que veio na faixa título, que abre o disco. De cara a música mostra toda a versatilidade de sua voz, passando sem maiores problemas de vocais mais roucos para agudos gritados, com uma competência quase comparável à de seu predecessor. “Anthem” – a famosa “música de trabalho”, cujo vídeo pode ser visto no Youtube – “Anguish of Youth” e “V”, baseada na obra “V for Vendetta” (“V de Vingança”) de Alan Moore são alguns dos destaques do álbum, que traz 10 faixas. A versão nacional traz três bouns: “Soylent Green”, “Iron Will” e uma versão alternativa de “Anthem”.

Um álbum sólido, bastante homogêneo e quase uma volta ao passado do Iced Earth, “Dystopia” tem tudo para ser um dos marcos altos da trajetória da banda.

 

Nota: 9/10

Chickenfoot – III

Alcunha de “Supergrupo” pra lá de justificada

O termo “superbanda” ou “supergrupo” se tornou bastante genérico ultimamente. Basta dois ou três músicos bem sucedidos em suas carreiras solos ou respectivas bandas se juntarem para um projeto qualquer que eles clamam não ser um “projeto paralelo” e sim uma “banda de verdade” para que o termo a ela se aplique. Basta ver o bizarro Super Heavy, onde Mick Jagger e Joss Stone se unem para tocar reggae.

Devido a isso, eu tenho a tendência de usar o termo com bastante cuidado. No entanto, em sua definição mais pura, ele se encaixa perfeitamente no Chickenfoot. Afinal, qual palavra melhor se encaixaria para definir uma banda formada por quatro lendas do rock como Joe Satriani (guitarra), Chad Smith (bateria, Red Hot Chilli Peppers), Sammy Hagar e Michael Anthony (respectivamente ex-vocalista e ex-baixista do Van Halen)?

O primeiro álbum da banda, autointitulado, foi lançado em 2009, rodeado por bastante expectativa, principalmente por dois fatores: 1 – há um certo histórico no qual os ditos “supergrupos” nunca dão certo e; 2- quatro músicos bem sucedidos; quatro grandes egos. A chance de tudo soar pomposo, extravagante, pretensioso e insosso era bem grande. Logo de cara o Chickenfoot provou que, ao contrário de diversos supergrupos – e mesmo bandas regulares – os egos de cada um ali não atrapalharia. Satriani, Hagar, Anthony e Smith se juntaram não para reinventar o rock. Não, eles queriam simplesmente se divertir produzindo música boa que, por diversos motivos, não poderiam fazer em suas bandas regulares – no caso de Anthony e Hagar, nem banda eles tinham. A química e as diferentes influências que cada um trouxe para o estúdio funcionou de maneira absurdamente harmônica e “Chickenfoot” foi, de longe, um dos melhores álbuns de 2009.

Eis que chega 2011 e a banda lança seu segundo álbum, intitulado simplesmente de “III”. Segundo Michael Anthony disse em diversas entrevistas, a idéia era que o álbum se chamasse “II”, por ser o segundo da banda e prestar uma homenagem a grupos dos anos 1970 que o faziam – se você não se lembra do “Led Zeppelin II”, por favor, deixe o hall e vá escutar pagode 🙂 – Mas, ainda segundo Anthony, o grupo sentiu que evoluiu tanto desde seu primeiro álbum que era como se eles ja tivessem gravado um segundo, logo, chamar esse lançamento de “III” fazia sentido. Para eles, pelo menos.

Desde “Last Temptation”, que abre o álbum, até “Something Going Wrong”, que fecha os trabalhos, “III” apresenta pura e simplesmente um rock and roll das antigas pra lá de bem tocado. Cheio de groove e feeling, com todos os músicos se destacando em suas respectivas posições sem atropelos ou exageros. Quem acha Joe Satriani um guitarrista que abusa da virtuose em solos e riffs elaborados mas sem emoção – uma opinião da qual este que vos escreve discorda diametralmente – deveria escuta-lo aqui. Tudo que Satch faz aqui, sejam os solos, sejam os riffs, tem o objetivo único de servir ao progresso das músicas, tornando-as mais interessantes do que seriam se tocadas por um guitarrista com menor qualidade; Hagar continua cantando no tom que lhe é peculiar, variando sussuros e gritos quando eles são necessários; já a cozinha formada por Anthony e Smith está cada vez mais entrosada. Aliás, é impressionante escutar Chad Smith no Chickenfoot e perceber o quanto ele se dá bem mesmo em um estilo musical que é bastante diferente do que ele está acostumado a fazer em sua banda principal.

Aproveitando o lançamento de III, a gravadora Hellion Records, responsável pelo mesmo, resolveu também lançar o primeiro álbum da banda por aqui, até então inédito em versão nacional. Imperdível para qualquer fã de Satriani, Van Halen, RHCP e rock em geral.

10/10

Symphony X – Iconoclast

Banda mostra sua força em um dos melhores lançamentos do ano


O Symphony X é uma daquelas bandas que vem constantemente lançando bons álbuns. Depois do ótimo “Paradise Lost” de 2007, a banda ficou quatro anos ausente de estúdio, o que possibilitou que divulgasse bastante esse trabalho e ainda desse liberdade para que seus membros se envolvessem em projetos paralelos, solos ou realizassem participações especiais nos álbuns de outras bandas/artistas. Um desses projetos, inclusive, envolve o vocalista Russel Allen com o ex-baterista do Dream Theater, Mike Portnoy. Mas esse é um assunto para um post futuro.

Fato é que esses quatro anos fizeram muito bem para o quinteto – que, além de Russel, conta com Michael Romeo (guitarra e principal compositor), Michael LePond (baixo), Michael Pinnella (teclados) e Jason Rullo (bateria) – e a prova disso é esse “Iconoclast”, um álbum que combina com maestria as principais características do Symphony X, ou seja, a virtuose do rock progressivo com o peso do heavy metal. Não é à toa que a banda é considerada um dos maiores nomes do estilo nos Estados Unidos, perdendo, apenas, para o Dream Theater em notoriedade.

Seguindo a tendência do que bandas como o Nightwish fizeram recentemente, “Iconoclast” é aberta com sua música mais longa e, coincidentemente, a faixa título. Beirando os 11 minutos, ela tem tudo aquilo que se pode esperar do Symphony X: peso, passagens longas e intrincadas e um refrão poderoso. No geral a música lembra um pouco, em algumas passagens e trechos, a faixa “Odyssey”, do álbum homônimo, lançado pela banda em 2002.

“The End of Innocence” vem a seguir e é uma pedrada. Pesada, cheia de riffs interessantes e um refrão grudento e forte, é candidata a clássica instantânea; “Dehumanized” segue essa mesma tendência, assim como “Bastards of the Machine”. No geral, todas as supracitadas e ainda “Heretic” e “Children of a Faceless God” seguem essa tendência, tornando o álbum bastante homogêneo. Para quebrar esse padrão, temos “When All Is Lost”, uma tremenda de uma power ballad que tem tudo para entrar para as grandes músicas da banda e rivalizar com outras, como “The Accolade”, do álbum “The Divine Wings of Tragedy”, de 1997. “When All Is Lost” fecha o primeiro disco da versão “Special Edition”, de “Iconoclast”, objeto dessa resenha.

O ritmo acelerado continua em “Electric Messiah” e segue nessa toada ao longo de todas as cinco faixas do segundo disco. A fórmula das músicas, basicamente, é a mesma: riffs de guitarra pesados e virtuosos, um teclado que está lá para a criação de climas e textutas, bateria precisa e um baixo ora discreto, ora bastante audível. Tudo isso encimado pelo vocal ora agressivo, ora limpo, de Allen e refrões contagiantes. Repetitivo? Talvez. Mas isso não impede que “Iconoclast” já seja candidato forte a entrar na lista de melhores álbuns de metal do ano.

Nota: 10/10

Dream Theater – A Dramatic Turn of Events

Banda mostra que superou bem a perda de seu principal compositor.

Muitas vezes a frase “o lançamento mais esperado do ano” é descaradamente mentirosa e visa, única e exclusivamente, promover algum produto que, muitas vezes, é bastante meia-boca. Outras vezes, a frase é apenas o principal suporte de uma campanha de marketing que visa alavancar a divulgação – e, consequentemente, as vendas – do dito produto. Em algumas raras ocasiões, e dentro de nichos específicos, no entanto, a frase tem uma certa coerência. No mundinho do metal progressivo, o novo álbum de estúdio do Dream Theater, “A Dramatic Turn of Events” faria valer essa frase, caso ela fosse associada ao produto. E aqui, ela se justificaria simplesmente pelo fato de “A Dramatic Turn of Events” ser o primeiro álbum do Dream Theater em vinte cinco anos sem contar com a presença de Mike Portnoy, baterista, compositor, produtor, principal mente criativa, porta-voz, relações públicas, enfim, a força motriz por trás da banda.

Mike Portonoy criou o Dream Theater junto com o guitarrista John Petrucci e o baixista John Myung nos idos de 1980 com o nome Majestic. Pouco depois adotaram a alcunha de Dream Theater e, nas duas décadas seguintes, arregimentaram alguns dos fãs mais leais e radicais do rock. Devido à sua personalidade expansiva, em contraste com a mais introverdida de seus companheiros de banda, logo Portnoy tomou as rédeas do grupo de uma maneira que, parecia a todos os que estavam de fora, bastante natural. Eram suas as idéias que, principalmente, moldaram a sonoridade e a imagem do Dream Theater como a conhecemos hoje. Há até 2 anos atrás imaginar o Dream Theater sem Mike Portnoy seria o mesmo que, guardadas todas as devidas proporções, pensar nos Rolling Stones sem Mick Jagger ou Keith Richards.

A coisa começou a ficar estranha no Dream Theater quando, no segundo semestre do ano passado, o Avenged Sevenfold – que passou pelo Brasil para tocar no esquisito festival SWU – anunciou que Portnoy tinha topado excursionar com a banda, substituindo seu ex-baterista, morto meses antes. Empolgado, Portnoy ingressou na turnê com o Avenged e, na volta, fez uma proposta, no mínimo, polêmica e que quase nunca dá certo no mundo do rock, aos seus companheiros de DT (além dos supracitados Petrucci e Myung, completam o time o vocalista James LaBrie e o tecladista Jordan Rudess): Portnoy queria que o grupo “desse um tempo”, uma parada para “recarregar as energias” e lhe desse tempo para se dedicar aos seus inúmeros projetos – dentre eles, o sensacional Transatlantic. O mesmo valeria para os demais membros, já que tanto LaBrie quando Rudess vira e mexe lançam álbuns solos. (E aqui cabe um parêntese: “Static Impulse”, álbum solo de LaBrie lançado ano passado figura na lista de melhores do ano de qualquer fã de rock “pesado” ou metal que se preze).

Inicialmente, Portnoy queria que o Dream Theater parasse indefinidamente o que, muitas vezes, significa o fim de uma banda. Petrucci, Myung, LaBrie e Rudess recusaram a proposta, até porque a banda tinha planos de entrar em estúdio em janeiro de 2011 para produzir e gravar seu próximo álbum. “Indefinidamente” logo se tornou “dois anos”. Na teoria de Mike, dois anos era o que todos os membros do Dream Theater precisavam para voltar a se entrosar especialmente fora do palco. Novamente, a idéia não foi bem recebida e Portnoy anunciou na Internet que, a partir de 8 de setembro de 2010, ele estaria fora da banda.

O anúncio deu margem a diversas opiniões, como sempre acontece em casos de separação, mesmo que ela seja, teoricamente, amigável: alguns diziam que Portnoy estava certo em querer que o DT desse um tempo, boa parte criticou sua atitude de querer que os demais membros da banda ficassem esperando ele voltar a querer tocar com eles e uma porção menor acreditava que tudo não passava de um golpe de marketing. O Dream Theater logo começaria audições para um substituto e, no fim, anunciaria a volta do filho pródigo.Não foi bem isso que aconteceu e o destino de Mike Portnoy será tema de outra resenha aqui mesmo em Sounds of Asgard.

O fato é que, depois de uma extensa busca e de testar diversos bateristas – inclusive o “polvo” brasileiro Aquiles Priester (ex-Angra, atual Hangar) – o Dream Theater anunciou que o quase desconhecido Mike Mangini assumiria a difícil tarefa de conduzir as baquetas da banda. Já substituir as demais funções de Portnoy na máquina do Dream Theater não foi tão fácil, ainda que menos traumático. Petrucci, Rudess e LaBrie, em proporções diferentes, assumiram as funções de Portnoy no que dizia respeito à comunicação com o público. Rudess e Petrucci já eram colaboradores bastante ativos, fosse no que dizia respeito às letras, fosse às composições em si e o guitarrista acabou tomando a frente e assinando, pela primeira vez sozinho, a produção de um trabalho do Dream Theater. Geralmente a produção era dividida entre ele e Portnoy.

Por tudo isso dito nos parágrafos acima é que sinto-me seguro em dizer que, pelo menos dentre os apreciadores e fãs de metal progressivo, “o lançamento mais esperado do ano” é uma frase que se encaixa como uma luva em “A Dramatic Turn of Events”. E, para o bem ou para o mal, o álbum faz jus à expectativa.

Apesar da influência de Portnoy ter sido decisiva para moldar a sonoridade do Dream Theater, o fato é que sua falta não se faz sentida no novo álbum. Rudess e Petrucci assumiram a maior responsabilidade pela composição das nove faixas do álbum – quatro delas com duração acima de 10 minutos – de forma que seus desempenhos se sobressaem. Não que a bateria tenha sido relegada, muito pelo contrário, Mangini se prova um instrumentista bastante preciso, ora batendo pesado, ora sendo melodioso, ora esbanjando técnica. O que muda aqui é que, em “A Dramatic Turn of Events” ele fez o papel de um músico contratado, já que as partes que lhe cabem foram compostas e programadas por Petrucci. Coube a Mangini reproduzir – com perfeição – o que o guitarristas havia programado em um computador.

Uma característica que se percebe em “A Dramatic Turn Of Events” é que fazia tempo que a música do Dream Theater não soava tão melodiosa e tão progressiva. Experiências em querer ser “mais pesado do que o Pantera” presenciadas em músicas como “The Shattered Fortress” e “Dark Eternal Night” passam longe daqui. O que se priorizou aqui são as famosas passagens intricadas e virtuosas, com solos e riffs assombrosos de Petrucci e o teclado de Jordan quase que onipresente, trazendo até mesmo passagens épicas às músicas, coisas que, novamente, há tempos não se via em um trabalho do Dream Theater.

A faixa de abertura, “On the Backs of Angels”, a candidata a clássico “Breaking All Illusions” e as baladas “This is the Life” e “Beneath the Surface” são exemplos da versatilidade da banda, uma variação que culmina em “Lost Not Forgotten”, talvez a mais elaborada de todo o álbum. Além do trio Petrucci/Rudess/Mangini, é necessário destacar o trabalho fabuloso de James LaBrie que continua mostrando uma excelente evolução a cada álbum da banda. Quem escuta o “patinho feio” hoje não consegue associá-lo aos seus primeiros trabalhos na banda. O baixista John Myung, novamente, tem seu instrumento em segundo plano mas brilha quando seu trabalho fica em evidência.

Em resumo, “A Dramatic Turn Of Events” mostra que, mesmo sem sua principal força criativa, o Dream Theater continua em sintonia com seus fãs e prova mais uma vez o porquê de ser o “monstro” que é no mundo do metal progressivo.

Nota: 9/10