Black

Emperor – In the Nightside Eclipse

O começo da década de 1990 foi uma época bastante interessante para o rock and roll e o heavy metal. Se por um lado aqueles foram os anos de decadência do festivo Hard Rock produzido nos Estados Unidos, que aos poucos era substituído pelo supervalorizado Grunge de Seattle, por outro aquele início de década viu o surgimento de um movimento que aos poucos passaria a chamar a atenção na Europa, especialmente na Noruega, por fatores além da música: O Black Metal ou “Norwegian Black Metal”, como seria conhecido futuramente.

Dentre a safra de bandas surgidas naquela época, o Emperor talvez seja uma das mais relevantes, se não for A mais relevante. Formada em 1992 por Vegard Sverre “Ihsahn” Tveitan (vocais, guitarras, teclados) e Tomas “Samoth” Haugen (guitarras) seria apenas em 1994 que a banda, contando agora com o baterista Bård “Faust” Eithun e o baixista Terje “Tchort” Schei lançaria seu primeiro álbum de estúdio, “In the Nightside Eclipse”, que logo se tornaria uma referência para o gênero. Tanto que o mesmo foi relançado recentemente em uma edição especial, intitulada, adequadamente “In The Nightside Eclipse (20th Anniversary Edition)”, recheada de bônus.

Um dos motivos que faz “In the Nightside Eclipse” um álbum tão relevante é a inovação que trouxe então. Em 1994, a tendência das bandas de Black Metal norueguesas era fazer seus álbuns da maneira mais simples e primitiva possível. Bateria, guitarra e baixo na maior velocidade possível, vocal gritado/gutural (quanto mais ininteligível melhor) e uma produção bastante tosca, onde nada se destacasse. “In the Nightside Eclipse” tem tudo isso, mas traz ainda elementos sinfônicos – um dos poucos álbuns da época a ter a presença do teclado – e mesmo progressivos, ainda que de maneira bem discreta. Além disso, o fato de Ihsahn, Samoth, Faust e Tchort realmente saberem tocar seus instrumentos – e não apenas surrá-los – trouxe um elemento a mais ao seu trabalho. A geração de bandas de Black Metal que possui músicos de qualidade dentre seus membros – sendo a maior representante atual o Dimmu Borgir – deve muito à influência do primeiro álbum do Emperor. “In the Nightside of the Eclipse” mostrou a toda uma geração que pode-se fazer um som considerado “maléfico” e “profano” sem necessariamente ser completamente tosco. Isso tudo faz com que muitos o considerem um divisor de águas no cenário do Black Metal da época, daí sua relevância até os dias de hoje. Há ainda a onipresente referência ao trabalho de J. R. R. Tolkien na capa, que mostra um bando de Orcs em direção à Minas Morgul. Ou seja, tinha tudo para se tornar um clássico do underground. 🙂

“In The Nightside Eclipse (20th Anniversary Edition)” é um disco duplo. O primeiro CD traz o álbum originalmente lançado em 1994, enquanto que o segundo traz versões com diferentes mixagens para as mesmas músicas. Destaque para as duas versões de “The Burning Shadows of Silence” e “I am the Black Wizards”, essa última talvez a música mais reconhecida da carreira do Emperor, que desbandou em 2001 após apenas quatro álbuns, mas que de vez em quando faz um show aqui e ali.

Indispensável para fãs de Black Metal.

 

 

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Belphegor – Conjuring the Dead

Pouco mais de três anos depois do excelente “Blood Magik Necromance”, eis que a dupla Helmuth (vocais/guitarras) e Serpenth (baixo) voltam ao mercado com o seu décimo álbum de estúdio, “Conjuring the Dead”, trazendo o que de melhor o Belphegor tem a oferecer. Ou seja, nada muito diferente do que a banda vem fazendo em seus 19 anos de carreira.

Adeptos do que a indústria musical rotulou como “Blackened Death Metal” – basicamente, uma banda de death metal com influências black metal no que diz respeito à temática/letras – “Conjuring the Dead” é aquele tipo de álbum feito de maneira segura que, apesar de trazer um destaque aqui, outro ali – sendo o principal deles a faixa “Legions of Destruction”, pois traz as participações especiais de Glen Benton do Deicide e Attila do Mayhem nos vocais – não sai quase nada da zona de conforto da banda. Não há nenhum elemento novo, nenhuma inovação, apenas o instrumental acelerado e as letras blasfemas – recheadas de palavrões – características da banda e do estilo.

Uma coisa na qual bandas de black metal tem investido bastante é na produção. Se no começo quanto mais sujo o som fosse, melhor, hoje em dia – salvo exceções como o Burzum – tem se dado mais cuidado a esse aspecto dos álbuns o que torna a audição dos mesmos mais agradável (se é que essa é uma palavra adequada para um álbum desse gênero), já que é possível distinguir todos os instrumentos e os vocais de maneira mais clara (novamente, uma palavra que não define, nem de longe, os vocais de Helmuth).

Começando com a pesada “Gasmask Terror” e finalizando com “Pactum In Aeternun”, “Conjuring the Death” tem dez faixas que, à exceção do interlúdio “The Eyes”, são pancadaria de boa qualidade do início ao fim. Ideal pra relaxar depois de um dia estressante de trabalho.

Cradle of Filth – Midnight in the Labyrinth

Caça-níqueis interessante, mas só deve atrair fãs.

O Cradle of Filth é uma banda inglesa que meio que liderou a segunda onda do black metal europeu – a primeira se iniciou no começo dos anos 1990 na Noruega e é cheia de polêmicas. A banda foi formada por Daniel Lloyd Davey (nome artístico: Dani Filth) em 1991, mas o primeiro álbum do grupo, “The Principle of Evil Made Flesh” foi lançado apenas em 1994 e era um black metal clássico: instrumentos em alta velocidade, bateria marcante, produção crua, quase “suja” e vocais ora gritados, ora guturais de Dani Filth. O álbum chamou a atenção e, como acontece com a maioria das bandas de metal mais extremo que duram, logo o CoF assinou com uma gravadora pequena e começou sua carreira. Em 1996 lançaram “Dusk and her Embrace” pela Music For Nations. O álbum já tinha a adição de teclados e uma produção mais limpa. Além disso, aqui o Cradle of Filth começava a se diferenciar das demais bandas do gênero especialmente pelo fato de Dani – um estudioso de poetas como Lord Byron e Edgar Allan Poe – se esmerar na construção das letras de suas músicas. O Cradle of Filth não se esquiva dos temas caros ao black metal, como o sobrenatural, o pós-vida, o oculto e histórias de terror. Mas o faz de forma bastante poética.

1998 viu o lançamento de um dos melhores álbuns da banda, “Cruelty and the Beast”, um trabalho temático baseado na vida e assassinatos de Elizabeth Bathory considerada, por muitos, como a primeira assassina serial da história. Com o lançamento de “Midian” em 2000, a banda resolveu dar um tempo e começou uma de suas mais queridas tradições: os caça-níqueis.

Talvez por ser uma banda de black metal – agora adicionando “simfônico” ao rótulo – e, consequentemente, produzir uma música menos digerível, vira e mexe o CoF lança álbuns cujo propósito – por mais que entendamos a necessidade dos caras produzirem rendimentos com seu trabalho entre uma turnê e outra – parece ser única e exclusivamente obter alguns cobres a mais de seus fãs. Entre 2001 e 2003, foram 2: “Bitter Suites to Succubi”, com sobras de estúdio e alguns remixes e a coletânea dupla “Lovecraft & Witch Hearts”, além do ao vivo “Live Bait for the Dead”. Coincidentemente, nessa mesma época o tipo de black metal que a banda faz(ia) parecia estar passando por uma popularidade nunca antes vista na Europa e, em 2003, o Cradle of Filth foi a primeira banda do gênero a fechar contrato com uma gravadora realmente grande. Estamos falando da Sony Music. Bastou a notícia sair para os mais radicais acusarem os caras de serem “vendidos” e o CoF entrar para o seleto hall das bandas que são ou amadas ou odiadas, sem áreas cinzas no meio.

Infelizmente, depois de apenas um ano e dois álbuns – fora os caça-níqueis – a banda rescindiu o contrato com a Sony e assinou com a Roadrunner, uma das maiores gravadoras especializadas em metal no mundo, se não A maior, onde ficou por quatro anos. Em 2010, assinaram com a Peaceville records, onde se encontram até hoje. Na Sony,  lançaram o bom “Damnation and a Day” (outro album conceitual, tendo a bíblia cristã como pano de fundo) e o ótimo “Nymphetamine”, que marcou definitivamente a entrada da banda no mercado mainstream, quando a faixa título recebeu uma indicação ao Grammy. Já pela Roadrunner foram laçnados “Thornography” (2006) e outro conceitual, “Godspeed on the Devil’s Thunder” (2008), baseado na vida e assassinatos de Gilles de Rais, um general francês que lutou ao lado de Joanna D’Arc e que foi preso e condenado por matar – muitas vezes, ritualmente – crianças. O último álbum em estúdio da banda foi “Darkly, Darkly, Venus Aversa” (2010), se descontarmos o caça-níqueis “Evermore Darkly” (2011) com remixes das faixas do trabalho de 2010 e duas inéditas.

“Midnight in Labyrinth”, portanto, é o ultimo caça-níqueis do Cradle of Filth. Não me entendam mal, eu gosto muito do trabalho que Dani Filth faz com sua banda (que no momento se completa com os guitarristas Paul Allender e James McIlroy, o baixista Dave Pybus, o baterista Martin Marthus Škaroupka e a tecladista Caroline Campbell) mas esse álbum é muito, mas muito safado. O disco é duplo e tem 19 faixas no total, sendo 10 no primeiro e 9 no segundo. A safadeza é que 9 das 10 faixas que estão no primeiro disco se repetem no segundo. São as mesmas músicas, mixadas de maneira diversa. A grande diferencial das versões presentes aqui se comparadas com as originais – se é que podemos chamar de “grande” – é que as músicas aqui são todas orquestradas. O CoF investiu em composições sinfônicas para essas músicas, deixando o vocal de Dani de lado em praticamente todas elas. São 19 músicas soturnas, de acompanhamento lento e algumas vezes arrastadas. Servem bem como música de fundo, pra ouvir enquanto se trabalha sem que a música interfira com sua produtividade ou concentração.

No geral, o trabalho ficou bastante legal e atraente, tornando as músicas muito diversas de suas versões originais, e é só por isso que ele vale à pena ser conferido. Desde que você seja fã de longa data. Se não, trabalhos como o supracitado “Lovecraft & Witch Hearts” e “Nymphetamine” são opções melhores para conhecer o – repito – bom som do Cradle of Filth.

Nota: 4/10

Belphegor – Blood Magik Necromance

Novo trabalho mostra porque da banda ser cada vez mais respeitada no cenário.

Depois de apenas dois anos desde o bom “Walpurgis Rites – Hexenwahn” eis que os austríacos do Belphegor retornam do estúdio com “Blood Magik Necromance”, seu nono álbum de estúdio. Atualmente, contando com Helmuth (vocais e guitarra – único membro que permanece na banda desde 1991, quando esta se formou sob a alcunha de “Betrayer”), Serpenth (baixo) e Martin “Marthyn” Jovanovic (bateria), o Belphegor vem, aos poucos, se consagrando como um dos mais respeitados e influentes nomes do black metal mundial

Blood Magik Necromance” traz uma evolução à sonoridade da banda, no sentido de que a produção do álbum parece ter tido toda uma atenção especial, no sentido de ser bastante limpa. Por incrível que possa parecer, apesar de toda a pancadaria sonora que caracteriza o som do Belphegor, em “Blood Magik Necromance” temos algumas passagens quase melodiosas, flertes como solos de guitarra aqui e ali, permeados, correndo o risco de parecer repetitivo, por uma produção onde todos os instrumentos são perfeitamente audíveis e não atropelam nem se misturam ao vocal de Helmuth. E isso – essa preocupação com a produção – parece ser uma preocupação quase universal de bandas de black/death metal atualmente, algo que contrasta, e muito, com o começo da cena há pouco mais de vinte anos. No final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, quando a cena black metal estourou – especialmente através de bandas vindas da Noruega – a produção era o fator que menos preocupava as bandas. Quanto mais tosco e confuso o som, melhor.

“Blood Magik Necromance” já começa a toda a velocidade com “In Blood – Devour This Sanctity”, sem introduçõezinhas climáticas nem nenhuma tentativa da ambientação que so tornou item quase obrigatório em álbuns de metal de praticamente todos os estilos. Esse power trio austríaco não parece dar atenção à essas coisas e já começa metendo o pé no acelerador. A banda produziu ainda um clipe para “Impaled Upon The Tongue Of Sathan”, que tem um climão todo “sexy-snuff-gore” que faz o delírio dos fãs e provoca certa repulsa do público em geral.

Apesar de momentos mais cadenciados, como em passagens da faixa título e de “Discipline Through Punishment”, o Belphegor investe mesmo é no peso e na velocidade, como dito acima. Os vocais de Helmut, ora guturais, ora urrados, encaixam perfeitamente na proposta da banda. Do início ao fim, “Blood Magik Necromance” se mostra um álbum bastante homogêneo, que vai agradar aos fãs tanto de Belphegor quanto de black metal em geral. O que torna esse álbum um item direcionado a um público deveras restrito.

Uma coisa legal a ser dita é que o Belphegor estará em turnê pelo Brasil no próximo mês. A banda acertou nada menos do que 10 datas no país, nas quais terá a companhia do Ragnarok e, nos dois últimos shows (em Belo Horizonte e São Paulo), da lenda do death metal Morbid Angel. A turnê conjunta faz parte do tradicional festival intinerante Setembro Negro que a cada ano ganha mais força no país.

Nota: 8/10