Alemanha

Powerwolf – History of Heresy I & II

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O Powerwolf é o tipo de banda que engana à primeira vista. Seu nome leva a crer que é um grupo de power metal alemão, já que “Powerwolf” combina tão bem com o estilo quanto Blind Guardian, Rhapsody of Fire ou Gamma Ray. Já seu visual – com o uso de corpse paint -, as capas de seus álbuns e as letras de suas músicas remetem ao black metal norueguês dada a quantidade de “heresia” contida nelas. No entanto, a banda não é nem uma coisa nem outra. O que temos aqui é uma banda de heavy metal que flerta tanto com power metal quanto com o heavy rock clássico, com letras que, apesar de tocar em temas polêmicos, não devem ser nunca levadas a sério.

“History of Heresy” I & II são duas coletâneas lançadas pelo quinteto formado por Attila Dorn (vocais), Matthew Greywolf (guitarra), Charles Greywolf (baixo, guitarra), Falk Maria Schlegel (teclados) e Roel van Helden (bateria) que abrange praticamente toda a carreira da banda. E digo isso literalmente, já que cada um dos álbuns (um duplo e um triplo) reedita os primeiros quatro trabalhos da banda. E se consiste em uma ótima pedida para aqueles que desconhecem o Powerwolf se familiarizarem com o trabalho da banda.

O Powerwolf faz um heavy metal de bastante competência, com letras que remetem ao folclore da Europa e um grande número de músicas dedicadas a atacar a religião, especialmente a Igreja Católica. Ao contrário de bandas como Venom, no entanto, o Powerwolf lida com isso de maneira bastante caricata, com letras que não tem qualquer objetivo de serem levadas a sério por qualquer pessoa com meio cérebro funcional.

“History of Heresy I” traz a reedição dos dois primeiros álbuns da banda, “Return in Bloodred” e “Lupus Dei”. Nele os destaques vão para “Kiss of the Kobra King” e seu refrão grudento, “The Evil Made Me Do It” e “Lúcifer in Starlight”, todas oriundas de “Return in Bloodred”. Já na reedição de “Lupus Dei”, “Saturday Satan”, “In Blood We Trust” e “Mother Mary is a Bird of Prey” são as faixas que merecem maior atenção. Para não dizer que não há qualquer diferença entre a coletânea e os álbuns originais, cada um deles traz, respectivamente, três e seis faixas bônus, todas versões gravadas ao vivo durante as turnês de divulgação dos álbuns abordados na coletânea.

Já “History of Heresy II” abrange o trabalho que a banda realizou em “Bible of the Beast” e “Blood of the Saints” e mostra uma boa evolução na sonoridade do grupo, haja o número de músicas que merecem serem apreciadas. “Bible of the Beast” conta com algumas das músicas que tem potencial para se tornarem clássicos na carreira da banda, como “Raise your Fist Evangelist”, a divertida “Panic in the Pentagram”, “Seven Deadly Sins”, a nonsense “Resurrection by Erection”, “Saint Satan” e a quase balada “Wolves Against the World”. Além do tracklist original, há ainda duas faixas bônus: “Testament in Black” e “Riding the Storm”, essa um cover dos suecos do Running Wild.

“Blood of Saints” responde pelo segundo disco e traz aquela que, para mim, é a melhor música da carreira do Powerwolf: “Sanctified with Dynamite”. “We Drink your Blood”, “Murder at Midnight”, “All We Need is Blood”, “Night of the Werewolves” e “Die Die Crucified” também são faixas que merecem menção. “History of Heresy II” traz ainda um terceiro disco que se consiste de apenas cinco faixas que trazem versões orquestradas para músicas presentes em “Blood of Saints”. Esse é um material interessante, mas não tanto quanto o resto do lançamento.

Pra quem gosta de um heavy metal bem tocado e letras divertidas, o Powerwolf (cuja discografia em estúdio se completa com “Preachers Of The Night”, lançado em 2013) é uma ótima opção. Infelizmente, devido à sua aparente falta de apelo, apesar de ter alcançado um bom número de fãs no Brasil via Facebook, nenhuma gravadora nacional se animou a lançar qualquer álbum dos Lobos Alemães por aqui. Daí só há duas maneiras de se obter material dos caras por aqui: importando ou pedindo pro seu amigo que vai pra Europa ou EUA lhe trazer seus álbuns (aposto que você pensou que eu diria “importando ou baixando via torrent”, né?) 🙂

powerwolfband2013_638 Parece Black Metal, mas não é.

 

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Grave Digger – Return of the Reaper

Com uma longa discografia da bagagem o Grave Digger é aquela típica banda que, raríssimas exceções, nunca decepciona seus fãs. Formada na Alemanha no começo dos anos 1980, quando o estilo germânico de metal que viria a ser conhecido como power metal dava seus primeiros passos, o grupo liderado pelo vocalista Chris Boltendahl, único remanescente da formação original, se apegou à fórmula e dificilmente se desvia dela.

“Return of the Reaper” é seu 17º álbum de estúdio e mostra o Grave Digger em plena forma, mesmo que repetindo a mesma fórmula de sempre. Com o baterista Stefan Arnold, o baixista Jens Becker, o tecladista Hans Peter “H.P.” Katzenburg (que normalmente se apresenta sob os trajes do mascote da banda) e o guitarrista Axel Ritt completando a formação, o que se ouve em “Return of the Ripper” é power metal puro e simples. Riffs bem colocados, solos virtuosos, coros, letras envolvendo o ceifador, guerra e morte e especialmente, refrões grudentos estão presentes por todo o álbum o que é, repito, aquilo que todo o fã de Grave Digger poderia esperar. Duvida? Então dá uma escutada em “Tattoed Rider”, “Road Rage Killer”, “Dia de Los Muertos” e “Death Smiles at All of Us” e comprove o que digo. Há até a indefectível balada em “Nothing to Believe”, para fechar o álbum.

Se a versão regular de “Return of the Reaper” já é interessante e atende aos desejos dos fãs, a edição limitada traz um segundo disco – aliás, coisa que vem se tornando usual nos lançamentos do Grave Digger – que é uma agradável surpresa. Afinal, além de duas faixas inéditas de bônus, ele vem ainda com oito faixas gravadas ao vivo em formato acústico. Não tem como não achar interessante – ou estranho, dependendo de seu gosto pessoal – escutar clássicos da banda como The “Dark of the Sun”, “Rebellion (the Clans are Marching) e “Heavy Metal Breakdown”, músicas conhecidas por dar dor no pescoço de headbangers ao redor do mundo, em uma roupagem que talvez agradasse até a seu pai fã de MPB.

Não dá pra dizer que “Return of the Reaper” é o melhor que o Grave Digger já fez mas, como sempre, é um esforço consciente da banda em atender aos fãs tradicionais e, no caso de sua edição limitada, trazer algo de novo para aqueles que gostariam de ver o grupo trilhar caminhos menos conhecidos. Vale à pena dar uma conferida, caso power metal seja um estilo musical que lhe agrade.

Unisonic – Unisonic

Michael Kiske e Kai Hansen juntos depois de 23 anos: precisa dizer mais?

 

Tem alguns lançamentos – seja nos quadrinhos, no cinema, na literatura ou na música – que colocam um sorriso em nossos lábios antes mesmo de eles se tornarem reais. Muitas vezes esse sorriso se desbota ou mesmo se apaga quando o tão esperado lançamento nos chega em mãos, pois a expectativa criada ao redor dele foi muito além da realidade proporcionada pelo mesmo. Em outras vezes, esse sorriso se mantém ou – mais raramente ainda – se alarga ao percebemos que o produto ao qual tanto esperávamos era ainda melhor do que poderíamos suspeitar. Felizmente, esse é o caso do álbum de estreia do Unisonic, que aterrissou recentemente em terras brasileiras via Hellion Records. Antes de falar sobre ele, no entanto, um pouco de contexto é necessário para aqueles que não acompanham a cena do heavy metal de maneira mais próxima.

Na primeira metade dos anos 1980, poucos anos após o NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal ou a “nova onda do metal inglês”) ter tomado o mundo da dita “música pesada” de assalto, era a Alemanha quem, timidamente, começava a reinventar o metal como todos os conheciam. Na verdade, a palavra “reinvenção” pode não refletir exatamente o que acontecia, já que, de fato, as bandas alemãs estavam para liderar a criação de um novo sub-gênero de heavy metal conhecida por “power metal” ou, de maneira mais genérica, “metal melódico”.

Formada em Hamburgo, em 1984, o Helloween seria um dos principais nomes desse novo gênero de heavy metal, que combinava a velocidade e o peso do metal tradicional com melodias mais virtuosas e harmoniozas. A formação original da banda contava com Kai Hansen (vocais e guitarra), Michael Weikath (guitarras), Markus Grosskopf (baixo) e Ingo Schwichtenberg (na bateria). Depois de dois álbuns com essa formação, o Helloween adicionou o vocalista Michael Kiske à banda (Kai optara por desempenhar apenas a função de guitarrista). Dotado de um alcance vocal absurdo e uma voz feita sob medida para aquele estilo musical, os dois álbuns lançados pelo Helloween nos anos seguintes, intitulados “Keeper of the Seven Keys part I” e “Keeper of the Seven Keys part II” provaram ao mundo que o heavy metal europeu tinha muito a mostrar. Kiske, principalmente, foi logo alçado a “Metal God” e comparado à vocalistas consagrados como Rob Halford (Judas Priest) Ian Gillan (Deep Purple) e Bruce Dickinson (Iron Maiden). Parecia que o céu era o limite para o Helloween. Aí o caldo desandou.

Brigas internas fizeram com que Kai deixasse a banda e o Helloween perdesse muito de seu apelo, já que Hansen era uma tremenda força criativa dentro da banda. Hansen foi, então, desenvolver seu projeto solo, que logo se tornaria uma banda em tempo integral, o Gamma Ray, além de trabalhar em projetos dos outros – como o Iron Savior – e ajudar bandas novatas, como o Blind Guardian. Sem Kai, o Helloween gravou dois de seus piores álbuns: “Pink Bubbles Go Ape” e o quase pop “Chameleon”. As tensões dentro da banda ficaram tão grandes que ela quase acabou. No fim, tudo se resumiu à um grande conflito entre Michael Weikath e Michael Kiske. No fim, Kiske acabou por deixar o Helloween.

Pulando partes mais tediosas, chegamos à 2010. O Helloween continuou sua carreira e aos poucos recuperou o respeito dos fãs; Kai Hansen transformou seu Gamma Ray em uma das maiores bandas do gênero e Michael Kiske meio que sumiu, gravando álbuns solo aqui e ali e participando de projetos como o (muito bom) Place Vendome e o (interessante) Supared. Kiske estava sendo mais lembrado por seu passado do que pelo presente… Salvo pelas participações importantes nos álbuns do Avantasia, projeto paralelo da mente por trás do Edguy, o vocalista Tobias Sammet. Kai Hansen também havia participado de alguns dos álbuns do Avantasia e  a turnê da banda naquele ano recolocou os dois no mesmo palco. O entrosamento de Helloween logo foi retomado, a ideia de fazer algo juntos nasceu e Kiske, após recusar o convite de se unir ao Gamma Ray por achar o som da banda muito “pesado”, convidou Hansen para que ele se juntasse ao seu novo projeto, o Unisonic. O resultado dessa ideia é justamente o debut auto-intitulado da banda que além dos exaustivamente supracitados Kiske e Hansen conta também com o guitarrista Mandy Meyer (Asia, Gotthard), o baixista Dennis Ward (Pink Cream 69, Place Vendome) e o baterista Kostas Zafiriou (Pink Cream 69).

Unisonic traz tudo aquilo que um fã de hard rock e heavy metal pode querer. Músicas para cima, com letras bem alto astral, instrumental ora cadenciado, ora virtuoso, riffs de guitarra e refrões grudentos e, claro, o vocal de Michael Kiske dando um diferencial tremendo para a coisa. É impressionante como o cara consegue, apesar de já ter passado dos 40, manter seu timbre vocal e a qualidade de seu gogó lá no alto. Isso pode se dever também, em parte, pelo fato de Kai Hansen e Dennis Ward – os principais compositores da banda – saberem exatamente o que tem em mãos e escreverem linhas vocais feitas sob medida para o careca. Com 12 faixas e já começando chutando a porta da sala com a música título, “Unisonic”, repito, mantém o nível lá em cima, com faixas variando do hard rock para o metal melódico e transitando tranquilamente por ambos os gêneros sem perder cadência ou qualidade. Músicas como “My Sanctuary”, “Renegade” e “Never Too Late”, além das baladas “Star Rider” e  “No One Ever Sees Me” são provas inegáveis do talento dos músicos envolvidos. Não houvessem banalizado o termo, o Unisonic teria todos os quesitos necessários para ser chamado de “supergrupo”. Mais até do que muito “supergrupo” que tem por aí.

Nota: 10/10