Mês: Março 2015

Blind Guardian – Beyond the Red Mirror

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Em 1995 o Blind Guardian lançou um álbum que seria seminal em sua longa carreira. “Imaginations from the Other Side” marcava uma guinada na sonoridade da banda, que tirava um pouco o pé do acelerador do thrash/speed metal que lhe caracterizara até então e adicionava elementos sinfônicos de maneira mais presente em sua música. Não só isso, “Imaginations…” foi o primeiro álbum conceitual do Blind Guardian e o último no qual o vocalista Hansi Kürsch acumulou a função de baixista.

Fazer referências à “Imaginations…” aqui é importante, pois o novo álbum do Blind Guardian, “Beyond the Red Mirror” é uma continuação direta da história contada então, principalmente aquela das músicas “Bright Eyes” and “The Story Ends”. De acordo com Hansi (que é o principal letrista da banda), em “Beyond the Red Mirror” temos “uma história entre ficção científica e fantasia. A história começa com o nosso álbum de 1995, ‘Imaginations from the Other Side’. Os dois mundos lá descritos mudaram drasticamente para pior desde então. Enquanto costumava haver várias passagens entre os mundos, resta apenas uma porta agora: The Red Mirror. E ele tem que ser encontrado a qualquer custo.” A partir daí o ouvinte passeará por um mundo recheado de deuses, tiranos e até mesmo o Santo Graal em letras muito bem escritas por Hansi.

Musicalmente, no entanto, é onde o Blind Guardian se supera, provando a seus fãs que a espera de quatro anos e meio entre seu último álbum e esse valeu a pena. O que temos aqui são dez faixas que beiram à perfeição em todos os sentidos, sejam individualmente, seja em seu conjunto. Até mesmo no que diz respeito à ordem das músicas o Blind Guardian acertou, alternando suas composições mais sinfônicas com as mais pesadas e as baladas de maneira harmoniosa. Mesmo naquelas versões do álbum que trazem faixas bônus, essa fórmula funcionou, tanto que uma delas “Distant Memories” é, na opinião deste que vos escreve, uma das melhores baladas já compostas pela banda em seus trinta anos de estrada.

“Beyond the Red Mirror” é iniciado com a épica “The Ninth Wave” que traz todos aqueles elementos já consagrados pelo Blind Guardian, mas executados com um nível de qualidade um pouco acima do usual em seus mais de 9 minutos de duração. A ela se segue um conjunto de possíveis clássicos: “Twilight of the Gods” (primeiro single do álbum), as cadenciadas “Prophecies” e “At the Edge of Time”, essa apresentando partes sinfônicas onde o som das guitarras de Andre Olbrich e Marcus Siepen chegam a ficar em segundo plano e traz um refrão grandioso; a pesada e quase tradicional “Ashes of Eternity”, “Holy Grail” e seu refrão para levantar estádios, “The Throne”, “Sacred Mind”, a balada “Miracle Machine” e se encerra com a épica “Grand Parade” que, coincidentemente ou não, tem exatamente a mesma duração de “ The Ninth Wave”, que abre o álbum, ambas com 9:29 mins de duração.

No que diz respeito às atuações individuais, não há muito a ser dito. Hansi Kürsch mostra aqui o porquê ser considerado um dos melhores gogós do heavy metal atual, mesmo que sua voz em alguns momentos se perca em meio às demais – corais de Budapeste, Praga e Boston fizeram parte das gravações; Andre Olbrich e Marcus Siepen se complementam como uma das melhores duplas de guitarristas do heavy metal já há bastante tempo e o baterista Frederik Emkhe se mostra cada vez mais à vontade na banda. Dentre os músicos convidados, é bom destacar o baixista Barend Corubois e as orquestras de Budapeste e Praga. O mérito maior, no entanto, vai para Andre Olbrich, um dos guitarristas mais subestimados do heavy metal atual. Ao contrário de guitarristas como Dave Mustaine (Megadeth), James Hetfield e Kirk Hammet (Metallica) e John Petrucci (Dream Theater), só para citar os mais notáveis, Andre se preocupa menos em mostrar que consegue tocar milhares de notas por minuto e mais em usar seu talento como compositor em prol da banda como um todo, às vezes até colocando sua guitarra em segundo plano, de forma que, se o Blind Guardian consegue se destacar em um nicho de mercado tão saturado quanto o do power metal nos dias de hoje, isso é muito – mas não só – graças a ele.

Lançado mês passado no Brasil, a versão nacional de “Beyond the Red Mirror” traz como bônus versões ao vivo para as clássicas “The Bard’s Song: In the Forest” e “Time Stands Still (at the Iron Hill”). Particularmente, preferia que “Distant Memories” também constasse nela. Isso, no entanto, não torna o lançamento menos essencial para qualquer fã do Blind Guardian ou desse tipo de heavy metal épico/bombástico/grandioso em geral.