Mês: Novembro 2014

Tori Amos – Unrepentant Geraldines

UnrepentantGeraldines

Nos idos de 1998 eu comecei o que viria a ser uma longa relação com os trabalhos de Neil Gaiman, um dos mais celebrados escritores dos quadrinhos das últimas três décadas, responsável pela criação de Sandman, personagem que rendeu a ele e ao selo Vertigo da DC Comics uma série de prêmios.

Lendo diversas entrevistas de Gaiman na época, não era raro encontrar menções a respeito da influência que a cantora/pianista americana Tori Amos tinha em seu trabalho, sendo ela uma das inspirações para o visual de Delírio, a irmã mais insana – no sentido literal da palavra – do Rei dos Sonhos. Some-se isso ao fato de a obra da mulher ter, então, em seu escopo, músicas com títulos como “Me and a Gun”, “Father Lucifer” e “Blood Roses” e, por mais que o headbanger em mim lutasse contra, decidi dar uma chance à ruiva. Afinal, não é porque é música pop que algo deve ser necessariamente ruim, correto?

Dezesseis anos depois e eis me aqui com “Unrepentant Geraldines”, 14º álbum de Tori e um dos poucos a serem lançados em território nacional (salvo engano, apenas cinco deles, incluindo aí uma coletânea e um álbum ao vivo, foram lançados por aqui) e que aponta para uma retomada a sonoridade mais clássica da cantora, algo deixado um pouco de lado em seus dois últimos trabalhos, “Night of Hunters” e “Gold Dust”.

A sonoridade de Tori Amos nesse trabalho é bastante interessante, já que ela toma caminhos mais ortodoxos para sua música, tornando-a menos inacessível do que em seus álbuns mais recentes. Por outro lado, ainda é um pop mais classudo, que foge das fórmulas tradicionais – até porque aqui o som é todo focado no piano e as letras são bastante pessoais, muitas vezes focadas nas dificuldades que as mulheres enfrentam na vida e no campo profissional na medida em que envelhecem – o que a afasta das rádios.

Músicas como “Trouble’s Lament”, “Promise” (na qual Tori faz um dueto com sua filha Natashya Hawley), a alegrinha “Giant’s Rolling Pin” e as autobiográficas “Wild Way” e “16 Shades of Blue” são alguns dos pontos altos do álbum.

No resumo da ópera, “Unrepentant Geraldines” é mais um bom trabalho na carreira de Tori Amos. Longe da Tori que compôs álbuns como “Little Earthquakes”, “Boys for Pele” e “From the Choirgirl Hotel”, mas, ainda assim, um ponto alto em sua discografia.

Girlie Hell – Hit and Run

Girlie Hell_Capa_Hit And Run

Como o próprio nome pode sugerir, a Girlie Hell é uma banda formada exclusivamente por mulheres, que segue na mesma tradição de grupos como Girlschool e Crucified Barbara, investindo em hard rock com um pé bem fincado no heavy metal tradicional. Seu primeiro álbum, “Get Hard!”, foi lançado em 2012 e obteve boa repercussão entre a crítica especializada, figurando nas listas de “melhores do ano” de diversos veículos voltados para o público hard rock/heavy metal.

Dois anos depois de sua estréia e do lançamento de um single, “Winter”, em 2013, o quarteto formado por Bullas Attekita (vocal/guitarra), Júlia Stoppa (guitarra), Fernanda Simmonds (baixo) e Carol Pasquali (bateria) volta a dar as caras com “Hit and Run”, compacto lançado em vinil que, na velha tradição dos anos 1960, traz apenas duas faixas, mas que são o suficiente para mostrar a proposta da banda.

O lado A da bolacha traz “Gunpowder”, faixa que aposta em um riff pesado, cortesia de Bullas e Júlia, enquanto que “Till the End” vai para um lado mais cadenciado, bem marcado, onde o destaque é, principalmente, o vocal determinado de Bullas, que casa bastante bem com a temática da canção, cuja letra discorre sobre os obstáculos que grupos como o Girlie Hell precisam superar para conseguir alcançar seu lugar ao sol em um ambiente predominantemente masculino. Especialmente no Brasil, onde bandas de rock formadas exclusivamente por mulheres não é algo tão comum.

Apesar de bastante curto – somadas, as duas faixas superam pouco os 11 minutos – “Hit and Run” é um esforço genuíno do Girlie Hell e merece ser apreciado principalmente por admiradores das bandas citadas lá em cima no primeiro parágrafo, especialmente o Girlschool.

The Winery Dogs – Unleashed in Japan 2013

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O The Winery Dogs é outra daquelas bandas que a imprensa especializada rotulou como um “supergrupo”, já que reúne o baterista Mike Portnoy (ex-Dream Theater, Flying Colors), o baixista Billy Sheehan (Mr. Big, ex-Steve Vai) e o guitarrista/vocalista Ritchie Kozen (ex-Mr. Big, ex-Poison), todo com extensas carreiras e grande reconhecimento de público e crítica.

Depois de um excelente álbum debut autointitulado, o The Winery Dogs resolveu fazer o que hoje se tornou algo costumeiro dentre diversas bandas e, já de cara, investir na gravação de um DVD/CD ao vivo. O resultado disso é esse “Unleashed in Japan” que traz dez músicas sendo sete do álbum de estreia da banda e as demais versões para outros grupos.

Quem viu o trio se apresentar ao vivo na turnê de divulgação de seu álbum de estreia, que passou pelo Brasil, sabe muito bem o que esperar do grupo. Ao contrário do que poderia se pensar, dado à fama de virtuose de seus membros, o The Winery Dogs faz um som bem azeitado, com uma preocupação muito maior em fazer um rock and roll oitentista com influências dos anos 1970 de qualidade e menos em mostrar o quão fodões são em seus respectivos instrumentos. Claro que nos shows sempre há aqueles minutos em que um dos membros da banda toma o palco sozinho e realiza um solo justamente para exercer esse virtuosismo mas, pelo menos no que diz respeito à versão em CD simples de “Unleashed in Japan”, que é objeto dessa resenha, isso foi deixado de lado. O que temos aqui são 49 minutos do mais puro rock n’ roll, contagiante, energético e, obviamente, muito bem executado.

Com destaque para as músicas “Elevate”, que abre o álbum, a balada “I’m no Angel”, “Shine”, versão para a faixa gravada originalmente pelo Mr. Big e “Desire”, que fecha a bolachinha, “The Winery Dogs – Unleashed in Japan” é um excelente registro ao vivo e é uma ótima alternativa para aqueles não familiarizados com o trabalho da banda passarem a conhecê-la. Agora é torcer para que um álbum de inéditas seja lançado antes de Portnoy resolver abandonar o barco, como fez com o Adrenaline Mob…