Mês: Outubro 2014

Crow Black Sky – Pantheion

Crow-Black-Sky-Pantheion-Artwork-CoverUm belo começo

Apesar de muita gente no meio musical dizer que a Internet vai acabar matando a música como a conhecemos, especialmente devido aos sites que possibilitam o compartilhamento gratuito de arquivos, o fato é que muitos artistas e bandas tem se aproveitado justamente desse recurso para divulgar seu trabalho. O Crow Black Sky é um exemplo dessa onda.

A banda foi formada na África do Sul no final da década passada e lançou apenas um álbum, “Pantheion”, de maneira bastante independente: findo o processo de produção, o (na época) septeto simplesmente liberou o álbum em seu site oficial para download gratuito, tanto na versão inicial de 2010 quanto na remasterizada de 2012. Não só isso, como o Crow Black Sky ainda gravou um clipe para a faixa “Stars of God”, tanto em seu site oficial quanto no Youtube, que foi onde eu descobri essa pérola.

O principal efeito que “Pantheion” causa após escutarmos o álbum pela primeira vez é pura estranheza e quase descrença, devido ao fato de uma banda com tamanha qualidade ainda não ter sido abordada por uma gravadora, especialmente aquelas especializadas em black/death metal. Desde os primeiros acordes da intro “Vita Satus” até os últimos momentos de “Home”, a última das 10 faixas, o que se ouve aqui é um black/death metal da mais pura qualidade, com tanta influência moderna quanto antiga. Impressiona como Ryan Higgo (vocais), Gideon Lamprecht, Kean Malcolmson, Chris Gilbert (guitarras), Stephen Spinas (baixo) e Lawrence Jaeger (bateria) soam entrosados e conseguiram balancear suas composições, fazendo seu trabalho soar como se de uma banda madura, com bastante tempo de estrada e não o lançamento independente de um grupo cujo país tem praticamente zero tradição no cenário. Músicas como “Dissention”, “The Oppressor’s Fortune”, “Pantheion”, “Stars of God” e “Our Path Disdained” ilustram claramente o que foi dito acima e mostram o potencial de crescimento da banda (mesmo que tenham perdido Chris, Kean e Stephen ao longo do caminho).

Um álbum indispensável e que deveria ser item obrigatório na coleção de qualquer fã do gênero, especialmente aqueles que apreciam o trabalho de bandas como Behemoth, Belphegor e Amon Amarth. E o mais legal é que o álbum pode ser obtido facilmente de graça no site da banda (www.crowblacksly.com).

 Vale a pena.

Elvenking – The Pagan Manifesto

p18ihs02cm2gqc0v1lsg1anpmmj4Banda mostra que quer ser grande

O Elvenking foi fundado na Itália em 1997 e chamou a atenção da crítica especializada logo quando do lançamento de seu debut, “Heathenreel”, em 2001, que ocasionou que a banda excursionasse pela Europa dando suporte a grandes nomes do Power Metal atual, como Blind Guardian, Edguy e Gamma Ray.

Ao longo da década passada a banda lançou seis álbuns, alcançando resultados variados. Se, por um lado, alguns de seus trabalhos receberam diversos elogios de crítica e público (“The Winter Wake” “Wyrd” e “The Scythe”), outros (“”Red Silent Tides” e “Era”, coincidentemente os dois últimos) foram amplamente ignorados, simplesmente por não trazerem qualquer inovação ou sedimentação à sonoridade da banda. Isso fez com que o Elvenking ficasse meio estagnado: a banda nem consegue aumentar sua base de fãs, nem tampouco sofre uma perda muito grande. Combine isso com o fato do grupo fazer um som que combina características do Folk com o Power Metal e a coisa fica ainda mais complicada.

Eis que em 2014 o Elvenking lança “The Pagan Manifesto” com a intenção, aparentemente, de virar a mesa e conseguir seu lugar dentre os maiores nomes do gênero atual, lugar ocupado atualmente por bandas como Korpiklaani, Ensiferum e Enslaved. Se o intento será alcançado, só o tempo dirá. No entanto, podemos dizer com segurança que o grupo está no caminho certo, já que “The Pagan Manifesto” é o melhor álbum da carreira do Elvenking em muito tempo.

A exemplo de álbuns de power metal tradicionais, “The Pagan Manifesto” é aberto com “The Manifest”, uma introdução com pouco mais de dois minutos que desemboca em “King of the Elves”, a mais longa música já composta pelo Elvenking. Batendo na casa dos 13 minutos, “King of Elves” tem todo um clima épico, refrões grandiosos e contagiantes, bons riffs e todo aquele clima alegre que é indelével às canções folclóricas. Um começo bem auspicioso para um álbum que, como um todo, é bastante agradável.

Um dos trunfos do Elvenking em seu oitavo álbum é também a forma como as músicas foram dispostas ao longo de si. Se “King of Elves” é uma faixa longa e intrincada, “Elvenlegions” tem um ritmo mais tradicional, direta e bem mais curta; “The Druid Ritual of Oak” já remete aos trabalhos mais antigos da banda; enquanto “Towards the Shore” é a balada que pisa no freio da alegria folk, “Pagan Revolution” volta com o clima pra cima, abrindo espaço para a pesada (dentro da proposta da banda) “Grandier’s Funeral Pyre” que, por sua vez, prepara terreno para a tradicional “Twilight of Magic”, que precede a novamente alegre – e quase pop – “Black Roses for the Wicked One” – mantendo sempre o pique do álbum e o interesse do ouvinte. A exemplo de “The King of Elves” “The Pagan Manifesto” é fechado com chave de ouro com “Witches Gather”, outra faixa longa, dessa vez passando pouco dos oito minutos e meio de duração.

Com 12 faixas distribuídas de maneira bastante harmoniosa e um álbum que tem tudo pra figurar em diversas listas de melhores de 2014, o sexteto formado por Damna (vocais), Aydan e Rafahel (guitarras), Jakob (baixo), Symohn (bateria) e Lethien (violino) tem tudo para conseguir mais atenção do que aquela que vem recebendo até o momento. Desnecessário dizer que esse é um álbum que todo fã de folk/power metal deve, pelo menos, conferir.

Flying Colors – Second Nature

Desafio do segundo álbum superado

Flying-Colors-Second-Nature

Após estrear no mercado em 2012 com um excelente álbum autointitulado, o Flying Colors – banda formada pelo vocalista Casey McPherson (Alpha Rev), o guitarrista Steve Morse (Deep Purple), o baixista Dave LaRue (Dixie Dregs), o tecladista/vocalista Neal Morse (Transatlantic, ex-Spock’s Beard) e o baterista Mike Portnoy (Transatlantic, The Winery Dogs, ex-Dream Theater) – prova que, apesar da pecha de “supergrupo” que lhe foi atribuída, seus membros deixaram, novamente, seus enormes egos de lado e produziram um trabalho que não deixa nada a dever ao anterior. Muito pelo contrário, “Second Nature” é, em diversos aspectos, ainda superior a “Flying Colors”.

“Second Nature” traz tudo o que funcionou no primeiro esforço do conjunto, mas reforça a principal característica de seus integrantes, ou seja, a preferência pelo rock progressivo. Não que a banda tenha abandonado a sonoridade pop do primeiro álbum, ela se encontra aqui em diversos momentos, tornando “Second Nature” um trabalho de fácil digestão e agradabilíssimo de ouvir, ainda que tanto a faixa de abertura “Open Up Your Eyes”, quanto a final, “Cosmic Symphony” possam intimidar alguns ouvintes devido à sua duração (ambas superam os 10 minutos) e passagens mais intrincadas, bastante voltadas para o rock progressivo, mas sem abusar do virtuosismo que caracteriza o estilo. O “recheio” do álbum, no entanto, é delicioso e muito bem equilibrado, trazendo de tudo um pouco: hard rock (“Bombs Away”), baladas (“The Fury of My Love”, “Peaceful Harbor”), pop progressivo (“A Place in the World”) e mesmo faixas radiofônicas com refrões grudentos (“One Love Forever” e “Mask Machine”).

Com “Second Nature” o Flying Colors mostra ser uma banda madura no sentido de a química entre seus integrantes – que, fora o vocalista Casey, já haviam se cruzado em outros projetos (Steve Morse fundou o Dixie Dregs de LaRue e ambos fazem parte da Steve Morse Band e Portnoy é sempre convidado nos álbuns de Neal Morse, além de dividirem os palcos no Transatlantic) – ter se mostrado ainda mais forte, de forma que todos ficaram mais à vontade na hora de compor músicas que soassem técnicas e, ao mesmo tempo, bastante acessíveis. É, sem sombra de dúvidas, um trabalho muito superior ao seu antecessor, o que já coloca as expectativas para um terceiro álbum do grupo lá em cima.