Mês: Agosto 2014

Emperor – In the Nightside Eclipse

O começo da década de 1990 foi uma época bastante interessante para o rock and roll e o heavy metal. Se por um lado aqueles foram os anos de decadência do festivo Hard Rock produzido nos Estados Unidos, que aos poucos era substituído pelo supervalorizado Grunge de Seattle, por outro aquele início de década viu o surgimento de um movimento que aos poucos passaria a chamar a atenção na Europa, especialmente na Noruega, por fatores além da música: O Black Metal ou “Norwegian Black Metal”, como seria conhecido futuramente.

Dentre a safra de bandas surgidas naquela época, o Emperor talvez seja uma das mais relevantes, se não for A mais relevante. Formada em 1992 por Vegard Sverre “Ihsahn” Tveitan (vocais, guitarras, teclados) e Tomas “Samoth” Haugen (guitarras) seria apenas em 1994 que a banda, contando agora com o baterista Bård “Faust” Eithun e o baixista Terje “Tchort” Schei lançaria seu primeiro álbum de estúdio, “In the Nightside Eclipse”, que logo se tornaria uma referência para o gênero. Tanto que o mesmo foi relançado recentemente em uma edição especial, intitulada, adequadamente “In The Nightside Eclipse (20th Anniversary Edition)”, recheada de bônus.

Um dos motivos que faz “In the Nightside Eclipse” um álbum tão relevante é a inovação que trouxe então. Em 1994, a tendência das bandas de Black Metal norueguesas era fazer seus álbuns da maneira mais simples e primitiva possível. Bateria, guitarra e baixo na maior velocidade possível, vocal gritado/gutural (quanto mais ininteligível melhor) e uma produção bastante tosca, onde nada se destacasse. “In the Nightside Eclipse” tem tudo isso, mas traz ainda elementos sinfônicos – um dos poucos álbuns da época a ter a presença do teclado – e mesmo progressivos, ainda que de maneira bem discreta. Além disso, o fato de Ihsahn, Samoth, Faust e Tchort realmente saberem tocar seus instrumentos – e não apenas surrá-los – trouxe um elemento a mais ao seu trabalho. A geração de bandas de Black Metal que possui músicos de qualidade dentre seus membros – sendo a maior representante atual o Dimmu Borgir – deve muito à influência do primeiro álbum do Emperor. “In the Nightside of the Eclipse” mostrou a toda uma geração que pode-se fazer um som considerado “maléfico” e “profano” sem necessariamente ser completamente tosco. Isso tudo faz com que muitos o considerem um divisor de águas no cenário do Black Metal da época, daí sua relevância até os dias de hoje. Há ainda a onipresente referência ao trabalho de J. R. R. Tolkien na capa, que mostra um bando de Orcs em direção à Minas Morgul. Ou seja, tinha tudo para se tornar um clássico do underground. 🙂

“In The Nightside Eclipse (20th Anniversary Edition)” é um disco duplo. O primeiro CD traz o álbum originalmente lançado em 1994, enquanto que o segundo traz versões com diferentes mixagens para as mesmas músicas. Destaque para as duas versões de “The Burning Shadows of Silence” e “I am the Black Wizards”, essa última talvez a música mais reconhecida da carreira do Emperor, que desbandou em 2001 após apenas quatro álbuns, mas que de vez em quando faz um show aqui e ali.

Indispensável para fãs de Black Metal.

 

 

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Opeth – Pale Communion

O Opeth deve ser um dos grupos mais ousados do rock atual. A banda surgiu no começo dos anos 1990 na Suécia e, após diversas mudanças de formação, já capitaneada pelo vocalista/guitarrista Mikael Åkerfeldt, teve seu primeiro álbum, “Orchid” lançado em 1995. Ao longo daquela década e dos primeiros 10 anos do século XXI, o Opeth se tornaria uma das bandas mais respeitadas do cenário, graças à combinação única das influências de heavy metal, death metal e rock progressivo em sua música. Em seus primeiros álbuns o trabalho da banda se caracterizava por longas músicas onde as “viagens” do rock progressivo se casavam de maneira harmoniosa com a “pancadaria” do heavy metal e os vocais grunhidos/gritados característicos do death metal.

Uma das coisas que faz o Opeth ser classificado como um grupo ousado é o fato de Åkerfeldt não se preocupar em agradar à sua audiência e, assim, não se restringir em adicionar elementos que possam soar estranhos ou mesmo alienar os fãs mais antigos de seus trabalhos. As provas disso são seus dois últimos álbums, “Heritage” (2011) e esse “Pale Communion” que parecem qualquer coisa, menos um trabalho do Opeth.

Em “Pale Communion” Mikael Åkerfeldt parece ter cortado – mesmo que, esperamos, temporariamente – de maneira ainda mais radical todos os laços que manteve até o consagrado álbum “Watershed” (2008) com o passado do Opeth, trilhando um caminho que começara a ser pavimentado com o supracitado “Heritage”, de tal forma que, tivesse ele lançado esse trabalho como uma iniciativa solo ou sob outro nome, as pessoas jamais o ligariam com sua banda principal. O que se ouve em “Pale Communion” não é um álbum do “death/progressive metal” que um fã do Opeth esperaria. Não, esqueça isso. O que se tem aqui é um álbum de rock progressivo, com raízes puramente fincadas nos anos de 1970, ainda que elementos modernos aqui e ali o denunciem como um produto contemporâneo.

Com oito faixas e apenas uma – “Moon Above, Sun Below” – ultrapassando a marca dos 10 minutos (outra característica da banda), “Pale Communion” começa com “Eternal Rains Will Come” e ela já dá uma ideia do que o ouvinte pode esperar: longas passagens instrumentais levadas com bastante competência por Fredrik Åkesson (guitarra), Martín Méndez (baixo), Joakim Svalberg (teclados) e Martin “Axe” Axenrot (bateria), mudanças de andamento e clima e os vocais ora limpos, ora dobrados – mas nunca guturais – de Åkerfeldt. Ou seja, tudo aquilo que um fã do rock progressivo, especialmente dos anos 1970, poderia esperar de um bom álbum do gênero. E, mesmo saindo de sua área de especialidade, impressiona o resultado obtido pelo Opeth com esse álbum.

“Pale Communion” é representa um belo risco para o Opeth. Afinal, ao se livrar de algumas das principais características de sua música, a banda flerta com a possibilidade de perder parte de sua audiência – especialmente aquela que foi atraída pelo seu trabalho justamente por causa da sonoridade death metal inicial – em prol de continuar sendo um dos nomes mais criativos e imprevisíveis do cenário atual. Para onde isso os levará, só o tempo vai dizer.

Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis – Trazendo Luzes Eternas

Formada nos idos de 1994 em Recife, o Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis (ao qual, daqui em diante, me referirei apenas como Jorge Cabeleira) obteve um certo sucesso naquela década, especialmente graças ao seu primeiro álbum, homônimo, que trazia participação de Zé Ramalho em uma faixa (“Os Segredos de Sumé”) e à releitura de “Cheiro de Carolina” (ou, simplesmente, “Carolina”), de Alceu Valença, que ganhou uma roupagem mais rock and roll e chegou a ter seu clipe veiculado na MTV em uma época em que a emissora ainda era relevante.

Adepto do mesmo movimento manguebeat que revelou para o Brasil a Nação Zumbi, na época ainda capitaneada pelo saudoso Chico Science, o som do Jorge Cabeleira se caracteriza por uma mistura de rock and roll e blues aos ritmos típicos da capital pernambucana, especialmente o forró e o baião, com letras que exploram bastante os temas locais.

Em 2001, a banda lançou “Alugam-se Asas para o Carnaval”, mas a década não se mostrou tão receptiva à salada musical do grupo como a anterior e, pouco depois, o Jorge Cabeleira se dispersou, com seus membros indo explorar novos horizontes. Em 2012 a banda resolveu se reunir, preparando-se para o aniversário de 20 anos que traria um novo álbum…. Mais ou menos. “Trazendo Luzes Eternas” é uma coletânea com vinte músicas, sendo duas inéditas e as demais um apanhado do que o grupo fez de melhor em seus dois primeiros álbuns.

“Trazendo Luzes Eternas” é excelente. O álbum apresenta um material que resistiu ao tempo e se mostra bastante relevante, ainda que letras e composições já tenham uma certa idade. Músicas como “Canudos”, “Psicobaião”, “O Dia em que Conceição Subiu a Serra”, “Nervoso na Beira do Mar”, “Silepse”, “Jabatá e o Diabo”, “A História de Zé Pedrinho” e “12 Badaladas”, só para citar algumas, são provas cabais do talento da banda, que consegue alcançar um resultado harmonioso ainda que misturando ritmos tão distintos como o forró e o rock. É o tipo de material que todos aqueles que dizem que não há bandas relevantes no rock nacional, que cantem em português e sejam criativas, deveriam escutar. Destaque positivo também para as letras, que refletem diversos temas caros ao nordestino.

E o mais legal de tudo isso é que a banda disponibilizou a coletânea tanto para a venda através do iTunes quanto para download via Dropbox. O álbum físico pode ainda ser adquirido com a própria banda, através de sua página no Facebook.

Vale a pena dar uma conferida.

Fire Shadow – Phoenix

Uma veterana na cena do heavy metal paranaense, o Fire Shadow foi formado em 2003 e, nesses onze anos de estrada lançou uma demo (“Desire To Kill”, de 2004), dois singles “Lost Memories” de 2005 e “Steel And Metal” de 2011) e o primeiro álbum auto-intitulado em 2007. Isso gabaritou o quinteto a servir de banda de abertura para grandes nomes do metal internacional que passaram pelo estado, como Grave Digger (2011), Iced Earth (2012) e Paul Di’anno (2013), dentre outros.

Em 2014 o quinteto, que conta com Marco Lacerda (vocal), Francisco Kozel e Bruno Quimelli (guitarras), Gustavo Adaeots (baixo) e Leandro Zonato (bateria), voltou ao estúdio para a gravação de “Phoenix”, um EP com cinco faixas que serve para re-apresentar a banda ao público de fora de sua terra natal. Apesar de sua curta duração – são apenas 26 minutos de música – “Phoenix” mostra bem o que o Fire Shadow tem a oferecer: heavy metal clássico, com riffs de guitarra interessantes, uma bateria competente, um baixo bastante discreto e refrões grudentos. Ao contrário da maioria das bandas do gênero atualmente – especialmente as brasileiras – o Fire Shadows dispensa os teclados e orquestrações. É heavy metal puro e direto.

Tendo como destaque principal a faixa título com seus mais de sete minutos, “Phoenix” é um esforço bem legal do Fire Shadow. Um álbum bastante homogêneo, bem produzido e que faz o ouvinte ficar na expectativa de ter contato com mais material da banda. Só nos resta esperar que esse EP obtenha uma repercussão boa o suficiente para motivar a banda a gravar um segundo álbum completo.

Belphegor – Conjuring the Dead

Pouco mais de três anos depois do excelente “Blood Magik Necromance”, eis que a dupla Helmuth (vocais/guitarras) e Serpenth (baixo) voltam ao mercado com o seu décimo álbum de estúdio, “Conjuring the Dead”, trazendo o que de melhor o Belphegor tem a oferecer. Ou seja, nada muito diferente do que a banda vem fazendo em seus 19 anos de carreira.

Adeptos do que a indústria musical rotulou como “Blackened Death Metal” – basicamente, uma banda de death metal com influências black metal no que diz respeito à temática/letras – “Conjuring the Dead” é aquele tipo de álbum feito de maneira segura que, apesar de trazer um destaque aqui, outro ali – sendo o principal deles a faixa “Legions of Destruction”, pois traz as participações especiais de Glen Benton do Deicide e Attila do Mayhem nos vocais – não sai quase nada da zona de conforto da banda. Não há nenhum elemento novo, nenhuma inovação, apenas o instrumental acelerado e as letras blasfemas – recheadas de palavrões – características da banda e do estilo.

Uma coisa na qual bandas de black metal tem investido bastante é na produção. Se no começo quanto mais sujo o som fosse, melhor, hoje em dia – salvo exceções como o Burzum – tem se dado mais cuidado a esse aspecto dos álbuns o que torna a audição dos mesmos mais agradável (se é que essa é uma palavra adequada para um álbum desse gênero), já que é possível distinguir todos os instrumentos e os vocais de maneira mais clara (novamente, uma palavra que não define, nem de longe, os vocais de Helmuth).

Começando com a pesada “Gasmask Terror” e finalizando com “Pactum In Aeternun”, “Conjuring the Death” tem dez faixas que, à exceção do interlúdio “The Eyes”, são pancadaria de boa qualidade do início ao fim. Ideal pra relaxar depois de um dia estressante de trabalho.

Grave Digger – Return of the Reaper

Com uma longa discografia da bagagem o Grave Digger é aquela típica banda que, raríssimas exceções, nunca decepciona seus fãs. Formada na Alemanha no começo dos anos 1980, quando o estilo germânico de metal que viria a ser conhecido como power metal dava seus primeiros passos, o grupo liderado pelo vocalista Chris Boltendahl, único remanescente da formação original, se apegou à fórmula e dificilmente se desvia dela.

“Return of the Reaper” é seu 17º álbum de estúdio e mostra o Grave Digger em plena forma, mesmo que repetindo a mesma fórmula de sempre. Com o baterista Stefan Arnold, o baixista Jens Becker, o tecladista Hans Peter “H.P.” Katzenburg (que normalmente se apresenta sob os trajes do mascote da banda) e o guitarrista Axel Ritt completando a formação, o que se ouve em “Return of the Ripper” é power metal puro e simples. Riffs bem colocados, solos virtuosos, coros, letras envolvendo o ceifador, guerra e morte e especialmente, refrões grudentos estão presentes por todo o álbum o que é, repito, aquilo que todo o fã de Grave Digger poderia esperar. Duvida? Então dá uma escutada em “Tattoed Rider”, “Road Rage Killer”, “Dia de Los Muertos” e “Death Smiles at All of Us” e comprove o que digo. Há até a indefectível balada em “Nothing to Believe”, para fechar o álbum.

Se a versão regular de “Return of the Reaper” já é interessante e atende aos desejos dos fãs, a edição limitada traz um segundo disco – aliás, coisa que vem se tornando usual nos lançamentos do Grave Digger – que é uma agradável surpresa. Afinal, além de duas faixas inéditas de bônus, ele vem ainda com oito faixas gravadas ao vivo em formato acústico. Não tem como não achar interessante – ou estranho, dependendo de seu gosto pessoal – escutar clássicos da banda como The “Dark of the Sun”, “Rebellion (the Clans are Marching) e “Heavy Metal Breakdown”, músicas conhecidas por dar dor no pescoço de headbangers ao redor do mundo, em uma roupagem que talvez agradasse até a seu pai fã de MPB.

Não dá pra dizer que “Return of the Reaper” é o melhor que o Grave Digger já fez mas, como sempre, é um esforço consciente da banda em atender aos fãs tradicionais e, no caso de sua edição limitada, trazer algo de novo para aqueles que gostariam de ver o grupo trilhar caminhos menos conhecidos. Vale à pena dar uma conferida, caso power metal seja um estilo musical que lhe agrade.