Mês: Julho 2014

Epica – The Quantum Enigma

Recomeçando do princípio

Durante a divulgação de Retrospect, CD/DVD que marcou a primeira década da banda, o guitarrista/vocalista, principal compositor e fundador do Epica, Mark Jansen andou declarando na imprensa que o próximo álbum do grupo seria uma espécie de recomeço. Afinal, até ali dez anos haviam se passado, nos quais o Epica se sedimentou como uma das maiores e mais bem sucedidas bandas de Symphonic metal do planeta e, ao adentrar sua segunda década de atividade, seria a hora de abrir suas asas e tentar algo novo.

Depois de resultados mornos com seu último álbum de estúdio, “Réquiem for the Indifferent”, Mark, a bela soprano Simone Simons, o tecladista Coen Janssen, o guitarrista Isaac Delahaye, o baixista Rob van der Loo e o baterista/vocalista que divide os grunhidos com Mark, Ariën van Weesenbeek resolveram que a melhor forma de tentar algo novo era justamente revisitar seu passado, buscar aqueles elementos que tornaram o Epica famoso e leva-los a um novo nível de maestria. O resultado disso é esse “The Quantum Enigma”, um álbum que, a exemplo de “Consign to Oblivion”, de 2005, tem tudo para se tornar um dos mais altos pontos na carreira da banda.

Desde o primeiro segundo, quando a introdução instrumental “Originem” começa a tocar, já dá pra ter uma ideia do que se encontrará em “The Quantum Enigma”: um álbum grandioso, com corais e orquestras dando o tom, mas se mesclando de maneira perfeita com as guitarras de Mark e Isaac, trazendo uma roupagem excepcionalmente harmônica a todo o conjunto. Claro, como esse é um álbum de metal, o peso também está presente de maneira quase onipresente e isso logo se nota quando, findada a introdução, a bolachinha efetivamente começa através de “The Second Stone”. Um belo riff de guitarra e uma orquestra afinada, aliada ao coral e aos vocais de Simone e os grunhidos de Mark mostram que o Epica não veio para brincadeiras e quer nos mostrar porque muitos críticos já consideram esse o melhor trabalho da banda.

O ruim de analisar álbums como esse é que ele é tão homogeneamente nivelado por cima que se torna difícil apontar os erros e acertos. Tudo aqui foi muito bem pensado e executado e funciona de maneira harmoniosa. Nem mesmo os belos vocais de Simone, uma constante em se tratando do Epica, merecem um maior destaque. Riffs de guitarras poderosos com um solo aqui outro ali, a bateria ora harmoniosa, ora nervosa de Ariën, corais e teclados bem encaixados e uma produção cuidadosa, tudo isso trabalha de maneira extremamente favorável em “The Quantum Enigna”, tornando-o um sério candidato a figurar nas listas de melhor álbum do ano de muita gente. Na deste blog ele já se encontra com toda a certeza.

Metalhead

Liberação via heavy metal

Exibido em alguns festivais independentes – inclusive no Brasil – no ano passado, o longa Metalhead (Málmhaus, no original), do diretor islandês Ragnar Bragason tem chamado a atenção dos fãs da chamada “música extrema” pela forma como ele aborda esse gênero musical de forma singular em uma interessante história de superação. Essa atração, no entanto, se mostra bastante exagerada, já que, ainda que o filme seja recheado de heavy metal e o próprio título possa ser traduzido como “metaleiro”, o black metal que ele supostamente evoca tem pouquíssimo tempo de tela na película.

Exageros à parte, Metalhead tem sua história toda passada em uma pequena comunidade rural islandesa. O longa começa quando a jovem Hera (Diljá Valsdóttir) presencia um acidente bizarro que tira a vida de seu irmão mais velho Baldur (Óskar Logi Agústsson). Muito ligada ao irmão, Hera resolve meio que assumir sua identidade, adotando seu figurino – ela queima suas roupas “de menina” e passa a andar com as camisas pretas estampadas com logos e imagens de bandas de heavy metal do irmão – sua guitarra e seu gosto musical. Sua mãe, Droplaug (Halldóra Geirharðsdóttir) lida com a perda de maneira similar, mantendo o quarto de Baldur intocado, como se ele ainda vivesse naquela casa enquanto que seu pai Karl (Ingvar Eggert Sigurðsson) continua a fazer seus trabalhos na fazenda – a família se dedica à produção de leite – sem encarar sua dor da forma como deveria fazê-lo.

Uma década se passa e, no início dos anos 1990, vemos Hera (Thora Bjorg Helga) ainda naquela situação. Além de adotar o guarda-roupas e o gosto musical de Baldur, ela tenta canalizar sua raiva e dor pela perda do irmão em uma atitude tipicamente autodestrutiva e de auto-sabotagem que esconde apenas superficialmente o fato de que está perdida e não sabe sequer como pedir ajuda para sair daquela situação para, finalmente, superar o sentimento de perda que a consome. Enquanto trabalha na fazenda dos pais ordenhando vacas, limpando os currais e etc, Hera compõe músicas às quais nunca termina, enquanto mergulha em fanzines e revistas especializadas em heavy metal.

Essa trajetória sofre uma virada, inicialmente para pior, quando acontecem dois fatos que afetam a vida de Hera: a chegada de um novo padre (Þröstur Leó Gunnarsson) à paróquia freqüentada por sua família e o surgimento da cena black metal norueguesa e os famosos incêndios a igrejas ocorridos então. Aqui cabe uma contextualização rápida: entre 23 de maio e 25 de dezembro de 1992 nove igrejas cristãs foram incendiadas na Noruega e a autoria dos crimes foi atribuída a diversos membros de bandas de black metal locais. Na época, apesar das acusações, ninguém foi preso pelos crimes, com a única exceção de Varg Vikernes, fundador e único membro da banda Burzum, preso pelo assassinato de Øystein Aarseth, vulgo Euronymous, membro da também banda de black metal Mayhen. Varg, cujo trabalho musical é referenciado de leve em Metalhead, acabou também acusado do crime de incendiar igrejas, mesmo que sua participação nesses atos nunca tenha sido comprovada.

Voltando ao tema da resenha, ao se aprofundar na música realizada no país vizinho, no entanto, Hera finalmente encontra uma saída para direcionar toda a raiva que ainda guarda pelo irmão e isso acaba tendo um efeito em toda a sua família. Dizer mais revelaria mais detalhes da trama que viriam a estragar a experiência de assistir ao filme.

Apesar de alguns problemas, especialmente no que diz respeito à passagem do tempo e uma ou duas cenas que despertam a vergonha alheia do espectador, Metalhead se mostra uma opção bem interessante para aqueles que, como eu, desconheciam filmes vindos da Islândia. De bônus ainda traz uma trilha sonora recheada de bandas clássicas do heavy metal, tais quais Judas Priest, Diamond Head e Megadeth, dentre outras. Vale à pena dar uma conferida.