Mês: Maio 2014

ReVamp – Belo Horizonte

Belo show em casa aconchegante

Formada em 2009, o ReVamp é uma iniciativa da vocalista Floor Jansen, que fundou a banda após o fim do seu grupo principal até então, o After Forever. Apesar de ter sido efetivada como vocalista principal do Nightwish no final de 2012, ela tem dividido seu tempo entre as duas bandas e, assim que terminou a turnê com os finlandeses, embarcou com seu novo grupo para a divulgação de “Wild Card”, segundo trabalho do sexteto que, além dela, conta com os guitarristas Arjan Rijnen e Jord Otto, o baixista Henk Vonk, o tecladista Ruben Wijga e o baterista Matthias Landes.

A apresentação em Belo Horizonte aconteceu na última sexta-feira, no dia 23 de junho, no Granfino’s, nova casa de shows da cidade que tem recebido diversas bandas consideradas “menores” por produtores. Isso faz com que o público, em praticamente qualquer lugar da casa – salvo nos camarotes – fique bem perto do palco, o que é sempre bom, mesmo que cause algumas situações inusitadas, como mencionarei alguns parágrafos abaixo.

ImagemNoturna

A banda local Noturna, formada por Vivian Bueno (vocal), Sérgio Barbieri (guitarra e vocal gutural), Vítor Freitas (baixo), Laura Pataro (teclados) e Rafael Costa (bateria) foi a encarregada de abrir os trabalhos, quase que em um repeteco de 2005, já que naquele ano o grupo foi responsável por abrir o show do After Forever em Belo Horizonte. Os nove anos de experiência fizeram bem ao quinteto, que apresentaram uma performance bem superior à de então. A presença de palco da banda ainda precisa de ajustes, mas seu heavy metal com bastante influências góticas no esquema “bela e a fera” (ou seja, vocais sopranos x vocais guturais) cumpriu bem o papel de esquentar o público. A banda apresentou músicas de seus dois álbuns – Diablerie (2005) e A Dream Within A Dream em uma apresentação de quase uma hora de duração.

 ImagemReVamp

Com o público já aquecido e pouco mais de vinte minutos após o previsto – o show estava marcado para as 21:00 hs – o ReVamp entrou no palco sem muito alarde, pelo menos até que Floor pisasse no palco e atraísse todos os flashes para si, com a banda já emendando as duas primeiras músicas de “Wild Card”, “The Anatomy of a Nervous Breakdown: On the Sideline” e “The Anatomy of a Nervous Breakdown: The Limbic System”. Pelos setlists divulgados antes por fãs presentes em shows anteriores da banda, estava claro de que pouca coisa (ou quase nada) seria mudada para a apresentação em Belo Horizonte, com a banda se focando inteiramente em seus dois álbuns.

Pouco depois da execução da segunda música Floor parou um pouco para interagir com o público e pediu que o pessoal parasse de usar os flashes na hora de tirar as (incontáveis) fotos da banda, já que isso era bastante incômodo e tirava sua concentração e a dos demais membros do ReVamp. A garota fez isso com a maior educação possível, sorrindo o tempo todo e a maioria do público entendeu e atendeu o pedido. Mas, ainda assim, teve gente que depois reclamou nas redes sociais chamando-a de “diva” por conta disso. Vai entender…

Independentemente disso, o fato é que o ReVamp mostrou-se uma banda bastante competente no palco, interagindo bastante com o público e mostrando-se bem entrosada ao longo de toda a sua apresentação, que durou mais de 90 minutos e trouxe quase que a totalidade das músicas já gravadas pela banda. O grupo soube equilibrar bem o setlist, alternando músicas mais agitadas com outras mais tranquilas. “I Lost Myself” foi um desses momentos, em que apenas Floor e o tecladista Ruben permaneceram no palco, com a holandesa cantando uma letra bastante emotiva para um público que, a pedido dela, permanecia em silêncio, apenas absorvendo aquela experiência.

No geral, o show do ReVamp foi uma grande experiência. Floor Jansen – que agora deu pra fazer vocais guturais – tem completo domínio do palco e sabe bem como usar sua voz variando tons mais agudos para os mais convencionais (além dos guturais acima mencionados) com maestria. Ela se mostra carismática e interage bastante com o público. Mesmo quando xingou um membro da platéia que insistia em usar o flash, depois de ela ter pedido mais de uma vez que não o fizesse, o fez com bastante simpatia. Os demais membros da banda seguem na mesma onda, mostram-se bastante à vontade no palco e, se conversam pouco com o público, transmitem aquela energia que só quem realmente gosta do que faz – e de onde está – consegue fazer.

No fim das contas, apesar da casa não estar lotada, creio que todos ali presentes se divertiram bastante – tanto banda quanto público – e torcem para que essa tenha sido apenas a primeira passagem do ReVamp pela cidade.

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Tuomas Holopainen – Music Inspired by The Life And Times Of Scrooge

Tio Patinhas ganha uma ótima trilha sonora

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Fundador, compositor, principal letrista e na prática dono do Nightwish, o tecladista Tuomas Holopainen nunca escondeu de ninguém sua paixão por trilhas sonoras para o cinema – a chamada score music. Tanto que desde 2004 ele incorporou a London Philharmonic Orchestra aos álbuns de sua banda e, em 2012, trabalhou na trilha sonora do filme “Imaginaerum”, baseado no álbum homônimo lançado pelo Nightwish no ano anterior.

Outra das paixões nada secretas do músico são os quadrinhos da Disney, especialmente as histórias estreladas pelo clã Pato (Tio Patinhas, Donald e seus familiares), concebidas por Carl Barks (1901-2000, o criador do Tio Patinhas) e aquele que é considerado por muitos como seu sucessor, o escritor e ilustrador Don Rosa.

Em 1995, Don Rosa foi agraciado com o Will Eisner Award – o “Oscar” dos quadrinhos – pela série em doze partes The Life and Times of Scrooge McDuck (publicada no Brasil como “A Saga do Tio Patinhas”). Fascinado pela série e sabendo que teria um período de férias após a turnê de divulgação do supracitado “Imaginaerum”, Tuomas resolveu se arriscar e fazer algo, no mínimo, pouco ortodoxo: trabalhar em uma trilha sonora para uma história em quadrinhos. O resultado é esse “Music Inspired by The Life And Times Of Scrooge”, lançado recentemente na Europa.

Para a gravação do album – que traz 10 músicas – Tuomas dispensou a maioria de seus comparsas usuais do Nightwish, à exceção de Troy Donockley, recém oficializado na banda, para conduzir diferentes flautas e apitos. A Troy se juntaram Mikko Iivanainen (guitarras, banjo), Dermot Crehan (violino), Teho Majamäki (Didgeridoo, um instrumento de sopro originário da Austrália) e Jon Burr (gaita), além da supracitada London Philharmonic Orchestra e, claro, Tuomas (teclados, piano). Já para as poucas partes vocais do álbum, foram convidados o coral londrino Metro Voices e Johanna Kurkela para viver a personagem Glittering” Goldie o’Gilt, Johanna Iivanainen no papel duplo de The Narrator e Downy O’Drake, lan Reid como o próprio Scrooge McDuck e Tony Kakko (vocalista do Sonata Arctica) como o Storyteller.

Apesar do histórico de seu compositor, “Music Inspired by The Life And Times Of Scrooge” não é um álbum de heavy metal. Há um solo de guitarra aqui e ali e um acompanhamento mais pesado dentro de uma ou outra música, mas, fora isso, todo o álbum é construído no modelo clássico usado para se compor trilhas sonoras. Tanto que, mesmo com esse grande número de vocalistas, a maior parte do que se ouve no álbum é puramente instrumental, com os cantores emprestando suas vozes para coros ou narrações/declamações pontuais que servem para situar o ouvinte. A exceção à regra é “A Lifetime of Adventures”, single do álbum que ganhou um vídeo estrelado pelo próprio Don Rosa.

Musicalmente falando, “Music Inspired by The Life And Times Of Scrooge” tem tudo para agradar aqueles fãs de score music que apreciam trabalhos de compositores como Hans Zimmer e Alan Silvestri. E deixa os fãs do Nightwish curiosos para saber como – e se – esse novo direcionamento musical de Tuomas influenciará o próximo álbum da banda.