Mês: Abril 2014

Dunkell Reiter – Unholy Grave

Thrash metal oitentista de respeito.*

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“Unholy Grave” é o primeiro álbum do Dunkell Reiter, banda de Contagem, Minas Gerais, que está na estrada desde 1996 e já tem na bagagem quatro demos lançadas. Com toda essa experiência, não causa nem um pouco de estranheza perceber que o álbum do quarteto formado por Rivelly “Assassin” Sanches (guitarra e voz), Rafael Reiter (guitarra), Roberto Otrebor (baixo) e Jonathan Reiter (bateria) soe bastante maduro, com tudo funcionando de maneira bastante satisfatória.

Uma coisa legal nesse “Unholy Grave” é que antes mesmo de colocar o álbum para rodar o ouvinte sabe bem o que lhe espera: thrash metal da escola dos anos 1980, do tipo que é bem feito em Belo Horizonte desde aquela década e que colocou a capital mineira no mapa do heavy metal mundial quando revelou nomes como Sepultura, Sarcófago, Overdose e Chakal, só para citar os mais emblemáticos. O Dunkell Reiter investe bastante nesse visual, seja através das fotos tiradas em cemitérios, seja através de suas roupas, com os integrantes adeptos dos cintos em formato de feixes de balas de fuzis. Até o nome da banda segue mais ou menos nessa linha, já que “Dunkel Reiter” significa “Cavaleiro Negro” em alemão (o porquê de haver um “l” a mais na palavra Dunkel aqui é algo que ficarei devendo-lhes). 🙂

Com oito músicas, “Unholy Grave” é aberto com a faixa título, que depois de um começo devagar com corais, engata em um riff de guitarra sensacional e é um excelente cartão de visitas para o que vem a seguir. Daí até “Assassin”, faixa que fecha a obra, o Dunkell Reiter apresenta um trabalho bastante homogêneo e sólido. Há de se destacar também a produção que também remete aos anos 1980 ainda que, claro, traga uma roupagem mais atual e, consequentemente, mais limpa, ainda que a sonoridade da banda seja puramente old school. Isso só faz com que a energia e a qualidade do som dos caras fiquem ainda mais em evidência.

Tudo funciona direito em “Unholy Grave”. O vocal de Rivelly é gritado e raivoso como deveria ser; as guitarras dele e de Rafael trabalham em harmonia, os riffs são matadores e os solos têm aquela técnica a qual os fãs do estilo estão acostumados; já a cozinha com Roberto e Jonathan segura muito bem a onda e soa muito bem.

Como dito no primeiro parágrafo dessa resenha, “Unholy Grave” não parece um álbum de estréia e sim o trabalho de uma banda já madura e que tem tudo para se tornar um dos grandes destaques dentro do cenário provando, novamente, a fama que Belo Horizonte tem em revelar grandes nomes do thrash metal.

* Texto originalmente produzido para o site Metal Clube.

Various Artists – Ronnie James Dio: This Is Your Life

Belo tributo a um dos maiores nomes do heavy metal

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Álbuns tributo são sempre complicados de analisar. Muitas vezes eles são simplesmente caça-níqueis planejados por uma gravadora que deseja capitalizar em cima do sucesso ou do legado de determinado artista/banda, sem muito critério de seleção (a exemplo do que aconteceu em “Twisted Forever”, tributo ao Twisted Sister que tinha um rapper entre os músicos presentes); em outras, eles são um legítimo esforço para homenagear uma banda ou artista que se foi e seus rendimentos são dedicados a alguma obra de caridade.

“Ronnie James Dio: This Is Your Life” se encaixa na segunda categoria, já que o álbum foi planejado por Wendy Dio, viúva do músico morto em 2010, e todo o lucro gerado com sua venda vai para o The Ronnie James Dio Stand Up and Shout Cancer Fund, fundação criada por ela dedicada à pesquisa de prevenção, educação sobre a importância de se detectar a doença em seus estágios iniciais e, claro, a cura do câncer.

Devido ao envolvimento direto de Wendy, que foi empresária do marido por décadas, “Ronnie James Dio: This Is Your Life” é um tributo muito interessante e respeitoso à memória de Dio, tendo seu elenco escolhido a dedo. É o tipo de álbum tributo que dá gosto de ouvir, ainda que não seja isento de defeitos. Por incrível que pareça, esse defeito não é causado pelo Tenacious D, de Jack Black, que dá uma roupagem discreta à “The Last in Line”.

Clichê que possa parecer, “Ronnie James Dio: This Is Your Life” traz uma verdadeira constelação de artistas de rock e metal, englobando várias gerações, mostrando o escopo que a obra de Dio – cuja carreira começou no fim dos anos 1950 – alcançou. Prova disso é que o elenco do álbum traz tanto bandas consagradas como Anthrax (“Neon Knights”), Motörhead com Biff Byford do Saxon (“Starstruck”) e Metallica (“Ronnie Rising Medley”, com trechos de “A Light In The Black”, “Tarot Woman”, “Stargazer” e “Kill The King”) quanto aquelas que vem chamando a atenção mais recentemente, tais quais Halestorm (“Straight Through The Heart”) e Killswitch Engage (“Holy Diver”).

Nas quinze faixas do álbum – a versão aqui resenhada é a digital, que vem com um bônus – a única decepção é em “Man on the Silver Mountain”, com Rob Halford (Judas Priest) em uma performance bastante burocrática, quase preguiçosa. Nas demais treze faixas, como dito acima, as homenagens são bastante honrosas. Como bônus extra, a faixa que nomeia o álbum é uma das últimas gravadas pelo homenageado, uma balada bastante intimista.

A exemplo da carreira do homem aqui homenageado, “Ronnie James Dio: This Is Your Life”, é um tributo acima da média e que vale ser conferido.

Devachan – Andarilho

Algumas arestas a serem polidas

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Formada em Boituva (SP) por Gabriel Dias (vocal), Leandro Dias (guitarra), Daniel Dias (baixo), Michael Santos (teclado) e Bruno Caresia (bateria), o Devachan vem com a arriscada proposta de fazer heavy metal com letras inteiramente em português. Ao contrário de bandas de outros países que se arriscam pelo mesmo caminho – ou seja, trabalham em letras em seu idioma natal – o Devachan não faz concessões e não acrescenta sequer uma música em inglês em seu repertório.

“Andarilho” é um EP lançado no fim do ano passado com seis faixas e um total de 23 minutos, o que faz a audição do álbum inteiro durar menos do que algumas músicas do Dream Theater. Nesse primeiro trabalho, a banda mostra potencial e tem conseguido alguns bons frutos no interior de seu estado natal (chegaram a se apresentar no Festival Planeta Rock, em São José dos Campos, em 2013), mas percebe-se que esse é um trabalho de estréia e que o grupo ainda tem muito o que evoluir.

“Andarilho” é um álbum bem homogêneo, sem muitos altos ou baixos. Nota-se que toda a banda tem um bom domínio de seus instrumentos, com destaque para o guitarrista Leandro e o tecladista Michael. Infelizmente, a produção do álbum algumas vezes derrapa e a voz de Gabriel acaba abafada pelos demais instrumentos. Nada demais mas, como dito acima, isso deixa claro que esse é apenas um álbum de estréia.

Polindo essas arestas e investindo em letras com um pouco mais de profundidade, o Devachan tem potencial para se tornar uma das boas – e raras – bandas de heavy metal tupiniquins que optam por realizar seu trabalho em seu idioma nativo.