Mês: Fevereiro 2014

Adrenaline Mob – Men of Honor

Banda supera com louvor o desafio do segundo álbum.

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O Adrenaline Mob surgiu como (mais) uma banda concebida pelo baterista Mike Portnoy na ocasião de sua saída do Dream Theater. De cara a banda chamou a atenção graças à sua formação – que trazia o vocalista Russel Allen, do Symphony X, o guitarrista Mike Orlando, famoso por ter trabalhado com Zakk Wylde (Black Label Society) e Bumblefoot (Guns ‘N Roses), o também guitarrista Rich Ward e o baixista Paul di Leo, ambos egressos do Fozzy – que lhe rendeu a maldita alcunha de “supergrupo”. Ward e di Leo, no entanto, logo abandonaram o barco, abrindo espaço para o baixista John Moyer, do Disturbed e a banda passaria a ter apenas um guitarrista.

Seu álbum de estréia, “Omertá” chamou bastante atenção pelo fato de não soar nada parecido com o metal progressivo praticado por Portnoy em seus (muitos) demais projetos, nem tampouco com o som normalmente associado ao Symphony X de Russel ou ao Disturbed de Moyer. “Omertá” trazia um rock pesado com influências de AOR e hard rock, bem produzido e direto, sem muita firula em termos instrumentais. Tudo parecia, então, bastante promissor.

A “Omertá” seguiu-se o EP “Covertá”, com versões da banda para músicas de grupos como Dio, The Doors, Led Zeppelin e Van Halen, dentre outros. Pouco depois do lançamento do EP, Portnoy anunciou sua saída da banda por “problemas de agenda” (o baterista na época estava envolvido com o Winery Dogs e o Transatlantic, além de tocar com qualquer um que o convide). Sem muita perda de tempo, A.J. Pero, do Twisted Sister, foi chamado para assumir as baquetas da banda e o quarteto logo sairia do estúdio com seu segundo álbum completo, “Men of Honor”, que já entra na disputa para figurar entre os melhores lançamentos do ano.

A saída de Portnoy não parece ter afetado em absolutamente nada a capacidade compositora do Adrenaline Mob, tanto no quesito das letras quando das músicas em si. O que se ouve ao longo de “Men of Honor” é um rock and roll de respeito, raçudo, com uma boa – mas não excessiva – dose de peso e aquele virtuosismo bem encaixado que funciona muito bem especialmente quando reservado aos solos de guitarra, os quais Orlando consegue tornar tanto virtuosos quanto rítmicos.

“Men of Honor” tem uma produção bastante bem feita e todos os instrumentos soam bem, incluindo o baixo de Moyer nos poucos momentos em que ele aparece, como na balada “Crystal Clear”. O álbum é um trabalho bastante homogêneo, com a qualidade das músicas se mantendo lá em cima, tornando difícil apontar destaques individuais. Boas amostras do que se pode esperar dele, no entanto, podem ser encontradas na faixa de abertura “The Mob is Back”, um rockão de respeito e em sua sequência, “Come on Get Up” com seu refrão grudento, além da supracitada “Crystal Clear”.

No mundo da música há sempre aquela desconfiança com relação ao segundo álbum quando uma banda – especialmente os “supergrupos” – lançam um bom trabalho de estréia. No caso do Adrenaline Mob, essa desconfiança pode ser deixada de lado, já que a banda conseguiu não só manter o bom nível de sua estréia, como mesmo superá-la em diversos quesitos.

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Within Temptation – Hydra

Banda continua sua trajetória descendente

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O Within Temptation surgiu na Holanda no fim do século passado e logo chamou a atenção do público especializado com seu metal sinfônico no estilo “bela e a fera”, ou seja, a combinação dos vocais angelicais de Sharon den Adel com os guturais de Robert Westerholt (também guitarrista), aliados à mescla do peso do heavy metal com a elaboração da música clássica. Desde o começo, no entanto, o grupo parecia meio esquizofrênico, claramente ainda em busca de uma identidade.

Essa busca começou a se tornar mais clara a partir de seu terceiro álbum, “The Silent Force”, de 2004, quando a banda deixou de lado boa parte dos elementos do heavy metal sinfônico praticado em “Enter” (1997) e “Mother Earth” (2000, que já mostrava uma sonoridade menos “metal” e quase “new age”) para enveredar para uma sonoridade mais “pop”, comercial, provavelmente objetivando conquistar uma fatia do concorrido mercado fonográfico norte-americano. Há de se lembrar que, naquele ano, a terra do Tio Sam vivia a onda do Evanescence (alguém ainda se lembra deles?) e tanto fãs quanto executivos de gravadoras buscavam por bandas similares àquela liderada por Amy Lee.

Essa busca pelo mercado norte-americano, que distanciou a banda de suas raízes sonoras, parece chegar a seu auge em “Hydra”, último álbum do grupo, o sexto em sua carreira. “Hydra” é, talvez, o mais fraco trabalho da banda e escancara ainda mais o objetivo acima citado. Prova disso é que, das quatro participações especiais em Hydra, três delas vem dos Estados Unidos. O vocalista Howard Jones (ex-Killswitch Engage), em “Dangerous”; o rapper Xzibit, em “And We Run” e Dave Pirner, a voz do Soul Asylum em “The Whole World is Watching”, única música interessante de “Hydra”. A exceção é Tarja Turunen (ex-Nightwish) em “Paradise”, mas nem essa música empolga.

Não há muito que se acrescentar a respeito de “Hydra”. Trata-se de um álbum fraco, genérico, que em nenhum momento se destaca, nem mesmo nas faixas que, em teoria, teriam potencial para isso, especialmente no dueto com Tarja. Recomendado apenas para fãs recentes e incondicionais do septeto holandês.

Evertale – Of Dragons and Elves

Alemães fazem boa estréia, mas nada extraordinário.

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Um dos estilos mais recheados de clichês do heavy metal é power metal. Para aqueles não familiarizados com o mesmo, esse subgênero do heavy metal surgiu na Alemanha da década de 1980 e se apóia em pilares como guitarras rápidas e técnicas, bateria marcante e precisa com notáveis bumbos duplos, um vocalista que seja capaz de alcançar notas bem agudas, refrões grandiosos e, sempre que possível, a companhia de orquestrações. Outra característica que diferencia o power metal de seus semelhantes é a escolha da temática que, quase invariavelmente, gira em torno de histórias fantasiosas, geralmente envolvendo guerreiros medievais, templários e, mais comumente, dragões, elfos, orcs, hobbits e por aí vai. J. R. R. Tolkien costuma ser a principal inspiração para as letras de 90% das bandas de power metal que vemos por aí, daí muitos de seus detratores referirem-se ao gênero como nerd metal.

Nas últimas três décadas o power metal se expandiu e, por muito tempo, foi o subgênero mais popular do heavy metal, especialmente na Europa. Blind Guardian, Helloween, Gamma Ray, Manowar, Hammerfall e Rhapsody of Fire são apenas alguns exemplos de bandas dedicadas ao gênero. Desnecessário dizer que isso trouxe uma saturação ao mercado e uma homogenia ao cenário. Bastava uma banda novata lançar um álbum com temática power metal para críticos e público erguerem sobrancelhas e um “putz, outra cópia do (inserir o nome de sua banda de power metal favorita aqui)” ser dito.

E foi com essa reação acima que o debut do Evertale “Of Dragons and Elves” foi recebido pela maioria daqueles que tiveram a oportunidade de colocar suas mãos (ainda que apenas virtualmente, já que o álbum foi lançado de maneira independente) nele. Basta uma olhada para a capa do álbum acima para saber exatamente a que estilo de heavy metal ele pertence. Estão lá os dragões se digladiando no que parece ser uma cadeia montanhosa européia, montados por guerreiros carregando espada e lança, o nome da banda escrito como se gravado em ouro e o título que parece remeter a um apêndice escondido de “O Senhor dos Anéis” que Peter Jackson poderia usar pra encher linguiça no terceiro capítulo de seu “O Hobbit”.

Quando se passa pela capa e procuramos um pouco mais a respeito de “Of Dragons and Elves”, a coisa só se sedimenta. Trata-se de um álbum conceitual baseado no livro “Dragões da Noite de Inverno” e escrito pela dupla Margaret Weis e Tracy Hickman, segundo volume da trilogia Dragonlance. Mais clichê impossível. No entanto, se depois de tudo isso a pessoa decidir se arriscar e colocar o álbum pra tocar, perceberá que nem tudo que rodeia o Evertale é uma coleção de clichês.

Tudo bem que o álbum começa com a indefectível introdução instrumental. No entanto, quando o minuto e meio de “Paladine’s Embrace” dá lugar à primeira música efetiva do álbum “In the Sign of the Valiant Warrior”, o que se escuta é um power metal muito, mas muito bem feito. O que o quarteto formado por Matthias Graf (vocal, guitarra), Matthias “Woody” Holzapfel (guitarra), Marco Bächle (baixo) e Martin Schumacher (bateria) apresenta é um álbum de estréia bastante redondinho, com uma produção impecável e uma banda que parece ter anos de estrada dentro do cenário e não que está lançando seu primeiro álbum. “Evertale” tem 14 faixas que beiram os 80 minutos de duração no total e variam faixas épicas como “Tales of Everman” e “The Last Knight”, com outras mais contidas a exemplo da música título a qual alguns críticos – exageradamente – andam comparando a “The Bard’s Song”, do Blind Guardian. Já “Brothers in War (Forever Damned)” tem a participação especial de Ralph Scheepers, vocalista do Primal Fear.

A maioria dos críticos que escreveram sobre a estréia do Evertale o colocou entre os melhores álbuns lançados em 2013, ainda que fosse um lançamento tardio (o álbum foi lançado em 21 de dezembro). Particularmente creio que isso seja um exagero. É fato que o Evertale apesenta uma estréia muito acima do que se espera de uma banda iniciante e seu power metal traz elementos que o diferenciam da grande maioria de seus pares. No entanto, dizer que a banda pode ser colocada no mesmo patamar dos grandes do gênero é, na minha humilde opinião, colocar o carro na frente dos bois. Uma estréia acima da média não é, em si, suficiente para colocar uma banda no mesmo nível daquelas que lançam álbuns consistentes um atrás do outro em carreiras que duram décadas.

No fim das contas, “Of Dragons and Elves” vale muito a pena de ser ouvido pelos fãs do gênero pela sua excelência e o Evertale é aquele tipo de banda que, inicialmente, é interessante de se prestar atenção. Se essa excelência e todo o oba-oba em cima da banda se justificarão isso só o tempo vai dizer.

Epica – Retrospect

Banda comemora 10 anos de existência em grande estilo

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Com dez anos de estrada, cinco álbuns de estúdio e dois ao vivo na bagagem e consagrada como um dos maiores nomes do dito metal sinfônico (aquele subgênero de heavy metal que combina elementos de música clássica com o peso do metal) da atualidade, os holandeses do Epica resolveram celebrar a data em grande estilo em uma apresentação em Eindhoven, Holanda. O show, recheado de elementos grandiosos e convidados especiais, foi registrado em DVD duplo e CD triplo que chegaram recentemente ao mercado tupiniquim. E de cara já se pode afirmar que é um dos melhores trabalhos do gênero já registrados.

Uma das características do metal sinfônico, como dito acima, é a mescla de música clássica e elementos operísticos com guitarras distorcidas, vocais guturais e o pedal duplo da bateria, fatores tão queridos dos fãs do heavy metal. Desde o começo de sua carreira, o Epica se utilizou desses elementos, mesmo que não pudesse contar com uma orquestra inteira em estúdio. A primeira experiência da banda se apresentando com uma orquestra de verdade se deu em um show no famoso festival de Miskolc (Hungria), que rendeu o álbum “Classical Conspiracy”. Para esse “Retrospect” a banda não poupou despesas e trouxe ao palco a Extended Remenyi Ede Chamber Orchestra e o Choir of Miskolc National Theatre. Orquestra, coral e banda se mostraram tão entrosados que há a impressão de que sempre foram uma entidade só. Méritos não só para todos os envolvidos como também para o tecladista do Epica, Coen Janseen, responsável pela direção musical de todo o espetáculo.

Falando do show em si, ao longo de suas três horas Epica e orquestra e coral se esforçaram bastante para entregar uma performance impecável ao público presente e o fizeram com maestria. A apresentação começa com “Introspect”, música composta especialmente para a ocasião por Coen e executada somente por orquestra e coral. Quando a banda entra no palco, liderada pela vocalista Simone Simons e acompanhada dos guitarristas/vocalistas Mark Jansen e Isaac Delahaye, do baixista Rob van der Loo e do baterista Ariën van Weesenbeek, além do supracitado Coen, o jogo já está ganho e o que se vê é um desfile por toda a sua discografia.

Em um show de aproximadamente três horas há muito o que se cobrir, então, para que esse texto não se torne excessivamente elogioso e um tanto quanto longo além da conta, vou me restringir a alguns dos destaques do mesmo e dividi-los entre os aspectos musicais e técnicos da apresentação.

Um dos primeiros destaques de “Retrospect” aparece em “Chasing the Dragon”, na qual um par de acrobatas surge no palco, subindo e descendo ao longo de duas longas peças de tecido que estão presas no alto do palco e sincronizam seus movimentos com as variações da música, que começa como uma balada leve antes de descambar para um quase thrash metal de respeito, com os grunhidos de Mark dominando-a. Logo a seguir vemos um duelo muito legal de violino e guitarra quando um dos violinistas da orquestra se posiciona a frente do palco e se “digladia” com Isaac na versão do Epica para “Presto” de Vivaldi; não se passa muito e a primeira presença especial da noite aparece no palco, na figura da vocalista Floor Jansen (atualmente no Nightwish). Floor trabalhou com Mark no After Forever, banda hoje extinta, da qual ele saiu devido às famosas “diferenças criativas” para fundar o Epica. Floor e Simone dividem as vozes em “Stabrat Matter Dolorosa” do compositor clássico italiano Giovanni Battista Pergolesi. Floor voltaria à cena para dividir os vocais com Simone novamente mais à frente na apresentação em “Sancta Terra”.

Diferentemente de shows como o “S&M” do Metallica, onde a orquestra é apenas coadjuvante, aqui ela assume o papel principal em diversos momentos, como no segmento da apresentação intitulado simplesmente “Orchestral Medley”, no qual trechos das músicas “Feint”, “Fools of Damnation”, “Mother of Light”, “Kingdom of Heaven”, “Run for a Fall” e “Deep Water Horizon” adquirem uma roupagem clássica; “Retrospect”, faixa que dá nome ao lançamento é apresentada pela primeira vez aqui e, segundo Simone, fora composta especialmente para a ocasião; a orquestra voltaria a ficar no foco das atenções quando a banda se retira do palco para a execução de “Battle of Heroes”, mas volta quando o ritmo muda e todos se juntam para o clássico de John Williams “Imperial March” (ou “Darth Vader’s theme”, como queira).

“Quietus”, música do segundo álbum do Epica, “Consign to Oblivion”, traz mais surpresas, na medida em que Isaac, Rob e Ariën são substituídos, respectivamente por Ad Sluijter, Yves Huts e Jeroen Simons, membros fundadores do Epica e que saíram da banda em momentos diferentes de sua trajetória, mas, aparentemente, ainda mantém boas relações com os demais. “The Phantom Agony”, música que dá nome ao primeiro álbum do Epica fecha a primeira parte do show, dividindo opiniões, já que a banda optou por um arranjo quase “Techno” para seu refrão.

A segunda parte da apresentação começa com “Cry for the Moon”, outra faixa retirada do primeiro álbum da banda e termina com “Consign to Oblivion”, uma das mais pesadas músicas do Epica em uma apresentação, como dita acima, irrepreensível. É bem legal ver uma banda como o Epica se preocupar em usar realmente de todos os recursos a seu dispor e tratar orquestra e coral não como meros coadjuvantes contratados, mas quase como se fizessem parte do grupo e isso acaba contribuindo para que tudo funcione de maneira bastante harmoniosa.

Tecnicamente, a produção do material também ficou impecável. A produção é bem limpa e consegue-se ouvir claramente tanto os elementos da orquestra e coral quanto da banda nitidamente. Os efeitos pirotécnicos funcionam bem e, se há uma crítica a ser feita, é o fato da iluminação de palco causar uma certa estranheza em um primeiro momento. Parece que o Épica quis levar uma iluminação mais adequada a um estádio para um lugar fechado e há momentos em que a iluminação prejudica a visibilidade. Esse incômodo, no entanto, passa rapidamente.

Finalmente, além da apresentação acima explorada, o DVD de “Retrospect” traz como material de bônus cenas de bastidores do show e uma série de entrevistas com membros presentes e passados da banda discorrendo sobre suas trajetórias dentro e fora dela. Infelizmente, apesar de ter feito um trabalho excelente na embalagem do produto, a Hellion Records, responsável por distribuir o material em terras tupiniquins não se preocupou em providenciar legendas em português para esses bônus, o que deve frustrar aqueles que não são fluentes em inglês.

Independente disso, “Retrospect” é um excelente registro e é indispensável para os fãs do Epica. E também funciona muito bem como material de iniciação pra quem não conhece bem o trabalho da banda.