Mês: Dezembro 2013

Balanço de 2013

Melhores do ano de acordo com a equipe do blog

Pra fechar o ano, um post curtinho sobre o que houve de melhor no ano de 2013 no mundinho do metal. Como o blog (ainda) não recebe material de divulgação, ou seja, só é analisado o que é garimpado na internet e nas lojas de música, somando-se ao fato de o mesmo ter sido retomado apenas em outubro, será uma lista bem curta e livre da sessão “decepções”… Bom, mais ou menos. Sem mais delongas, vamos lá.

Destaques do ano – álbuns (em nenhuma ordem particular)

Iced Earth – “Live in Ancient Kourion”: Apesar das diversas mudanças em sua formação desde sua fundação no final dos anos 1980, o Iced Earth costuma lançar álbuns bastante consistentes. Esse “Live in Ancient Kourion” não foge à tradição. Gravado durante a turnê de divulgação do álbum “Dystopia”, de 2011, o álbum duplo – que também foi lançado em DVD – é o primeiro lançamento ao vivo do vocalista Stu Block e, apesar de focado em “Dystopia”, faz um belo apanhado da carreira da banda. Em uma primeira audição, causa estranheza escutar a voz de Stu dar vida a clássicos da banda gravados originalmente por Matt Barlow, como “The Hunter” e “Dante’s Inferno”.  No entanto, basta uma segunda ouvida no álbum pra comprovar que ele foi mesmo a escolha certa para a posição. No geral, mais um grande álbum do Iced Earth.

Steven Wilson – “The Raven that Refused to Sing (and other Stories)”: A mente por trás do Porcupine Tree deixou sua banda principal de lado para se dedicar à carreira solo em 2013 e esse “The Raven that Refused to Sing (and other Stories)” é o resultado disso. Lançado no comecinho do ano, o álbum é mais uma prova da genialidade de Wilson – que se divide entre sua carreira solo, o Porcupine Tree e o Blackfield, conseguindo ser competente em todos eles –  que consegue navegar dentro do pop e do rock progressivo com uma sensibilidade reservada a poucos. Vale dar uma conferida.

James LaBrie – “Impermanent Ressonance”: Considerado o “patinho feio” do Dream Theater, o vocalista James LaBrie tem mostrado que a história não é bem assim. Depois de lançar um dos melhores álbuns de 2010 (“Static Impulse”), James e seu principal parceiro de crime fora do Dream Theater, o tecladista Matt Guillory, voltaram à ativa com “Impermanent Ressonance”, um álbum que mostra uma outra face de LaBrie, aqui apresentando composições muito mais agressivas do que aquelas às quais ele está acostumado em sua banda principal. Entre composições mais pesadas e as indefectíveis baladas, “Impermanent Ressonance” tem um resultado bastante positivo no geral.

Black Sabbath – “13”: Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler reunidos depois de 30 anos, agora acompanhados do baterista Tommy Clufetos. Não tinha como dar errado e o Black Sabbath entra fácil em qualquer lista dos melhores do ano de 2013.

The Winery Dogs – “The Winery Dogs”: Formado pelo vocalista/guitarrista Richie Kotzen (ex-Poison, ex-Mr. Big), o baixista Billy Sheehan (Mr. Big) e o baterista Mike Portnoy (Transatlantic, Flying Colors, ex-Dream Theater, ex-Adrenaline Mob, ex-Avenged Sevenfold), The Winery Dogs tinha tudo pra dar errado, haja o tamanho dos egos de seus componentes. No entanto, a exemplo do Chickenfoot, a coisa toda deu muito certo e o álbum de estréia da banda é algo quase que indispensável pra quem gosta do bom e velho rock and roll. Praticando a teoria do “menos é mais”, o trio dá uma pisada no freio no virtuosismo característico de cada um para usar suas habilidades tanto técnicas quanto rítmicas para criar treze músicas cujo nível fica sempre lá em cima. Um prato cheio para fãs do rock dos anos 1970/1980.

Hellish War – “Keep it Hellish”: Mais um grande álbum na carreira dessa banda de São Paulo que tem tudo pra se tornar um dos maiores nomes do heavy metal nacional nos próximos anos.

Sepultura – “The Mediator Between Head and Hand Must Be the Heart”: Apesar de mais uma mudança em sua formação (sai Jean Dolabella, entra Eloy Casagrande), o Sepultura de Andreas Kisser, Paulo Jr. E Derrick Green mostra que, apesar das eternas viúvas de Max Cavalera, sua banda ainda consegue ser uma das mais relevantes no cenário do thrash metal mundial e lança seu melhor álbum em bastante tempo.

Uganga – “Eurocaos ao vivo”: O registro da primeira turnê dos mineiros do Uganga na Europa mostra que bandas brasileiras que cantam em seu idioma natal também conseguem espaço em festivais fora das terras tupiniquins. Bem produzido e com algumas surpresas, o álbum é um belo cartão de visitas para aqueles que, como eu, também não conheciam o trabalho dos caras.  

Amon Amarh – “Deceiver of the Gods”: Novo álbum dos Vikings favoritos da casa. Já basta pra entrar na lista de melhores do ano. 🙂

Decepção do ano

Big Noize

Tinha tudo pra dar certo. Sebastian Bach (vocal, ex-Skid Row), George Lynch (guitarra, Dokken), Phil Soussan (baixo, ex-Ozzy Osbourne) e Vinny Appice (ex-Black Sabbath, ex-Heaven and Hell) em turnê tocando músicas de suas antigas bandas. No entanto, a química não funcionou e o show da banda foi a grande decepção do ano. Escutar Sebastian Bach se esgoelando em “Heaven & Hell” em trechos onde Dio quase sussurrava foi terrível. Nem mesmo nas próprias músicas do Skid Row a coisa funcionou já que a falta de uma segunda guitarra foi bastante sentida. No geral, uma experiência abaixo da expectativa e que não valeu a grana gasta no ingresso.  

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Quem sabe da próxima vez dá certo, caras.

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Majesty – Banners High

Metal na melhor tradição alemã

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Alguém dá uma camisa pra ele, faz favor?

Surgido na Alemanha no final da década de 1990, o Majesty é daquelas bandas que não se furta em beber da mesma fonte de diversos de seus compatriotas e investe em um metal puramente calcado na sonoridade dos anos 1980, com guitarras pesadas e virtuosas, bateria marcante, teclado presente, (ainda que muito discreto), refrões grudentos e melodias cativantes. Seguindo outra tradição tipicamente alemã, a banda opta por enveredar pelos caminhos do chamado power metal, ou seja, dragões, batalhas campais, luta contra um rei opressor, histórias de cavalaria, magos e feiticeiras abundam em suas letras. Ou seja, tudo aquilo que fãs de Tolkien e/ou jogadores de RPG apreciam.

Atualmente formada por Tarek Maghary (vocais, teclados), Tristan Visser (guitarra), Freddy Schartl (baixo) e Jan Raddatz (bateria), o Majesty tem uma história relativamente interessante. Depois de chamar a atenção do cenário com o bom “Keep It True” (um álbum que você poderia pensar seriamente que se trata de obra do Manowar graças ao seu título), e lançar os consistentes “Sword & Sorcery” (2002), “Reign In Glory” (2003), o ao vivo “Metal Law” (2004) e Hellforces (2006), por algum motivo qualquer os caras anunciaram o fim da banda. Detalhe: os membros continuariam tocando e excursionando juntos, só que deixariam de usar o nome “Majesty” e passariam a ser conhecidos por um nome muito mais fodão. Surgiria, então, o Metalforce que lançaria seu álbum de estréia, auto-intitulado, em 2009. Dois anos depois e com apenas um álbum auto-intitulado em seu catálogo, no entanto, o Metalforce voltaria a ser Majesty e soltaria seu “álbum de retorno”, “Own the Crown”.

Pra compensar o tempo perdido, eis que 2013 o Majesty retorna com dois álbuns. “Thunder Rider” lançado em janeiro e esse “Banners High”, lançado há exatamente uma semana.

Depois de tudo o que foi dito acima, não há muito a se acrescentar. “Banners High” traz tudo aquilo que agrega valor (pra usar uma expressão em moda no Brasil de hoje) ao power metal: refrões grudentos, corais grandiosos, peso, velocidade… Tem até a baladinha indefectível, aqui representada por “Take Me Home”, que aparece em duas versões, sendo uma delas acústica e incluída como material bônus. Outros destaques do álbum vão para as grudentas “Time for Revolution” e “All We Want, All We Need” e “United by Freedom” com suas ambições épicas.

Em resumo, “Banners High” é mais do mesmo. Um álbum de uma banda que não quer saber de inventar moda nem reinventar um estilo musical, apenas se divertir fazendo música para um público que, por incrível que pareça, sempre se renova, talvez justamente por se sentir confortável sabendo o que esperar do trabalho de determinadas bandas ou artistas. O Majesty não dá nenhum passo fora de sua zona de conforto e entrega aos fãs exatamente o que se espera deles em seu sétimo álbum. Para quem os conhece e aprecia seu trabalho, nenhuma novidade; para quem não é iniciado, “Banners High” não deixa de ser um bom começo… Assim como qualquer outro álbum dos caras. Sério.

Black Sabbath – Live… Gathered in Their Masses

Registro ao vivo mostra banda em forma. Nenhuma novidade nisso.

ImagemAparentemente, depois de mais de três décadas de discussões e retornos ensaiados, mas não exatamente concretizados – fora uma turnê caça-níqueis aqui e ali – três quartos do Black Sabbath se reuniram para mostrar aos fãs e – principalmente – aos seus detratores que não se conquista uma carreira tão longeva à toa. Obviamente que esse retorno não deixa de causar polêmica já que, como mencionado acima, apenas três dos quatro membros originais se dispuseram a retornar aos palcos. O baterista Bill Ward foi deixado de fora do acordo que reuniu Ozzy Osbourne (vocal), Tony Iommi (guitarra) e Geezer Butler (baixo) por motivos que variam de discordâncias financeiras à seu estado de saúde, dependendo da fonte à qual você dê crédito.

Independentemente da ausência de Bill (e com o competente Tommy Clufettos em seu lugar), o Black Sabbath quase original soltou um dos melhores álbuns do ano, “13” no mercado no começo de 2013 e logo embarcou em uma longa turnê. Um desses shows, inclusive, marcou a volta do blog, como você pode ler aqui. Como hoje em dia há uma grande facilidade em se gravar performances ao vivo com bastante qualidade sem que seja necessário gastar muito tempo na pós-produção, não demorou muito para que os velhinhos aproveitassem-se desse recurso e liberassem esse “Live… Gathered in Their Masses”, título que faz referência à primeira estrofe de “War Pigs” em CD, DVD e Blu-Ray.

Gravado durante a passagem da banda pela Austrália nos dias 29 de abril e 01 de maio de 2013, o registro traz quinze faixas – descontando aqui a introdução e os créditos finais, no caso do DVD – e há uma mudança salutar no que diz respeito ao setlist apresentado nos shows realizados na América do Sul no segundo semestre. “Loner”, “Methademic”, “Symptom of the Universe”, “Children of the Grave” e “End of the Beginning” são apresentadas aqui, enquanto que “Under the Sun/Every Day Comes and Goes”, “Age of Reason”, “Rat Salad”e “Dirty Women” foram deixadas de fora. Já o longo solo de bateria de Tommy aqui aparece inserido em “Symptom of the Universe”… Ou melhor explicando, a banda toca a introdução dessa faixa e sai para os bastidores, deixando Clufetos sozinho no palco para ter seu momento sob as luzes da ribalta.

“Live… Gathered in Their Masses” traz, obviamente, os grandes clássicos da fase Ozzy Osbourne na banda, tais quais “Iron Man”, “Black Sabbath”, “War Pigs” e, claro, “Paranoid” e é uma excelente oportunidade para aqueles que não puderam comparecer a algum dos shows da turnê de “13” conferirem o desempenho do Black Sabbath ao vivo.

A única crítica para “Live… Gathered in Their Masses” é que a gravadora optou por lançar o material em CD simples ao invés do duplo que seria recomendável e a bolachinha acaba trazendo apenas 10 das 15 faixas presentes no DVD. Isso causa estranheza especialmente se levarmos em conta que a edição especial dupla de “13” traz, em seu segundo disco, apenas três faixas, sendo que o total de 11 músicas desse álbum caberia tranquilamente em um cd simples. Já a versão em Blu-ray tem todo o conteúdo do DVD e, como bônus, três músicas (“Under The Sun”, “Dirty Women” e “Electric Funeral”) além de uma entrevista e imagens de bastidores.

Jordan Rudess – All That Is Now

Tecladista em trabalho bastante intimista

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Mais conhecido por sua carreira ao lado do Dream Theater, que se tornou sua banda principal nos últimos 14 anos e onde, desde a saída do baterista Mike Portnoy, assumiu com mais proeminência o papel de compositor (ao lado do guitarrista John Petrucci), o tecladista Jordan Rudess tem o hábito de, de tempos em tempos, sair um pouco da casinha e se aventurar por discos solo. “All That Is Now”, seu décimo terceiro trabalho foi lançado recentemente e deve ser seu álbum mais intimista até o momento.

Acostumado a trabalhar com uma série de teclados e pianos diferentes e amante dos efeitos sonoros que pedais e afins podem trazer para enriquecer (ou distorcer, dependendo do ponto de vista) a sonoridade dos supracitados instrumentos, em “All That Is Now” Rudess dispensa tudo isso. Sabem aquelas produções extensas e complicadas dos trabalhos do Dream Theater? Também esqueça. Em seu novo trabalho Jordan preferiu ir por um caminho mais intimista e despido de tudo isso. O que se tem aqui é um músico, um piano e só.

 “All That Is Now” foi gravado na sala de piano de Jordan e, como dito acima, contou com uma produção bastante espartana: um piano Steinway e microfones Earthworks. Para poder financiar o álbum, Rudess lançou uma campanha no site PledgeMusic, projeto de crowdfunding onde fãs colaboram para que artistas possam obter os recursos para lançar seus trabalhos em troca de recompensas que, no caso de “All That Is Now” incluíam até mesmo aulas de piano com o músico e passes para camarins na futura turnê do Dream Theater. A campanha deu tão certo que financiou não apenas esse álbum, mas, também um trabalho orquestrado que Jordan pretende lançar no próximo ano.

Não há muito o que se dizer de “All That Is Now”, além do fato de ser um trabalho muito bom de Rudess e que mostra o lado mais sensível do músico. São treze faixas totalizando cinquenta minutos de música suave e sentimental, ideais para deixar rolando no seu aparelho de som depois de um longo dia de trabalho onde não se quer mais nada além de sentar e relaxar.

Com um lançamento exclusivamente digital, as faixas individuais de “All That Is Now” podem ser encontradas em lojas virtuais como a CD Baby e o iTunes ao preço padrão de US$ 0,99 cada. Vale a pena dar uma conferida. 

Tracklist: 1. Flash of Hope; 2. Pacific Waves; 3. Spectral Haze; 4. A Last Goodbye; 5. State of Being; 6. Flying into Blue; 7. A Thousand Years; 8. Uncovered; 9. The Telling; 10. Altitude High; 11. The Untouchable Truth; 12. Looking Beyond; 13. Eye Wonder.

Steve Vai – Belo Horizonte

Guitarrista faz grande show na capital mineira

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No último dia 09 de dezembro, a capital mineira recebeu mais um grande show para os admiradores do bom e velho – mas ainda em forma 🙂 – rock and roll. Steve Vai, um dos mais talentosos guitarristas de sua geração, desembarcou em Belo Horizonte para mais um show de divulgação de seu último álbum, “Story of Light”. E o que se viu no Chevrolet Hall foi exatamente isso: não apenas um concerto de música, mas um tremendo show, que mudou a imagem que muitos – inclusive eu – tinham do guitarrista. Afinal, Vai é conhecido por sua técnica apurada e virtuosismo que muitos consideram exagerado. Já seu carisma, humildade e domínio de público, isso só estando em um show do cara pra ver.

Marcado para as 21:30 h, o show começou exatamente no horário, com Vai e sua trupe (formada pelo guitarrista Dave Weiner, o baixista Phill Bynoe e o baterista Jeremy Colson) adentrou o palco sob uma cortina de fumaça de gelo seco já detonando “Racing the World”, emendada por “Velorum”, ambas de seu novo álbum. Ao final das duas, já se percebe que Vai não é daquelas estrelas que chegam, tocam, tocam, tocam e vão embora. Nada. Steve se mostrou um verdadeiro showman durante toda sua apresentação e a primeira amostra disso se deu aqui, quando ele se dirigiu ao público pela primeira vez na noite. Além de cumprimentar a todos, ele tentou dançar no palco ao som da bateria de Colson, que fazia algo que parecia samba. Só parecia. “Toda vez que venho ao Brasil, quero dançar. Devem ser essas calças”, disse, apontando para as calças cuja estampa lembrava uma camisa havaiana. Ainda nessa toada, pediu a câmera de um fotógrafo emprestada, alegando que iria ensiná-lo como se bater uma foto. Tirou duas fotos de costas para o público e uma de sua virilha antes de devolvê-la ao profissional dizendo: “Quero ver como vai explicar à sua namorada essa foto”. E em falsete: “porque diabos você tirou uma foto das bolas de Steve Vai?”, levando o público às gargalhadas… Pelo menos aquela parte do público que entendeu o que ele disse.

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Após a brincadeira, foi a vez da parte musical do show recomeçar com três pauladas em sequência: “Building the Church”, “Tender Surrender” e “Gravity Storm”, antes que Steve, Bynoe e Colson abandonassem o palco e deixassem o guitarrista Weiner sozinho. Com um violão, Weiner entreteu o público com “The Trillium’s Launch”, música própria presente em seu álbum solo “A Collection of Short Stories: Vol. 1”, que o chefe fez questão de divulgar e elogiar. Com o trio de volta, o show continuou com a emotiva “Weeping China Doll”, seguida pelas agitadas “Answers” e “The Animal”, a balada “Whispering a Prayer” e “The Audience Is Listening”, essa última uma das mais conhecidas músicas de Vai.

Partiu-se então para parte acústica do show. Aqui, enquanto Vai se preparava, foi a vez de Phill Bynoe ficar sob os holofotes e demonstrar em um curto solo de baixo o porque de estar dando suporte novamente à Vai. Inicialmente sozinho no palco, Vai mandou a dupla “The Moon and I / Rescue Me or Bury Me”, únicas músicas cantadas de todo o show. A parte acústica seguiu com “Sisters”, “Salamanders in the Sun” e “Treasure Island”. Ao fim dessa, Vai propõe tocar algo mais rápido, começa a canção e para. “Cadê o baterista?”, pergunta. “Nunca confie em um baterista”, ele diz apenas para ver Colson retornando ao palco com um instrumento formado por bongôs, panelas, cones de trânsito e etc, alegando que havia catado aquilo tudo em um lixo atrás do ginásio e mostraria que conseguia tocar aquilo (tudo encenado, é verdade, mas não deixa de ser engraçado). O show segue com “Pusa Road”, onde Jeremy continua com seu show particular, batucando no chão do palco rodeando o banco onde Vai tocava e com direito a uma batidinha na cabeça do chefe. Novamente Vai deixa o palco, seguido de Jeremy e Dave e Jeremy domina a cena, primeiro solando em sua bateria improvisada e depois em seu instrumento propriamente dito.

ImagemO terceiro e último ato começa com um Steve Vai entrando no palco novamente sob uma nuvem de gelo seco e vestido em um traje com diversas lâmpadas de led, incluindo um capacete medieval-futurista, tocando “The Ultra Zone”. “Frank” viria a seguir, depois do guitarrista novamente se dirigir ao público dizendo que tocariam por “apenas mais quatro horas”. Daí outro grande momento da noite, quando ele escolhe duas pessoas da platéia – acabam sendo três, já que Vai chama a namorada de um dos sortudos para se juntar a eles – e diz que o trio os ajudará a escrever uma música ali, naquele momento. Ele pede que os convidados simulem bateria, baixo e guitarra vocalmente e a banda tentaria reproduzir aqueles sons. Nesse meio tempo, ele faz piadas com o significado do próprio sobrenome em português e brinca com banda, público e o trio de sortudos. Ao fim do “processo de composição”, a banda emenda “Build Me a Song”, com os dois rapazes e a garota da platéia convidados a assistir o resto do show do palco.

ImagemO último grande momento de uma noite recheada deles viria a seguir, quando “For the Love of God”, talvez a música mais conhecida e venerada da carreira de Vai é tocada de maneira soberba. Ao fim dela a banda sai do palco, apenas para voltar minutos depois e encerrar uma apresentação de quase três horas de duração com “Taurus Bulba”.

O que mais surpreende em Steve Vai é, como dito no primeiro parágrafo, sua humildade. Músico consagrado, ele teria todos os motivos para se comportar como diversos dos ditos rockstars que vemos por aí a todo o tempo e que têm um legado musical bem menor do que o dele. No entanto, o que se vê em cima do palco é uma pessoa generosa, já que, mesmo sabendo ser a estrela principal e o motivo do público estar ali, faz questão de deixar todos os demais integrantes de sua banda brilhar e valoriza bastante a presença daqueles que ali comparecendo fazendo, em suas próprias palavras “o melhor show que pudermos”.

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Nightwish – Showtime, Storytime

Primeiro registro ao vivo de outra “nova era” para a banda finlandesa.

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Criada pelo tecladista Tuomas Holopainen na Finlândia na segunda metade da década de 1990, o Nightwish alcançou uma certa notoriedade fora do chamado “mundinho do metal” em 2004, quando o single “Nemo”, faixa de seu quinto álbum, “Once”, chegou a ser tocada em rádios, impulsionada pelo sucesso que o Evanescence (alguém ainda se lembra deles?) fazia então. Desde então, a banda passou por pelo menos duas mudanças significativas, perdendo primeiro a vocalista Tarja Turunen em uma separação bastante ruidosa e, sete anos depois, dando adeus à sua substituta, Anette Olzon, em outro divórcio relativamente tumultuado. A demissão de Anette se deu no meio da turnê de divulgação do último álbum da banda, “Imaginaerum”, quando ela passava pelos EUA e a holandesa Floor Jansen (ex-After Forever, atual ReVamp) fora chamada com a tarefa de substituí-la em caráter provisório. 

A escolha, no entanto, deu bastante certo e, depois de enrolar bastante, Tuomas – que, além de tecladista é o principal compositor, letrista e, em termos práticos, dono do Nightwish – anunciou que Floor ficaria com a banda permanentemente. Assim sendo, da mesma forma que a despedida de Tarja Turunen fora marcada com o lançamento do DVD “End of an Era”, a efetivação da nova vocalista recebe o mesmo tratamento com a chegada ao mercado desse “Showtime, Storytime”.

“Showtime, Storytime” foi gravado no dia 3 de agosto desse ano, durante a apresentação que a banda fez no Wacken Open Air, considerado por muitos – inclusive esse humilde escriba – o mais importante festival de música pesada do mundo. Geralmente, ainda que não seja uma regra, quando grupos são convidados para tocar em um festival do tamanho do Wacken, costumam alterar um pouco seu setlist para que o maior número possível de seus clássicos – ou músicas mais conhecidas, como queira – possa ser executado. No caso específico aqui, o Nighrtwish optou por um setlist mais focado em seus últimos trabalhos, já que o show marcaria o encerramento da turnê de divulgação de “Imaginaerum”.  Assim sendo, muitas músicas quase que obrigatórias acabaram sendo deixadas de fora.

Não que o setlist escolhido por Tuomas e Cia (a saber, o guitarrista Emppu Vuorinen, o baterista Jukka Nevalainen e o baixista/vocalista Marco Hietala) seja ruim. Estão lá músicas conhecidas como “Everdream”, “She is My Sin” e “Wish I Had an Angel”, além de “Nemo”. A longa “Ghost Love Score” e a pesada “Romanticide” também dão as caras, enquanto que outras favoritas dos fãs como “Wishmaster”, “Over the Hills and Far Away” e “Slaying the Dreamer” foram deixadas de lado. Por outro lado, “Bless the Child”, que há anos não figurava nos setlists da banda, voltou à cena. No fim das contas, as coisas meio que se balancearam.

O principal motivo desse lançamento, no entanto, era mostrar aos fãs o porquê da decisão de manter Floor Jansen na banda, mesmo que ela tenha que se dividir entre o Nightwish e o ReVamp. E, ao longo do show percebe-se que a “giganta” (1,84 de altura) foi mesmo uma escolha acertada, já que não só possui uma grande presença de palco – também, com esse tamanho todo! – como tem um timbre vocal mais próximo ao de Tarja Turunen, que vem de uma escola de música clássica, do que de Anette Olzon, que possui um timbre vocal mais “rock and roll”, por assim dizer. Dessa forma, ela se dá melhor do que Anette quando se aventura pelo material gravado por Tarja e que responde por 8 das 15 músicas tocadas aqui. O fato de ela e o baixista Hietala também terem mostrado uma boa sincronia – já que ele também atua como vocalista, muitas vezes realizando duetos com a voz feminina principal – é outro ponto positivo para a escolhida.

No fim das contas, “Showtime, Storytime” é um produto interessante, mas serve mais para os fãs de longa data e para aqueles que deixaram de acompanhar o Nightwish desde a saída de Tarja e querem saber o que anda acontecendo com a banda ou ficaram curiosos com a entrada de Floor no grupo. E, claro, para dar uma ideia de como o material de Tuomas será moldado para encaixar nesse novo timbre vocal. Mas isso só será conhecido lá para 2015, quando o Nightwish deve lançar seu novo álbum de estúdio.

Hugh Laurie – Live on the Queen Mary

Ator faz transição decente para a música.

ImagemSempre que escuto que um(a) ator/atriz decidiu seguir a carreira musical, ou que um(a) cantor(a) resolveu que tem talento para atuar, torço o nariz. O fato é que, com raras exceções, em ambos os casos o resultado obtido na segunda carreira costuma ser, no máximo, medíocre. Madonna, Jennifer Lopez e 50 Cent estão aí pra não me deixar mentir. Atores/atrizes e cantores(as) resolvendo cantar ou atuar pra mim parece, muitas vezes, apenas uma tentativa de ter seus já massageados egos ainda mais inflados.

Assim sendo, quando Hugh Laurie – por oito anos protagonista de “House” – anunciou que investiria na carreira musical, meu sentimento de “isso vai dar merda” foi instintivo. No entanto, movido por uma curiosidade mórbida, resolvi dar uma chance a “Let Them Talk”, álbum de estréia de Laurie. E me surpreendi com o resultado. Ao contrário de muitos de seus pares, Laurie é um pianista e guitarrista competente e resolveu investir em releituras de jazz e blues, acompanhado por uma excelente banda de apoio, a Copper Bottom Band. A “Let Them Talk” se seguiu “Didn’t It Rain”, lançado esse ano e, a seguir, o primeiro DVD da nova carreira de Laurie, “Live on the Queen Mary”.

Lembrem-se o que eu disse acima sobre atores fazendo a transição para música como uma forma de obter mais uma massagem em seus egos? Esqueça isso aqui, porque Laurie sabe bem de suas qualidades e pontos fracos e, muitas vezes, permanece em segundo plano para que os demais membros da banda – que incluem as cantoras ‘Sista’ Jean McClain e Gabby Moreno – tenham seu lugar sob os holofotes e eles o fazem muito bem. Claro que o carisma de Laurie contribuí – e muito – para a apresentação ser um verdadeiro show, já que ele sabe bastante bem como entreter uma platéia, contando anedotas entre uma música e outra e não se furtando a fazer papel de bobo com uma dancinha deveras constrangedora em determinado momento.

Sobre o setlist em si, Hugh e sua Copper Bottom Band, que além de Jean e Gabby conta ainda com Vincent Henry (trompete), Elizabeth Lea (trombone), Herman Matthews (bateria), Kevin Breit (guitarra), e Patrick Warren (teclados), desfilam por clássicos do jazz e do blues norte-americano, fazendo releituras que, se não superam, pelo menos não deixam nada a dever às composições originais. Há até mesmo um tango escondido ali no meio, onde Hugh e Gabby fazem um dueto bem interessante.

No fim das contas, os álbuns de Hugh Laurie, ainda que não tragam composições originais, são muito bem feitos, com produção impecável e uma banda bem competente além de um cantor que, apesar de ter seu nome em caixa alta nas capas dos mesmos, não se refuta em assumir um papel de coadjuvante. E o mais legal disso tudo é que Hugh Laurie e sua banda desembarcam no Brasil em março para apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba. Vale a pena dar uma conferida.

P.S. Eu sei que a grande maioria das resenhas de “Sounds of Asgard” trata de álbuns de rock e metal. No entanto, variar de vez em quando faz bem 🙂