Mês: Novembro 2013

Angra – Angel’s Cry 20th Anniversary Tour

Aos trancos e barrancos, banda completa sua segunda década ativa

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O Angra tem o mérito de ser uma das mais reconhecidas bandas de metal tupiniquim fora do país. Com uma história tão conturbada, é impressionante ver que os caras chegaram ao vigésimo ano de carreira em boa forma e, para comemorar o feito, acabaram de lançar no mercado esse “Angels Cry: 20th Anniversary Tour”, um pacote composto de um DVD e um CD ao vivo, captando o registro de um show na capital paulista. O que será analisado aqui é o conteúdo do CD.

Não é segredo para ninguém que acompanha a cena de perto que o Angra passou por pelo menos dois baques gigantescos nessas duas décadas. O primeiro aconteceu no meio do ano 2000 quando, no auge da popularidade, disputas internas fizeram com que 3/5s da banda – o vocalista André Matos, o baixista Luiz Mariutti e o baterista Ricardo Confessori – simplesmente abandonassem o barco em uma separação bastante ruidosa. Muito se especulou na época que o Angra, cuja imagem estava muito ligada à figura de Matos, estava irremediavelmente acabado. No entanto, os membros remanescentes, a dupla de guitarristas Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro, resolveram que não era bem assim e, depois de um longo processo, selecionaram Edu Falaschi, Felipe Andreoli e Aquiles Priester para ocupar as respectivas vagas em aberto.

Com uma nova formação, o Angra iniciou a década passada mostrando que estava vivo lançando um álbum consistente atrás do outro. Os pontos fora da curva acabam sendo o excelente “Temple of Shadows” de 2004 e o esquecível “Aurora Consurgens”, de 2006. Tudo parecia correr bem após o lançamento de “Aqua”, de 2010. Parecia.

Pouco depois do lançamento do álbum, Aquiles Priester resolve encerrar sua história na banda de maneira deveras ruidosa. Dessa vez a procura foi menor e o filho pródigo Ricardo Confessori a casa torna. As coisas, no entanto, pioram quando, após uma apresentação desastrosa no Rock in Rio de 2011, o vocalista Edu Falaschi abandona o barco. Com uma agenda cheia e sem muito tempo para selecionar uma nova pessoa para a posição, o Angra resolve improvisar e Rafael e Kiko entram em contato com o vocalista italiano Fábio Lione e oferecem a ele o emprego temporário. Já tendo seu tempo dividido entre o Rhapsody of Fire e o Vision Divine, Fábio aceitou a oferta e passou a excursionar com a banda. O resultado dessa parceria pode ser visto – e ouvido – nesse lançamento.

Apesar de ser um trabalho que comemora o 20º aniversário do lançamento do primeiro álbum, ao contrário do que André Matos vem fazendo em sua turnê, aqui o Angra não toca “Angels Cry” na íntegra e prefere fazer um apanhado de toda a sua carreira. O resultado não poderia ser melhor. Clássicos como “Nothing to Say”, “Carry on”, “Angels Cry” e “Rebirth” marcam presença e são alguns dos pontos altos do álbum, assim como “Reaching Horizons”, faixa acústica que é cantada por Rafael e executada apenas por ele e Kiko.

No quesito participações especiais, o Angra foi certeiro na lista de convidados: a vocalista Tarja Turunen (ex-Nightwish) dá a voz – e que voz! – da graça em “Stand Away”, na qual executa um belo dueto com Lione e em Wuthering Heights, cover de Kate Bush no qual tem a companhia ilustre ex-guitarrista dos Scorpions, Uli Jon Roth e da Família Lima. A última participação fica por conta do baterista Amílcar Christófaro, do Torture Squad, em “Evil Warning”. Essa, no entanto, ficou de fora do cd.

O ponto negativo do lançamento é justamente o fato de áudio e vídeo terem materiais diferentes. Enquanto o CD conta com 15 faixas, o DVD traz as 19 músicas que representam a totalidade do show. Mesmo com ambos sendo comercializados no mesmo pacote, talvez um lançamento contendo o DVD mais CD duplo com a íntegra do espetáculo fosse algo mais interessante, a exemplo do que fez o Edguy com seu “Fucking with Fire”, álbum ao vivo também gravado em São Paulo em 2006 e lançado em 2009, o qual trazia DVD simples e CD duplo no mesmo produto.   

De qualquer forma, esse é apenas um detalhe, já que “Angels Cry: 20th Anniversary Tour” é um excelente apanhado das duas décadas de carreira do Angra e mostra que Rafael e Kiko acertaram em cheio ao convidar Fábio Lione para assumir os vocais da banda mesmo que apenas temporariamente (ainda que esse “temporariamente” cada dia mais caminhe para um “permanentemente”). O cara é um monstro e consegue muito bem cantar tanto as músicas da primeira (com André Matos) quanto da segunda (com Edu Falaschi) fase da banda de maneira bastante competente, trazendo até mais qualidade a algumas delas. É bem legal também ver como ele se entrosou rapidamente com os demais integrantes da banda, de forma que a química em cima do palco funciona muito bem. Quem teve a oportunidade de ver algum show dessa turnê do Angra ao vivo sabe bem do que estou falando.

 

 

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Rhapsody of Fire – Dark Wings of Steel

Mais do mesmo no primeiro álbum pós-divórcio

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O Rhapsody of Fire tem uma história interessante e, até certo ponto, relativamente conturbada. A banda foi formada em 1993, na Itália, pelo tecladista Alex Staropoli e o guitarrista Luca Turilli com propósito de fazer um heavy metal fortemente calcado na música clássica, abusando de coros e partes sinfônicas em suas canções. A presença do vocalista Fábio Lione na banda desde praticamente o começo ajudou bem nesse propósito e logo o grupo – sob a alcunha de “Rhapsody” – chamou a atenção do cenário do heavy metal.

Depois de seis álbuns lançados, alguém descobriu que detinha os direitos de propriedade do nome “Rhapsody” e a banda foi obrigada a mudar para a alcunha atual. Sob o nome Rhapsody of Fire, foram mais três trabalhos – descontando os ao vivo. Daí, em 2011 o que parecia improvável aconteceu e Staropoli and Turilli resolveram romper amigavelmente uma parceria de 18 anos. Na época pareceu até aqueles divórcios onde os casais dividem os bens entre si. Digo isso porque enquanto Staropoli ficou com a guarda, por assim dizer, da marca, do vocalista Lione e do baterista Alex Holzwarth, Luca levou consigo o baixista Patrice Guers e o guitarrista Dominique Leurquin. No ano seguinte, Luca recrutou novos vocalista e baterista e lançou “Ascending to Infinity”, sob o nome de Luca Turilli’s Rhapsody. Já Staropoli e sua versão do Rhapsody, agora contando com o guitarrista Roby De Micheli e o baixista Oliver Holzwarth finalmente lança no mercado o que seria o 10º álbum da banda, esse “Dark Wings of Steel”. E, felizmente, seu material, apesar de se manter fiel ao legado da banda, se distancia bastante daquele apresentado por Turilli em seu novo grupo.

Em “Dark Wings of Steel”, o Rhapsody mostra que continua com seu heavy metal sinfônico, ainda que aqui haja algum direcionamento mais linear e direto em algumas músicas, especialmente no que diz respeito à guitarra de De Micheli, menos virtuosa, mas não menos competente, que a de Turilli. O fato de a banda ter retornado às origens, no sentido de ter apenas um guitarrista, contribui para isso. Há ainda o fato de a mixagem do álbum ter priorizado o teclado em muitos momentos, tornando-o às vezes exagerado, sobrepondo-o à guitarra. Isso, no entanto, é um demérito menor.

O fato é que, com uma produção bem limpa e competente, “Dark Wings of Steel” continua a tradição de álbuns épicos que marcaram a carreira da banda – tanto como Rhapsody como quanto “Rhaposody of Fire” – desde seu começo. Isso pode ser percebido logo após a indefectível introdução, “Vis Divina”, quando “Rising from Tragic Flames” já aparece trazendo todos aqueles elementos que os fãs do estilo adoram – coros, rápidos riffs de guitarra e o vocal de Fábio Lione. Destaques individuais do álbum, além da supracitadas são a quase Manowar “Angel of Light”, “Tears of Pain” e a balada “Custode Di Pace”. O álbum, no entanto, é bastante homogêneo e eleger destaques individuais tem o intuito exclusivo de facilitar a vida daqueles que quiserem procurar amostras do mesmo no Youtube ou algum site similar.

No fim das contas, o Rhapsody of Fire, apesar dos desfalques, continua se destacando no cenário ao qual pertence e mostra que mesmo sem um de seus membros fundadores e principal compositor, ainda tem muito o que mostrar. Uma observação final: Impressionante o quanto esse Fábio Lione canta, pelo martelo de Thor. 🙂

Alestorm – Live at the End of the World

Clima de festa no convés marca primeiro álbum ao vivo de banda escocesa

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Um dos subgêneros mais legais do heavy metal é o chamado Folk Metal, já que ele promove uma mistura de ritmos e instrumentos que pouco se vê dentro do cenário do rock. Como o próprio nome diz, esse estilo musical em particular combina as características intrínsecas do heavy metal (guitarras velozes, bateria marcante, etc) com temáticas, instrumentos e sonoridades mais locais, algumas vezes usando-se isso mesmo nas letras das músicas. Bandas como os faroeses do Týr e os finlandeses do Korpiklaani não se furtam em apresentar músicas em sua língua natal em seus trabalhos.

Formado por Christopher Bowes (vocais e teclados), Dani Evans (guitarra), Gareth Murdock (baixo), Elliot Vernon (teclados) e Peter Alcorn (bateria) e originário da Escócia, o Alestorm é uma das boas bandas do gênero e, depois de três álbuns de estúdio – “Captain Morgan’s Revenge” (2008), “Black Sails at Midnight” (2009) e “Back Through Time” (2011) – lança esse “Live at the End of the World”, que consegue captar bem todo o clima de festa em alto-mar que marca as composições da banda. Com letras fortemente influenciadas pelas aventuras de piratas que viajavam pelos mares em busca de tesouros escondidos, rum e butim conseguido ao pilhar navios mercantes, muitos fãs e mesmo críticos colocaram um rótulo distinto no som da banda. Assim sendo, o Alestorm passou a ser a primeira – e, até o momento, única – banda no mundo a praticar o chamado True Scottish Pirate Metal. Entenda isso como quiser.

Um dos aspectos mais legais ao se observar os integrantes do Alestorm ao vivo – “Live at the End of the World” saiu em formato de CD e DVD – é ver que os caras não se levam nem um pouco a sério e estão ali única e exclusivamente para se divertir e isso contagia o público. Outro ponto positivo é que todas as músicas do Alestorm têm um clima bem pra cima e letras bastante divertidas, especialmente aquelas que prestam ode à fama dos piratas de se embebedarem sempre que possível. Músicas como “The Sunk’n Norwegian”, “Nancy The Tavern Wench”, “Wenches & Mead” e “Rum” são alguns dos destaques do álbum que, com 16 faixas, faz um apanhado bem legal do que a banda produziu até agora. Isso já é um atrativo a mais para aqueles que gostariam de conhecer mais o som dos caras.

“Live at the End of the World” foi lançado na Europa no dia 18 de novembro e, até onde sei, ainda não tem previsão de ganhar uma versão nacional. Já a prévia do álbum, com o vídeo para “Wenches & Mead” pode ser vista aqui.

 

 

 

Soulfly – Savages

Max Cavalera deveria falar menos e trabalhar mais.

ImagemHá algumas situações que são praticamente inevitáveis quando se faz uma análise de qualquer trabalho do Soulfly, especialmente pelo fato de seu fundador, letrista, principal compositor, vocalista e guitarrista base Max Cavalera, sempre que possível, mencionar sua ex-banda, o Sepultura, em entrevistas, invariavelmente descendo o sarrafo em qualquer coisa feita por Andreas (Kisser), Paulo Jr. e Cia. Os fatos de ambas as bandas terem lançado álbuns recentemente e estarem na mesma gravadora (a Nuclear Blast) também desperta nas pessoas a necessidade de comparar os trabalhos e deixar sua suposta imparcialidade jornalística de lado ao analisá-los. Esse tipo de posicionamento não me agrada, portanto, não espere que essa resenha sirva para contrapor o novo trabalho do Soulfly com o novo do Sepultura (cuja resenha pode ser lida aqui).

Fato é que, depois do elogiado “Enslaved”, lançado no ano passado, criou-se uma expectativa muito grande ao redor desse novo álbum do Soulfly. E expectativas são sempre perigosas já que, quanto maiores, mais difíceis de serem satisfeitas. E é isso o que acontece com esse “Savages”, que, apesar de ser um trabalho razoável do Soulfly, fica bem aquém de seu predecessor.

Para a gravação de “Savages” Max optou por colocar seu filho Zyon a cargo das baquetas e isso é um dos pontos fracos do álbum. Nada contra o moleque, mas um trabalho do Soulfly mereceria alguém mais tarimbado, como David Kinkade, que tocou no álbum anterior e, logo após da turnê do mesmo, se retirou do cenário musical. Por outro lado, Marc Rizzo mantém o mesmo bom trabalho nas guitarras que vem realizando na banda desde “Prophecy” (2004), enquanto o baixista Tony Campos segura bem a onda na função. Dentre as participações especiais que recheiam o álbum se destaca Mitch Harris, do Napalm Death, na faixa “K.C.S.”.

No geral, “Savages” me parece pouco inspirado e vem com mais do mesmo. Max Cavalera sempre foi um monstro nos vocais dentro do estilo no qual atua e isso é algo que permanece. No entanto, ao contrário de “Enslaved”, esse “Savages” não é um álbum que traga grandes destaques. Há músicas legais, como a abertura “Bloodshed”, “Ayatollah of Rock ‘n’ Rolla” e “El Comegente”, mas isso não mascara o fato de que todo o trabalho pareça ter sido feito às pressas e com muito pouca inspiração.

Talvez se Max se focasse mais em suas composições e menos em falar mal de sua ex-banda a todo o momento, esse álbum fosse melhor do que o produto final que chegou no início de outubro às lojas…

 

 

 

Forty Deuce – Nothing to Lose

Excelente caça-níqueis

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Fazer faxina é algo que, de vez em quando, pode ser interessante. Recentemente eu reloquei alguns de meus CDs e redescobri diversas coisas que não ouvia há anos. Esse “Nothing to Lose” do finado Forty Deuce é uma dessas pérolas há muito deixadas de lado, mas que merecem um comentário ou dois a seu respeito.

O Forty Deuce é quase que uma versão hard rock/AOR das incontáveis bandas pré-fabricadas por gravadoras que infestam o mundo pop, mas as semelhanças param por aí. A banda – ou projeto, com queiram – foi concebida por Serafino Perugino, empresário italiano que, em 1996, fundou a Frontiers Records, selo especializado em rock clássico, AOR (sigla para Adult Oriented Rock) e hard rock. Além de distribuir álbuns de artistas e bandas como Glenn Hughes, Toto, Yes, Journey, Jeff Scott Soto e Whitesnake, dentre outros, de vez em quando Serafino chama alguns músicos os quais empresaria para que eles tentem trabalhar juntos. O Forty Deuce nasceu daí, quando Serafino convidou o vocalista/guitarrista Richie Kotzen (ex-Poison, ex-Mr. Big, atual Winery Dogs) para que ele fizesse algo a ser lançado pela Frontiers. Richie recrutou os desconhecidos Taka (guitarra), Ari (baixo) e Thr3e (bateria) e saiu-se com esse “Nothing to Lose”, um grande álbum, ainda que bastante subestimado, haja vista a falta de sucessores.

De “Oh My God” (primeira faixa do trabalho, descontando a introdução “Intro”), até “Nothing to Lose”, faixa que fecha o álbum, o único trabalho do Forty Deuce até o momento é uma jóia rara. Esqueça quaisquer preconceitos que possa ter com relação a Kotzen pelo fato de ele um dia ter tocado com o Poison. O que ele apresenta em “Nothing to Lose” é um trabalho extremamente forte, com composições fortemente calcadas na guitarra e um vocal que já chegou a ser comparado com o de Dave Coverdale (Whitesnake). As letras também se distanciam do tripé “sexo-drogas-rock and roll” do Poison ou mesmo das baladas mela-cueca do Mr. Big. Em tempo: eu gosto de Mr. Big, mas admito que músicas como “To Be with You” são bem farofeiras. Crédito também para Taka e Ari, que compuseram as 12 faixas do álbum junto com Kozen.

Do começo ao fim, “Nothing to Lose” é um álbum bastante homogêneo, ainda que faixas como “Say”, “Start It Up”, a balada “Wanted” e “Next to Me”, além daquelas citadas no parágrafo anterior possam ser apontadas como destaques individuais. O que ressalta essa homogeneidade, já que são seis destaques em um álbum com doze faixas.

“Nothing to Lose” foi lançado em 2005 no Brasil pela gravadora paulistana Hellion Records. Não sei se ainda está em catálogo, mas, se você é fã de um bom hard rock/AOR calcado na música dos anos 1980, vale a pena dar uma procurada.

Dream Theater – Dream Theater

“Recomeço” promissor.

ImagemSó a capa é que ficou bem sem graça :-p

Em 2010 o Dream Theater perdeu seu principal letrista, compositor, porta-voz, responsável pelos setlists, mente criativa, fundador e baterista Mike Portnoy. Sua saída foi traumática para fãs e banda e os motivos para tal são de conhecimento público.

A saída de Portnoy fez com que muitos fãs declarassem que estava anunciado o fim do Dream Theater, tamanha sua importância para a banda. Rapidamente, o guitarrista John Petrucci e o tecladista Jordan Rudess assumiram as rédeas da situação e compuseram um novo álbum, “A Dramatic Turn of Events” antes mesmo de conseguir um substituto para Portnoy. Assim sendo, quando finalmente se escolheu Mike Mangini para a posição, ele acabou atuando quase como um músico de estúdio, basicamente gravando o que Rudess e Petrucci haviam programado. Como álbum de transição, o disco não fez feio. Na verdade, ele rendeu à banda sua primeira indicação ao Grammy com a faixa “On the Backs of Angels”. A expectativa, no entanto, era para saber como soaria um novo álbum do Dream Theater, dessa vez com Mangini participando ativamente na composição das músicas. O resultado é esse trabalho apropriadamente auto-intitulado, o décimo segundo da carreira do Dream Theater e que mostra que a ausência de Portnoy não só fora superada, como abre caminhos para o som do grupo que, provavelmente, não seriam trilhados caso ele ainda decidisse o que a banda faria.

“Dream Theater” é aberto com “False Awakening Suite”, uma introdução cinematográfica que é mais característica de bandas européias adeptas do (ah, os rótulos) Symphonic Metal do que do Dream Theater. Apesar de ser dividida em três partes (“Sleep Paralysis”, “Night Terrors” e “Lucid Dream”), ela tem pouco menos de três minutos e apenas prepara o clima para o que vem a seguir. Podemos dizer que o álbum começa mesmo com “The Enemy Inside”, que já abre com um belo riff de Petrucci e Mangini marcando presença. É interessante notar que o teclado de Rudess, sempre onipresente, aqui fique em segundo plano. (O vocalista) James LaBrie mostra mais uma vez que superou há tempos a fase em que só gritava e novamente apresenta uma interpretação vocal condizente com o clima e letra da canção.

“The Looking Glass” é a faixa mais comercial do álbum, por assim dizer. Tem menos de cinco minutos e uma levada cadenciada, quase pop, que a colocaria sem maiores problemas em uma rádio rock ou na MTV. Isso, caso rádios rock ou a MTV ainda existissem. Já “Enigma Machine” é a primeira faixa instrumental do Dream Theater (se descontarmos “False Awakening Suite”) a ser gravada desde o álbum “Train of Thought”, de 2003. Aqui, como não poderia deixar de ser, o destaque vai para a dupla Petrucci/Rudess. No entanto, é bom citar que aqui temos uma das poucas músicas do Dream Theater onde o baixo de John Myung recebe algum destaque.

“The Bigger Picture” traz de volta, em termos, o clima radiofônico, apesar de ser uma faixa que, devido à sua duração – quase 8 minutos – não vejo sendo tocada em rádios. Ela faz a vez de power balad em “Dream Theater”, algo que não é muito comum na banda. Normalmente o Dream Theater prefere investir em baladas mais descaradas, como “The Spirit Carries on”, do álbum “Metropolis Part II: Scenes from a Memory”.

Uma introdução bastante climática, com um quê de psicodélico marca o começo de “Behind the Veil”. Essa é uma faixa bem típica do Dream Theater, com seu refrão pegajoso e suas características mudança de ritmo e tempos quebrados que são o arroz com feijão do rock/metal progressivo. Um dos destaques individuais do álbum, na opinião desse humilde escriba.

“Surrender to Reason” vem a seguir e traz de volta o clima cinematgráfico/majestoso de “False Awakening Suite”, para logo dar lugar apenas ao violão de Petrucci e a voz de LaBrie. Esse interlúdio, no entanto, não dura muito e logo a música engrena novamente, se mostrando um produto típico do Dream Theater. Novamente, aqui, há um refrão grandioso e Myung colocando as manguinhas de fora. Destaque também para a variação de ritmos que acontece especialmente do meio da música em diante.

Penúltima música do álbum, “Along for the Ride” já segue mais o esquemão do Dream Theater no que diz respeito à composição de baladas. É uma música interessante, tem tudo para ser bem recebida especialmente ao vivo – o refrão é bem legal – mas, no geral, não tem nada demais.

Finalmente, é chegada a hora mais esperada pelos fãs mais radicais da banda, com a épica “Illumination Theory” e seus mais de 22 minutos, divididos em cinco segmentos: “Paradoxe de la Lumière Noire”, “Live, Die, Kill”, “The Embracing Circle”, “The Pursuit of Truth” e “Surrender, Trust & Passion”.  Com quase quatro minutos de introdução, “Illumination Theory” traz todos aqueles elementos que consagraram o Dream Theater como o melhor no que faz: peso, velocidade, técnica em nome do progresso da canção e não apenas virtuosismo vazio, quebradas de tempo, uma bela parte orquestrada, solos bem encaixados e algumas surpresas que só ouvindo pra saber. Uma faixa que fecha com chave de ouro um excelente esforço do Dream Theater em mostrar que a banda ainda tem muito a mostrar na era pós-Portnoy.

Isso, pelo menos, até a (quase) inevitável reunião daqui a alguns anos. 🙂

 

Amon Amarth – Deceiver of the Gods

A hora e a vez de Loki

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Depois de álbuns dedicados às Nornes (“Fate of the Norns”), Odin (“With Oden on Our Side”), Thor (“Twilight of the Thunder God”) e Surtur (“Surtur Rising”), os suecos do Amon Amarth resolveram que era hora de prestar a devida homenagem ao Deus da Trapaça.  Ainda que, a exemplo dos trabalhos acima mencionados, “Deceiver of the Gods”, nono álbum da banda, não se encaixe no que se chamaria de álbum conceitual ou temático, não há como negar que Loki é a figura central aqui.

O paganismo nórdico e as sagas vikings são temas recorrentes nos trabalhos do Amon Amarth, tanto que, inicialmente rotulada uma banda de Melodic Death Metal (ou Death Metal Melódico, como queiram), sua escolha lírica os levou a serem considerados um grupo de Viking Metal, ainda que contra sua vontade. Ah, a necessidade da indústria musical de rotular….

Enfim, “Deceiver of the Gods” traz pouca novidade com relação aos trabalhos mais recentes do Amon Amarth e isso, pelo menos da forma como eu vejo a coisa, é algo bom. Estão ali as guitarras ora melódicas, ora pesadas e velozes da dupla Olavi Mikkonen e Johan Söderberg, a bateria precisa e marcante de Fedrik Anderson e o baixo discreto, mas essencial de Ted Lundström, além, é claro, da voz de Johan Hegg, com seus gritos e urros que tem feito com que ele seja cada vez mais reconhecido como um dos melhores em sua área. Tudo isso junto casa perfeitamente com os temas das letras que, como sempre, se dividem entre mitologia nórdica e sagas vikings. E, quando digo que Loki tem um papel de destaque no álbum, isso não é um exagero. Das dez músicas presentes em “Deceiver of the Gods”, as quatro primeiras são totalmente dedicadas ao Deus da trapaça. A primeira, faixa título, se foca na ambição de Loki em tomar o trono de Asgard (uma vontade mais associada à figura da Marvel do que a mitológica); “As Loke Falls” mostra a luta entre Heimdall (o guardião de Asgard) e Loki, que ocorrerá durante o Ragnarök e selará o destino de ambos; “The Father of the Wolf” traz uma nova abordagem para o nascimento de Fenrir, o lobo que causará a morte de Odin no supracitado Ragnarök, enquanto que “Shape Shifter” discursa sobre as capacidades metamórficas de Loki.

Nas demais músicas, a temática viking impera. A exceção é “Hel”, que baseia-se tanto na deusa asgardiana de mesmo nome (e filha de Loki) quanto na região na qual ela reina. Um outro fator interessante dessa música é a participação de Messiah Marcolin, ex-vocalista do Candlemass, que divide as vozes da canção do Jonah. Marcolin tem uma voz limpa, que contrasta com a Marcolin e dá uma idéia de como o Amon Amarth soaria caso optasse por atuar em um gênero menos segmentado.

“Warriors of the North”, com seus mais de oito minutos de duração, fecha o álbum de maneira bastante satisfatória e mostra o porquê do Amon Amarth estar aumentando sua base de fãs a cada dia. Para não fugir da tradição, “Deceiver of the Gods” também tem uma versão dupla, com o segundo disco trazendo quatro faixas que saem um pouco do que o Amon Amarth costuma fazer, mostrando um lado mais “convencional”, por falta de palavra melhor, do seu som.