Megadeth & Black Sabbath em Belo Horizonte

Noite histórica na capital mineira

 É um clichê, mas é um fato: o dia 15 de outubro de 2013 entra para a História como o dia em que a capital nacional do metal recebeu de braços abertos aqueles que muitos consideram como os pais do gênero. Pela primeira – e esperamos, não única – vez, o Black Sabbath, com 75% de sua formação clássica, aterrissou em terras mineiras para realizar uma apresentação impecável.

Depois de passar por Porto Alegre, São Paulo e Rio, era a vez de cerca de 20 mil fãs – um público que poderia ter sido ainda maior, caso os produtores locais tivessem acertado com a banda antes, já que, quando do anúncio do show na capital mineira, muitos fãs já haviam comprado ingresso para as apresentações acima citadas – comparecerem à Esplanada do Mineirão, que, pequenos problemas organizacionais à parte, se prova um bom local para eventos desse porte, para presenciar esse evento, repito, histórico.

Symphony of Destruction

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Megadeth

O evento duplo, que teve a abertura do Megadeth, banda que passara por Belo Horizonte em 2007 em um show no Chevrolet Hall que foi marcado principalmente pelas falhas constantes no sistema de som, estava marcado, inicialmente, para as 19:00 hs. A organização do evento manteve o horário, ainda que informações provenientes de outros canais certificassem que o Megadeth deveria subir ao palco por volta das 19:45 hs, com a atração principal programada paras 21:15 hs.

O Megadeth tinha contas a acertar com o público mineiro devido ao fiasco de 2007 e parece que Dave Mustaine (guitarra/vocal), David Ellefson (baixista, que retornou à banda em 2010), Chris Broderick (guitarra) e Shawn Drover (bateria) tinham isso em mente quando, exatamente às 19:45 hs, as luzes da Esplanada se apagaram para que os telões (um no palco, dois nas laterais) exibissem uma animação na qual blocos de metal se transformavam no logo da banda que, sem maiores preâmbulos, adentrou o palco para começar sua apresentação com “Hangar 18”, música de seu maior sucesso comercial, o álbum “Rust in Peace”, de 1991. Com a galera já no clima, a banda emendou, sem pausas para conversas, “Wake Up Dead” e “In My Darkest Hour”, num setlist que, ainda que reproduzindo aquele tocado nas demais datas brasileiras da turnê, teve sua ordem um pouco alterada.

Depois das três pancadas iniciais, Mustaine finalmente se dirige ao público pela primeira vez, apenas para anunciar a execução de “Kingmaker”, única música retirada do último álbum da banda, “Super Collider”. Apesar de ser bem recebida, ela ainda não tem a força das músicas que viriam a seguir e a prova disso foi a resposta do público a “Sweating Bullets”, “Tornado of Souls” e “She-Wolf”. “Symphony of Destruction” veio a seguir e causou uma reação tão animada do público que nos fez pensar se a estrutura da Esplanada não iria cair de tanto que a galera pulava. A clássica “Peace Sells” fechou o set e o Megadeth se despediu do público pela primeira vez. O bis, já uma prática rotineira em shows de rock/metal atualmente, não demoraria, mas, dessa vez, veio de uma maneira diferente do usual, pelo menos para aqueles acostumados à falta de empatia de Dave Mustaine.

Conhecido por entrar mudo e sair calado do palco no que diz respeito à comunicação com a audiência, Mustaine retornou sozinho para agradecer ao público presente e chegou mesmo a brincar com sua audiência, dividindo a platéia entre lado direito e esquerdo e colocando ambos para uma batalha de “quem grita mais alto”. Satisfeito com o resultado, convocou seus subalternos de volta para que “Holy Wars… The Punishment Due”, outra faixa do “Rust in Piece”, em uma apresentação que durou meros cinqüenta minutos, mas cumpriu seu papel de deixar o público aquecido para a atração principal.

Vale destacar o cuidado com que o Megadeth produziu seu show. Além dos dois telões ao lado do palco, havia mais três no palco, exibindo vídeos relacionados às músicas tocadas durante toda a apresentação. Em dois momentos a banda ausentou-se do palco e deixou trechos de filmes nos quais o Megadeth é mencionado servir de introdução a eles. Um desses trechos realmente não consegui identificar, enquanto que o outro, bem engaçado, foi tirado de “Quanto Mais Idiota Melhor 2”, um dos filmes mais clássicos da Sessão da Tarde durante a década passada.

Resumindo, pode-se dizer com louvor que a dívida que o Megadeth tinha com o público mineiro foi mais do que paga e esperamos que a banda volte logo para uma terceira passagem pela cidade, dessa vez em um show solo, no qual possa apresentar mais músicas e tocar mais do que apenas 50 minutos.

My Name Is Lucifer, Please Take My Hand

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Black Sabbath

Mal o Megadeth deixou o palco e sua equipe veio prontamente desmonta-lo para que ele ficasse preparado para a atração principal. Rapidamente o cenário foi preparado e cerca de 30 minutos após Mustaine & Cia se despedirem, um “ô ô ô ô” característico tomou o sistema de som, anunciando que a atração principal estava a caminho. Seguiu-se um som de chuva – a mesma que ameaçou desabar sobre Belo Horizonte, mas que Thor preferiu deixar pro dia seguinte – e, com ele, Ozzy Osbourne (vocal), Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Tommy Clufetos (bateria, substituindo Bill Ward) adentraram o palco já mandando ver com “War Pigs”, uma das músicas mais clássicas de uma carreira recheada delas. Com o jogo ganho desde o primeiro minuto de sua apresentação – ou, melhor dizendo, desde que a mesma fora anunciada há pouco mais de dois meses – pouca coisa poderia contribuir para que a apresentação dos “pais do metal” fosse menos do que memorável.

Diferentemente do Megadeth, o set-list do Sabbath seguiu a mesma ordem das apresentações anteriores e sucederam “War Pigs” a rítmica “Into the Void”, a grata surpresa “Under the Sun/Every Day Comes and Goes” e “Snowblind”. Também ao contrário do sisudo Mustaine, Ozzy é um vocalista carismático como poucos e se dirige ao público constantemente, pedindo para que todos gritem mais alto e fiquem loucos. Impressiona que ele ainda consiga andar pra lá e pra cá no palco e agitar ali em cima se levarmos em conta o quão debilitado é seu estado físico.

O show continua com “Age of Reason”, primeira faixa do novo album, “13” a ser tocada na noite. Ela serviu para que o público desse uma respirada, pois, mesmo sendo um produto tipicamente Sabbath, não tem a mesma abrangência das músicas mais conhecidas da banda. E esse refresco foi bem recebido, pois o desfile de petardos continuaria logo a seguir com o trio “Black Sabbath”, “Behind the Wall of Sleep” e “N.I.B”.

“13” seria relembrado novamente quando da execução de “End of the Beginning”, faixa de abertura do mesmo, mais bem recebida pela platéia do que “Age of Reason”. “Fairies Wear Boots” seria a faixa seguinte e , ao seu final, Ozzy deixa o palco para que o trio de instrumentistas do Sabbath tocassem “Rat Salad”. Tony e Geezer então deixam o palco e, durante oito minutos, coube ao baterista Clufetos manter o público no pique, uma tarefa que ele realizou a contento, especialmente quando diminuiu o ritmo frenético de seu solo e começou as batidas que marcam o começo de uma das músicas do Black Sabbath que alcançou uma nova popularidade graças à um certo super-herói da Marvel. “Iron Man” foi entoada em uníssono pelo público, que chegou a cantar junto com a guitarra de Iommi. “Ele é o Homem de Ferro”, dizia Ozzy, apontando para o guitarrista. Sensacional.

“God is Dead?” foi a terceira a última música de “13” a ser tocada pela banda e teve uma recepção bem superior às demais, talvez por ter sido lançada como single do álbum pelo Sabbath. Mais dois clássicos, “Dirty Women”, que gerou muitas imagens lascivas no telão gigantesco posicionado atrás da banda, que usou do mesmo recurso do Megadeth, exibindo vídeos relacionados às músicas intercalados com imagens da própria apresentação no palco e “Children of the Grave” fecharam a primeira parte da apresentação do Black Sabbath.

Poucos minutos depois, Ozzy volta e diz que a banda tocaria mais uma música, mas, se o público ficasse realmente louco, tocariam mais do que isso. O público reagiu como o esperado e logo os acordes de “Sabbath Bloody Sabbath” seriam ouvidos. No entanto, a banda tocou apenas a introdução dela, para emendar com “Paranoid”, talvez a música mais conhecida da banda, atrás apenas de “Iron Man”. Quando de seu final, a banda se despediu de Belo Horizonte após duas horas inesquecíveis para muita gente.

Impressiona ver o Black Sabbath no palco. A voz não é a mesma, nem o vigor físico, mas é notável como Ozzy Osbourne usa de todo seu carisma para compensar quaisquer limitações que seu passado de abuso químico tenha lhe legado. O “Mr. Madman” sabe entreter uma platéia como poucos; Geezer Butler é discreto, mas comanda seu baixo com maestria, mantendo a base para os outros como poucos baixistas no metal o fariam; apesar de preferir que Vinny Appice estivesse por trás das baquetas nessa turnê, já que ele fez parte do Sabbath quando a banda tinha Dio no vocal, Tommy Clufetos se mostrou à altura da função, homenageando Bill Ward e imprimindo sua marca ao som da banda; finalmente, Tony Iommi.

Muitas pessoas gostam de dizer que Tony Iommi não criou o heavy metal; Tony Iommi É o heavy metal. Não estão muito longe da verdade. Faltam palavras pra descrever a excelência com a qual Iommi tira riffs e solos de sua guitarra como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. Parece que tocar guitarra é algo tão trivial para Iommi quanto respirar é para nós, pobres mortais. Muitos guitarristas parecem “brigar” com seu instrumento quando fazendo solos e riffs mais elaborados. Não é o caso aqui. Discreto e eficiente, Iommi é o complemento perfeito à figura de Ozzy e tudo isso se torna ainda mais impressionante se levarmos em conta não só a sua idade, como também o fato de o guitarrista exibir toda essa competência e energia em meio à uma batalha contra um linfoma que o obriga a retornar à Inglaterra a cada seis semanas para seguir com seu tratamento.

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Uma lenda viva do metal. É isso que o Black Sabbath mostrou ser mais uma vez.

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