Unisonic – Unisonic

Michael Kiske e Kai Hansen juntos depois de 23 anos: precisa dizer mais?

 

Tem alguns lançamentos – seja nos quadrinhos, no cinema, na literatura ou na música – que colocam um sorriso em nossos lábios antes mesmo de eles se tornarem reais. Muitas vezes esse sorriso se desbota ou mesmo se apaga quando o tão esperado lançamento nos chega em mãos, pois a expectativa criada ao redor dele foi muito além da realidade proporcionada pelo mesmo. Em outras vezes, esse sorriso se mantém ou – mais raramente ainda – se alarga ao percebemos que o produto ao qual tanto esperávamos era ainda melhor do que poderíamos suspeitar. Felizmente, esse é o caso do álbum de estreia do Unisonic, que aterrissou recentemente em terras brasileiras via Hellion Records. Antes de falar sobre ele, no entanto, um pouco de contexto é necessário para aqueles que não acompanham a cena do heavy metal de maneira mais próxima.

Na primeira metade dos anos 1980, poucos anos após o NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal ou a “nova onda do metal inglês”) ter tomado o mundo da dita “música pesada” de assalto, era a Alemanha quem, timidamente, começava a reinventar o metal como todos os conheciam. Na verdade, a palavra “reinvenção” pode não refletir exatamente o que acontecia, já que, de fato, as bandas alemãs estavam para liderar a criação de um novo sub-gênero de heavy metal conhecida por “power metal” ou, de maneira mais genérica, “metal melódico”.

Formada em Hamburgo, em 1984, o Helloween seria um dos principais nomes desse novo gênero de heavy metal, que combinava a velocidade e o peso do metal tradicional com melodias mais virtuosas e harmoniozas. A formação original da banda contava com Kai Hansen (vocais e guitarra), Michael Weikath (guitarras), Markus Grosskopf (baixo) e Ingo Schwichtenberg (na bateria). Depois de dois álbuns com essa formação, o Helloween adicionou o vocalista Michael Kiske à banda (Kai optara por desempenhar apenas a função de guitarrista). Dotado de um alcance vocal absurdo e uma voz feita sob medida para aquele estilo musical, os dois álbuns lançados pelo Helloween nos anos seguintes, intitulados “Keeper of the Seven Keys part I” e “Keeper of the Seven Keys part II” provaram ao mundo que o heavy metal europeu tinha muito a mostrar. Kiske, principalmente, foi logo alçado a “Metal God” e comparado à vocalistas consagrados como Rob Halford (Judas Priest) Ian Gillan (Deep Purple) e Bruce Dickinson (Iron Maiden). Parecia que o céu era o limite para o Helloween. Aí o caldo desandou.

Brigas internas fizeram com que Kai deixasse a banda e o Helloween perdesse muito de seu apelo, já que Hansen era uma tremenda força criativa dentro da banda. Hansen foi, então, desenvolver seu projeto solo, que logo se tornaria uma banda em tempo integral, o Gamma Ray, além de trabalhar em projetos dos outros – como o Iron Savior – e ajudar bandas novatas, como o Blind Guardian. Sem Kai, o Helloween gravou dois de seus piores álbuns: “Pink Bubbles Go Ape” e o quase pop “Chameleon”. As tensões dentro da banda ficaram tão grandes que ela quase acabou. No fim, tudo se resumiu à um grande conflito entre Michael Weikath e Michael Kiske. No fim, Kiske acabou por deixar o Helloween.

Pulando partes mais tediosas, chegamos à 2010. O Helloween continuou sua carreira e aos poucos recuperou o respeito dos fãs; Kai Hansen transformou seu Gamma Ray em uma das maiores bandas do gênero e Michael Kiske meio que sumiu, gravando álbuns solo aqui e ali e participando de projetos como o (muito bom) Place Vendome e o (interessante) Supared. Kiske estava sendo mais lembrado por seu passado do que pelo presente… Salvo pelas participações importantes nos álbuns do Avantasia, projeto paralelo da mente por trás do Edguy, o vocalista Tobias Sammet. Kai Hansen também havia participado de alguns dos álbuns do Avantasia e  a turnê da banda naquele ano recolocou os dois no mesmo palco. O entrosamento de Helloween logo foi retomado, a ideia de fazer algo juntos nasceu e Kiske, após recusar o convite de se unir ao Gamma Ray por achar o som da banda muito “pesado”, convidou Hansen para que ele se juntasse ao seu novo projeto, o Unisonic. O resultado dessa ideia é justamente o debut auto-intitulado da banda que além dos exaustivamente supracitados Kiske e Hansen conta também com o guitarrista Mandy Meyer (Asia, Gotthard), o baixista Dennis Ward (Pink Cream 69, Place Vendome) e o baterista Kostas Zafiriou (Pink Cream 69).

Unisonic traz tudo aquilo que um fã de hard rock e heavy metal pode querer. Músicas para cima, com letras bem alto astral, instrumental ora cadenciado, ora virtuoso, riffs de guitarra e refrões grudentos e, claro, o vocal de Michael Kiske dando um diferencial tremendo para a coisa. É impressionante como o cara consegue, apesar de já ter passado dos 40, manter seu timbre vocal e a qualidade de seu gogó lá no alto. Isso pode se dever também, em parte, pelo fato de Kai Hansen e Dennis Ward – os principais compositores da banda – saberem exatamente o que tem em mãos e escreverem linhas vocais feitas sob medida para o careca. Com 12 faixas e já começando chutando a porta da sala com a música título, “Unisonic”, repito, mantém o nível lá em cima, com faixas variando do hard rock para o metal melódico e transitando tranquilamente por ambos os gêneros sem perder cadência ou qualidade. Músicas como “My Sanctuary”, “Renegade” e “Never Too Late”, além das baladas “Star Rider” e  “No One Ever Sees Me” são provas inegáveis do talento dos músicos envolvidos. Não houvessem banalizado o termo, o Unisonic teria todos os quesitos necessários para ser chamado de “supergrupo”. Mais até do que muito “supergrupo” que tem por aí.

Nota: 10/10 

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