Mês: Abril 2012

Blind Guardian – Memories of a Time to Come

Caça níqueis de alto nível

 Surgida na pequena cidade cidade de Krefeld, Alemanha, na segunda metade da década de 1980, o Blind Guardian se tornou uma das bandas mais bem sucedidas no sub-gênero do heavy metal conhecido como “power metal”. No caso do Blind Guardian, a banda também poderia ser considerada “symphonic metal” ou mesmo “speed metal”, dependendo do álbuma ser analisado.

Inicialmente uma banda mais direta e rápida, ao longo de seus mais de 25 anos de estrada, o Blind Guardian mostrou uma evolução constante em sua sonoridade. Uma das razões para isso pode ser o esmero com que a banda trata seus álbuns, o que faz que sua produção seja bem lenta. Desde o lançamento de “Battalions of Fear” em 1988 até “At the Edge of Time”, em 2010, contam-se apenas nove álbuns na discografia do grupo – adicionada de dois trabalhos ao vivo, uma coletâna de “b-sides” e umDVDao vivo.

E é toda a história do Blind Guardian que é abordada em “Memories of a Time to Come”, praticamente a primeira coletânea já lançada pela banda, já que “Forgotten Tales”, de 1998, como dito acima, era um apanhado de b-sides e singles.

Coletâneas são álbuns muitas vezes difíceis de analisar sem que lhe demos a pecha de caça-níqueis. Muitas vezes elas trazem exatamente isso: um conjunto de músicas escolhidas pela banda ou pela gravadora para extrair alguns cobres dos bolsos dos colecionadores e, adicionalmente, tentar apresentar o trabalho – ou parte dele – para novos possíveis fãs. “Memories of a Time to Come” faz isso e cumpre bem seu papel, já que, salvo uma música, doze foram remixadas e três totalmente regravadas.

Com esmero, banda e gravadora preocuparam-se não apenas em incluir pelo menos uma faixa de cada um de seus álbuns à coletânea, como também trazer nele o que a maioria de seus fãs considera o que o Blind Guardian fez de melhor ao longo de sua carreira. “Imaginations from the other Side”, “Majesty”, a longa “And Then There Was Silence” e as unanimidades, “Mirror Mirror”, “Valhalla” – regravada e com a presença de Kai Hansen (Gamma Ray, Unisonic) que emprestara sua voz à primeira versão – e “The Bards Song (In The Forest)”, em uma nova roupagem, são alguns dos pontos altos do lançamento.

O álbum foi lançado em duas versões: disco duplo por aqui e triplo no Japão e Europa, no qual conta com ainda com revisões das primeiras músicas da banda, quando ainda se chamava Lucifer’s Heritage. Um caça níqueis? Claro. Mas um daqueles bem legais, que satisfaz o fã e cumpre muito bem o papel de apresentar o que de melhor uma das mais criativas bandas do metal atual tem a mostrar aos novatos.

Nota: 9/10

DragonForce – The Power Within

Vocalista é a novidade no quinto álbum da banda

O DragonForce surgiu no final do século passado, mais exatamente em 1999, na Inglaterra, graças à união dos guitarristas Herman Li e Sam Totman (ambos egressos do Demoniac, uma das mais importantes bandas de black metal da Nova Zelândia) com o vocalista ZP Theart, o baixista Steve Scott, o tecladsta Steve Williams e o baterista Matej Sentic sob o nome de DragonHeart. A banda mudou de nome três anos depois, quando descobriu-se que outro grupo – brasileiro por sinal – já respondia por DragonHeart.

Como acontece com a maioria das bandas de heavy metal, antes mesmo do lançamento do primeiro álbum, o DragonForce já havia passado por diversas mudanças de formação. “Valley of the Damned”, lançado em 2003 chamou certa atenção na Inglaterra, país onde a banda se estabeleceu, mas passou despercebido ao redor do mundo pelo fato de apresentar um material interessante, de uma banda com talento, mas nada diferente das milhares de bandas similares presentes no cenário atual.

No ano seguinte uma nova mudança de formação trouxe um dos elementos que faria algumas sobrancelhas se erguerem ao ouvir a música do grupo. O baterista Dave Mackintosh, egresso da banda de black metal Bal-Sagoth se juntou à banda, substituindo Didier Almouzni. Instrumentista experiente, Dave trouxe toda sua técnica e, principalmente, velocidade para a música da banda. “Sonic Firestorm” chamou a atenção justamente pela técnica da banda e, principalmente, pela velocidade aplicada às guitarras e à bateria. Li e Totman, agora com o suporte de um baterista que conseguisse acompanha-los, passaram a aplicar uma velocidade absurda aos seus instrumentos e abusar de acordes em solos bastante elaborados.

O “pulo do gato”, no entanto, veio em 2006, com o álbum “Inhuman Rampage”, isso especialmente pelo fato da faixa de abertura do trabalho, “Through the Fire and the Flames”, aparecer em três jogos de computador: “Guitar HeroIII: Legends of Rock”, “Guitar Hero: Smash Hits” e “Brutal Legend”, além de ser conteúdo possível de ser baixado para os jogos da franquia Rock Band. Em 2007, a faixa de abertura de “Ultra Beatdown”, “Heroes of our Time”, também foi selecionada para jogos comoNHL10 e Skate 2.

Ao fim da turnê de “Ultra Beatdown”, o vocalista Z.P. Theart deixou a banda devido às populares “diferenças criativas”. Enquanto os demais membros procuravam por um substituto, o DragonForce lançou um registro ao vivo intitulado “Twilight Dementia”, ainda com Theart nos vocais. Seis meses depois, em março de 2011, foi anunciado que Marc Hudson seria o novo vocalista da banda que conta agora com Vadim Pruzhanov (teclados) e Frédéric Leclercq (baixo), além dos supracitados Mackintosh, Li, Totman e Hudson.

The Power Within” não traz muitas novidades com relação aos álbuns anteriores – salvo pelo vocalista. Uma mudança notável, especialmente com relação à “Ultra Beatdown” é o fato de o DragonForce ter investido em mais músicas com durações menores. Se especialmente em seus três últimos álbuns era raro encontrar uma faixa abaixo dos sete minutos de duração, em “The Power Within” poucas as 13 músicas ultrapassam os cinco minutos e apenas uma (“Wings of Liberty”) passa dos sete.

Há pouco a ser dito a respeito de “The Power Within”. É um produto típico do DragonForce, com guitarras à velocidade da luz, salvo nas baladas, onde a dupla Li-Totman pesa um pouco no freio, teclado bem marcante – dando todo aquele clima de música de videogame pelo qual a banda ficou famosa, ainda que aqui isso se ouça com menos onipresença – e uma cozinha baixo-bateria competente. A grande mudança, mesmo, é Marc Hudson, cujo timbre vocal é bem distinto de ZP Theart, cuja voz conseguia alcançar tons mais agudos e mante-los por mais tempo. Essa diferença, no entanto, não é tão marcante, haja vista o fato de as linhas vocais do álbum terem sido escritas justamente para se adequar à Hudson.

Lançado em 15 de abril na Europa, “The Power Within” vem com 9 faixas e 4 bônus, entre versões acústicas e ao vivo. Um vídeo para a faixa “Cry Thunder”, primeiro single do trabalho, pode ser vista no Youtube e no site oficial da banda. Como dito acima, um álbum feito sob medida para agradar os fãs, sem assumir muitos tiscos e mantendo as características que bem marcando a carreira do grupo.

Nota: 8/10

Psychotic Eyes – I Only Smile Behind the Mask

Segundo álbum de uma das promessas do death metal nacional

Formada em 1999, o Psychotic Eyes começou sua carreira como toda banda que não é o Restart: lançando demos. Duas delas foram lançadas antes que, em 2007, a banda, na época contando com Dimitri Brandi (vocal/guitarra), Alexandre Tamarossi (bateria), Valdemar Ferrari (guitarras) e Leandro Araújo (baixo), partisse para seu primeiro álbum, auto-intitulado. O trabalho chamou alguma atenção e garantiu à banda algumas apresentações ao vivo, enquanto se preocupavam com as composições do seu sucessor.

Eis que, em 2011 o Psychotic Eyes, transformado em um trio, com Dimitri e Tamarossi sendo os únicos remanescentes da formação original, adicionados do baixista Rodrigo Nunes (ex- Drowned e Eminence), entra em estúdio para seu segundo álbum, esse “I Only Smile Behind the Mask”. Após a gravação, Rodrigo deixou o barco, sendo substituído por Douglas Gatuso (Side Effectz)

Lançado exclusivamente para download no site da banda, “I Only Smile Behind the Mask” traz sete faixas do mais puro death metal. Um death metal bastante calcado na sonoridade daquele praticado nos primórdios dos anos 1980, mas também trazendo diversas influências progressivas, adicionando elementos advindos de estilos mais facilmente “digeríveis”, como heavy metal e thrash, combinados de forma a trazer um produto final bastante coeso e interessante. Um outro ponto a favor do Psychotic Eyes é o fato de a banda fugir das temáticas comumente exploradas nas letras do estilo e investir em temas mais pessoais e mesmo singelos – bom, tão singelos quanto uma banda de death metal pode ser. Provas disso são a faixa título, “Throwing Into Chaos”, escrita por Adriano Villa, a mente por trás de todas as letras do projeto Hamlet – álbum que reuniu diversas bandas tupiniquins reinterpretando a obra de William Sheakspeare – e “Dying Grief”, na qual Dimitri expressa o tornado de emoções pelo qual passou quando da morte de seu pai.

O álbum ainda guarda surpresas, em “Life”, uma quase balada – novamente, dentro do que bandas de death metal podem fazer – e em “The Girl”, uma faixa com andamento mais cadenciado que se trata de uma releitura bastante pessoal de “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque de Hollanda.

No final das contas, “I Only Smile Behind the Mask” é mais um passo na evolução musical do Psychotic Eyes, que impressiona por sua técnica e peso, especialmente por ser um power trio. Vale uma conferida.

Slippery – First Blow

Bela estreia de banda de Campinas

Formado por Fabiano Drudi (vocal), Dragão e Kiko Shred (guitarras), Erico Moraes (baixo) e Rod Rodriguez (bateria) em Campinas, o Slippery começou sua carreira nove anos atrás, em 2003, com o objetivo de fazer um hard rock puro e simples, aproveitando de todo o vigor e virtuose do som feito nos anos 1980 por bandas como Def Leppard, Mötley Crüe, Dokken, Bon Jovi, dentre outros.

O EP “Follow Your Dreams“, lançado em 2007, abriu as portas do mercado para a banda, que foi convidada no mesmo ano – e nos seguintes – para abrir shows de Jimi Jamison (vocalista do Survivor, banda mais conhecida pela música “Eye of the Tiger”, do filme “Rocky III”), Jeff Scott Soto (vocalista “nômade” cujos pontos altos na carreira foram as passagens pelas bandas dos guitarristas Yngwie J. Malmsteen e Axel Rudi Pell, a parceria com o falecido baixista Marcel Jacob no Talisman e no Human Clay e sua breve experiência com o Journey) e L.A. Guns.

Eis que, finalmente, em 2012, o Slippery lança seu primeiro álbum completo, inspiradamente chamado “First Blow”. Produzido por Átila Ardanuy (Dr. Sin, Anjos Da Noite), ao longo de suas 11 faixas – sendo 10 originais e uma cover de “Night of the Demon”, do “Demon”- o álbum é uma viagem aos anos de 1980, pura e simplesmente. Dragão, em entrevista recente ao Whiplash, disse que a banda não se incomoda e até gosta de ser comparada aos grandes nomes dos anos de 1980 e que não se importa quando dizem que seu som é cheio dos clichês da época. Pois é exatamente isso que “First Blow” apresenta: um hard rock quase farofa em alguns momentos, com um instrumental afinado, baladas melosas, e letras “alto astral”, que colocam um sorriso no rosto de quem ouve. Ah, não espere aqui letras idolatrando o tripé “sexo-drogas-rock and roll” ou, melhor ainda, “bebidas-mulheres-rock and roll” eternizado por nomes de peso no hard rock, como Kiss e Twisted Sister. O Slippery investe um pouco mais em suas letras, de forma que a superficialidade seja deixada de lado.

“First Blow” é um álbum bem homogêneo e agradável de se escutar, do início ao fim. Músicas como “Slippery”, a balada “No Time To Sorrow”, e as grudentas “Run for Action” e “Out of the light” são alguns dos destaques individuais do trabalho.

No fim das contas, “First Blow” mostra que o hard rock “datado” e “clichezento” ainda tem muito fôlego, basta que os músicos responsáveis por fazer esse tipo de música atualmente saibam o terreno no qual estão pisando. Altamente recomendado.

8/10