Mês: Outubro 2011

Anvil – Monument of Metal

Uma boa coletânea de introdução à uma banda desconhecida e velha de estrada.

A história dos canadenses do Anvil tem os elementos ideais para um filme. O roteiro é básico: banda que teve seus 15 minutos de fama, aproveitou-os enquanto pode, sumiu e quase 30 anos depois, ressurgiu das cinzas como uma fênix do heavy metal para provar às pessoas que o grupo ainda estava vivo. Na verdade, a história do Anvil se tornou um filme – na verdade, um documentário – que, aclamado por crítica e público, cumpriu exatamente o papel secundário que lhe fora atribuído: mostrar ao mundo que o grupo ainda estava vivo. E chutando bundas. No entanto, comecemos pelo princípio.

O embrião do que seria o Anvil começa em 1973, quando o vocalista/guitarrista Steve “Lips” Kudlow e o baterista Rob Reinner se conhecem na escola e começam uma amizade que se mantém forte até hoje. Anos se passam e em 1981 a dupla, complementada por Dave “Squirrely” Allison (guitarra) e Ian “Dix” Dickson (baixo) lança seu debut, “Hard N’ Heavy”, de forma independente. Donos de uma sonoridade crua, direta e cheia de energia, o Anvil chama bastante atenção na cena da época. Tanto que seu segundo álbum, “Metal on Metal” tem uma produção melhor, a cargo de Chris Tsangarides, produtor que trabalhara com nomes como Judas Priest, Gary Moore e Thin Lizzy, só para citar os mais notáveis. “Metal on Metal” e seu sucessor “Forged in Fire”, abriram diversas portas para o Anvil, sendo o ápice uma apresentação no Japão tocando ao lado de bandas como Scorpions e Bon Jovi.

Infelizmente, os “15 minutos de fama” do Anvil acabaram por aí. Nos praticamente 26 anos seguintes, o Anvil conheceu o pior lado da indústria musical. Reconhecidamente criadores de toda uma tendência, tidos como influência por bandas como Metallica, Slayer, Anthrax e mesmo Guns And Roses, o Anvil caiu na obscuridade total. Continuaram lançando álbuns – foram mais 10 nesse período – mas Lips e Reinner nunca conseguiram ganhar um tostão com a banda – mal conseguiam bancar a produção de seus álbuns, em sua grande maioria lançados de maneira independente. Aos poucos, o sonho de ser famoso com o Anvil se tornava cada vez mais um sonho irrealizável, na medida em que Lips, Reinner e qualquer um que se envolvia com a banda precisava ter empregos “de verdade” para poder ter algum dinheiro para investir no grupo.

Foi essa situação precária e de determinação irrefreável – Lips nunca deixou de acreditar que um dia o Anvil teria o reconhecimento que merecia – que o direto Sascha Gervais capturou no documentário “Anvil! Story of Anvil”. Lançado em 2008 e exibido em festivais específicos e independentes ao redor do mundo, o filme fez com que diversos olhos importantes tivessem ciência da história de vida de de Lips e Reinner, seu amor pelo heavy metal e sua determinação de nunca desistir até que sua missão fosse cumprida, seja ela qual fosse. Depois de quase 30 anos, o Anvil conseguiu estender seus 15 minutos de fama. Desde então, a banda tem sido convidada para tocar em festivais, abrir para bandas maiores e mesmo excursionar por países onde nunca havia tocado antes – como o Brasil.

“Monument of Metal”, lançado em setembro de 2011, é a terceira compilação do que é considerado o que de melhor o Anvil produziu em sua carreira. Com 19 faixas, o álbum faz um apanhado interessante de toda a carreira do Anvil, desde seus primórdios até “This is Thirteen”, seu penúltimo álbum de inéditas, lançado de maneira independente em 2006, durante o período em que Gervais acompanhou a banda com sua câmera.

Com destaques óbvios como “Metal on Metal”, “Thimb Hang” e “666”, “Monument of Metal” é um álbum daqueles que servem como um belo cartão de visita para aqueles que não conhecem o Anvil e gostariam de entender um pouco mais sobre o porque do burburinho criado em torno dela. Há de se dizer que, além de Lipps e Reinner, a atual formação do Anvil conta com o baixista Glenn Five.

Chickenfoot – III

Alcunha de “Supergrupo” pra lá de justificada

O termo “superbanda” ou “supergrupo” se tornou bastante genérico ultimamente. Basta dois ou três músicos bem sucedidos em suas carreiras solos ou respectivas bandas se juntarem para um projeto qualquer que eles clamam não ser um “projeto paralelo” e sim uma “banda de verdade” para que o termo a ela se aplique. Basta ver o bizarro Super Heavy, onde Mick Jagger e Joss Stone se unem para tocar reggae.

Devido a isso, eu tenho a tendência de usar o termo com bastante cuidado. No entanto, em sua definição mais pura, ele se encaixa perfeitamente no Chickenfoot. Afinal, qual palavra melhor se encaixaria para definir uma banda formada por quatro lendas do rock como Joe Satriani (guitarra), Chad Smith (bateria, Red Hot Chilli Peppers), Sammy Hagar e Michael Anthony (respectivamente ex-vocalista e ex-baixista do Van Halen)?

O primeiro álbum da banda, autointitulado, foi lançado em 2009, rodeado por bastante expectativa, principalmente por dois fatores: 1 – há um certo histórico no qual os ditos “supergrupos” nunca dão certo e; 2- quatro músicos bem sucedidos; quatro grandes egos. A chance de tudo soar pomposo, extravagante, pretensioso e insosso era bem grande. Logo de cara o Chickenfoot provou que, ao contrário de diversos supergrupos – e mesmo bandas regulares – os egos de cada um ali não atrapalharia. Satriani, Hagar, Anthony e Smith se juntaram não para reinventar o rock. Não, eles queriam simplesmente se divertir produzindo música boa que, por diversos motivos, não poderiam fazer em suas bandas regulares – no caso de Anthony e Hagar, nem banda eles tinham. A química e as diferentes influências que cada um trouxe para o estúdio funcionou de maneira absurdamente harmônica e “Chickenfoot” foi, de longe, um dos melhores álbuns de 2009.

Eis que chega 2011 e a banda lança seu segundo álbum, intitulado simplesmente de “III”. Segundo Michael Anthony disse em diversas entrevistas, a idéia era que o álbum se chamasse “II”, por ser o segundo da banda e prestar uma homenagem a grupos dos anos 1970 que o faziam – se você não se lembra do “Led Zeppelin II”, por favor, deixe o hall e vá escutar pagode 🙂 – Mas, ainda segundo Anthony, o grupo sentiu que evoluiu tanto desde seu primeiro álbum que era como se eles ja tivessem gravado um segundo, logo, chamar esse lançamento de “III” fazia sentido. Para eles, pelo menos.

Desde “Last Temptation”, que abre o álbum, até “Something Going Wrong”, que fecha os trabalhos, “III” apresenta pura e simplesmente um rock and roll das antigas pra lá de bem tocado. Cheio de groove e feeling, com todos os músicos se destacando em suas respectivas posições sem atropelos ou exageros. Quem acha Joe Satriani um guitarrista que abusa da virtuose em solos e riffs elaborados mas sem emoção – uma opinião da qual este que vos escreve discorda diametralmente – deveria escuta-lo aqui. Tudo que Satch faz aqui, sejam os solos, sejam os riffs, tem o objetivo único de servir ao progresso das músicas, tornando-as mais interessantes do que seriam se tocadas por um guitarrista com menor qualidade; Hagar continua cantando no tom que lhe é peculiar, variando sussuros e gritos quando eles são necessários; já a cozinha formada por Anthony e Smith está cada vez mais entrosada. Aliás, é impressionante escutar Chad Smith no Chickenfoot e perceber o quanto ele se dá bem mesmo em um estilo musical que é bastante diferente do que ele está acostumado a fazer em sua banda principal.

Aproveitando o lançamento de III, a gravadora Hellion Records, responsável pelo mesmo, resolveu também lançar o primeiro álbum da banda por aqui, até então inédito em versão nacional. Imperdível para qualquer fã de Satriani, Van Halen, RHCP e rock em geral.

10/10